1.9.05

O Vocabulário Cético

A prova de que o combate às pseudociências ainda têm um longo caminho para percorrer no Brasil é que nem sequer desenvolvemos o vocabulário adequado para isso.

Vejam o termo Conspiracists por exemplo, que em inglês se aplica àqueles que culpam teorias da conspiração por qualquer coisa fora da ordem. Ao tratar dos Moon Conspiracists no meu artigo sobre o mito de que o Homem não foi à Lua, precisei lançar mão do neologismo "conspiracionistas". Na verdade minha primeira opção era cunhar o termo "conspiracistas" que me parecia mais fiel ao original, mas desisiti quando descobri que a palavra não tinha nenhuma ocorrência no Google. Se "conspiracionista" ainda não está no Aurélio, ao menos já aparece na versão em português do Dicionário Cético.

A própria atividade fim do ceticismo organizado é difícil de ser traduzida. Debunk é o que fazem os céticos quando desaprovam teorias malucas, desmascaram charlatões e desmistificam mitos. Um debunker não precisa ser um cético ativista e certamente nem todo cético ativista é um debunker, já que muitos duvidam por duvidar e criticam por criticar. Um debunker nem precisa ser um cientista; mágicos como James Randi e, no passado Harry Houdini, são exemplos ótimos de debunkers. Por isso seria muito útil se tivessemos uma palavra em português para distinguir as duas coisas. Como bunk é algo grosseiramente falso - em inglês é como bullshit, ou crap - então talvez uma tradução possível fosse "desbesteirizar". Pensando bem é melhor aportuguesar o debunker... (em tempo: em espanhol percebi que o pessoal usa com sucesso o termo "desmontar" (ou "desconstruir") que serve bem afinal para traduzir debunk, mas ainda deixa o problema de arranjar uma palavra para o debunker, já que desmontador não fica nada bom...)

Também nos falta o vocabulário para fazer uma distinção adequada entre Medium e Psychic. O primeiro, que em português é médium mesmo, é aquele que funciona como um rádio para o além, transmitindo mensagens de quem já morreu. O segundo, que em português costumamos traduzir por "paranormal", ou "vidente" em alguns casos, é quem realiza curas espirituais, enxerga auras, faz previsões do futuro... coisas desse tipo. Ou seja, todo médium é um psychic mas nem todo psychic é um médium.

Balooney é uma palavra que até pode ser perfeitamente traduzida por "papo furado", embora a expressão precise ficar assim, entre aspas, nos textos mais sérios. Mais difícil é traduzir Bogus, como em Bogus Science, outra ótima palavra fora da biblioteca do cético brasileiro. Substituí-la somente por "falso" é subtrair todo o significado de coisa tola, inútil, que não funciona e nem faz sentido. É o caso da procura pelo moto contínuo, da homeopatia e da maioria das terapias aternativas.

É preciso certa experiência ao debunker para identificar um bogus scientist. O legítimo representante da Bogus Science é uma espécie de Rolando Lero da ciência, alguém que enrola, enrola, não chega a lugar nenhum e espera que suas credenciais científicas façam o trabalho que seus argumentos não foram capazes de fazer. No Brasil o expoente da Bogus Science é o doutor Flávio Calazans, maior responsável pela devoção que as mensagens subliminares têm em nosso país. Flávio Calazans adora sentenças recheadas de jargão impenetrável que não chegam a lugar nenhum como essa:

"(...) não se pode ignorar ser a signagem subliminar como construto segundo a antropologia cultural, enquanto definidos pelo semioticista da cultura Ivan Bystrina como Códigos HIPERLINGUAIS c.f. Nunes, p. 60, ao discorrer sobre a semiosfera como cenário dos produtos do meme “semiológico” ou melhor, Semiótico.

Puro balooney, ou melhor, "papo furado"...

3 Comments:

Blogger Pedro said...

Para bogus me vem a velha expressão de araque. Bogus Science seria então Ciência de araque.

Baloney é nada menos do que mortadela em português. Como não faz sentido falar que alguém está falando um monte de mortadela, talvez um termo mais apropriado seja lingüiça, como em enchendo lingüiça. :)

1:47 AM  
Blogger Pedro said...

Continuando...

Uma outra variação aceita no inglês para conspiracist é conspiratorialist, mas isso em português ficaria conspiratorialista, o que é mais estranho ainda.

Acho que conspiracionista se parece mais com português do que conspiracistas. Pois, se já existem no português os termos revisionista e conservacionista, que têm a mesma raiz de revisão (revisionismo) e conservação (conservacionismo), é natural pensar em conspiracionista vindo de conspiração (e inventando também, por quê não, a forma conspiracionismo).

Alerta: eu não sou lingüista. :)

2:13 AM  
Blogger widson porto reis said...

Boa Pedro!

Vou até fazer um update do post mais tarde.

Widson

3:22 PM  

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