5.2.08

O problema das virgens

Outro dia lia o "Carta a uma Nação Cristã" do filósofo ateu Sam Harris. É um livro fininho de leitura agradável, companhia perfeita para se ter na mochila quando se vai para o aeroporto para mais uma ponte aérea; você começa a ler logo após o check-in, faz uma pausa para trocar o protocolar "bom dia" com as comissárias de bordo, que te esperam na porta do avião com o melhor sorriso que elas conseguem fazer àquela hora da manhã, outra pausa mais tarde para recusar a barrinha de cereal ou o biscoito de gordura trans, e antes do avião pousar você já terminou.

Então deve ter sido quase na hora da aterrissagem, já chegando ao final do livro, que mais uma vez vi mencionada aquela história de que os terroristas muçulmanos que seqüestraram os aviões no dia 11 de setembro acreditavam que, em troca de seu martírio, seriam recompensados no paraíso com um séquito de 72 virgens. Só que desta vez eu parei para pensar um pouco mais no lado, digamos, prático, deste assunto.

Supondo que a religião islâmica realmente assegure 72 virgens aos que morrem em nome de Alah, será que esta graça está reservada aos mártires ou é estendida a todos os fiéis que adentram o paraíso? E de onde vêm 72 mulheres virgens para cada homem do reino dos céus? São as almas das mulheres que morreram imaculadas que vão ao céu servir os mártires? Se não, o que reserva o céu às mulheres mártires? maridos perfeitos que nunca se esquecem de abaixar a tampa da privada? Pensando em todas estas questões decidi pesquisar um pouco mais sobre o paraíso islâmico.

Comecei pelo Alcorão. O livro máximo da religião islâmica não deixa dúvidas de que o paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, mas nada é dito sobre a quantidade de virgens que aguarda os eleitos.

"E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (...) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos."

Alcorão, surata 56, versículos 12-40.
(todas as traduções deste texto foram feitas a partir do inglês)

São inúmeras as passagens como esta que mencionam a existência no paraíso de jóias, criados jovens e cheirosos, vinho (uma extravagância, já que o islã proíbe consumir bebidas alcoólicas em vida), rios de leite, rios de mel, rios de água (que costuma ser coisa preciosa nos países muçulmanos), frutas abundantes e moçoilas virgens para fazer "companhia" aos justos... Comparado ao paraíso cristão, com seus anjos assexuados de aparência andrógina tocando harpa e entoando cânticos (quando não estão em missão para destruir alguma cidade ou coisa assim), o céu islâmico parece o Club Med dos paraísos.

Só que diferentemente da Bíblia, que é a única fonte autenticada pela Igreja das palavras de Deus, na religião islâmica o Alcorão é complementado pelos hadiths, uma coletânea de histórias sobre tudo o que supostamente disse ou fez o profeta Maomé durante sua vida, que circularam no boca a boca por mais de um século até serem redigidas em sua forma atual. É aí, nessa barafunda de textos, às vezes antagônicos, que vamos encontrar mais detalhes sobre o paraíso islâmico, incluindo o número de virgens com que os eleitos são agraciados:

"A menor recompensa para aqueles que se encontram no paraíso é um átrio com 80.000 servos e 72 esposas, sobre o qual repousa um domo decorado com pérolas, aquamarinas e rubis, tão largo quanto a distância entre Al-Jabiyyah (hoje na cidade de Damasco) e Sana'a (hoje o Iemem)"

Hadith 2687 (Livro de Sunan, volume IV).

Se esta é a menor recompensa que aguarda os felizardos no paraíso, então é certo que os servos e as virgens não foram parar lá por mérito. Quem sabe fossem candidatos ao inferno (não dizem que "é melhor reinar no inferno que servir no paraíso"?). No caso das virgens isto faria todo o sentido, já que a rotina delas no céu não é moleza; sobre isso escreveu Al-Suyuti, um renomado comentador do Alcorão e estudioso dos hadith, no século XV:

"Cada vez que se dorme com uma huri descobre-se que ela continua virgem. Além disso o pênis dos eleitos nunca amolece. A ereção é eterna. A sensação que se sente cada vez que se faz amor é mais do que deliciosa e se você a experimentasse neste mundo você desmaiaria. Cada escolhido se casa com setenta huris, além das mulheres com que se casou na terra, e todas têm sexos apetitosos."

Para as virgens o paraíso islâmico é mais ou menos como uma versão pornô do mito de Prometheus (aquele do titã que tinha seu fígado devorado todos os dias por uma águia), só que é o hímen das jovens donzelas, e não o fígado do titã, que se regenera perpetuamente.

Se você tem uma ereção permanente e o resto da eternidade nas mãos algumas dezenas de virgens não devem bastar, por isso o paraíso islâmico conta ainda com um local que, cá embaixo seria chamado de "bordel", mas que no paraíso islâmico chamam de "mercado". Segundo os hadith, Maomé teria dito:

"Existe no paraíso um mercado onde não há compra ou venda, mas homens e mulheres. Quando um homem deseja uma mulher ele vai até lá e tem relações sexuais com ela."

Al Hadis, Vol. 4, p. 172, No. 34

Os cristãos, a quem devemos a noção agostiniana de que o mundo físico é impuro, gostam muito de apontar o dedo na cara dos muçulmanos e dizer que o paraíso deles é "liberal" demais. Aí, é a vez dos muçulmanos dizerem aos cristãos que se eles querem mesmo falar sobre sacanagem em livros sagrados é bom que se lembrem que têm teto de vidro. É impressionante quanta energia é gasta na internet nesta troca de citações porno-sacras entre cristãos e muçulmanos; eu imagino que jovens beatos de ambas as religiões aprendam bastante sobre estupro, pedofilia e prostituição nestes sites.

Bem, na defesa dos muçulmanos é justo dizer que como os hadith foram escritos muito tempo depois da morte de Maomé, nem todos eles são considerados genuínos pelos estudiosos islâmicos (segundo eles, por exemplo, o trecho acima é falso). Só que mesmo as passagens consideradas verdadeiras podem ser bastante embaraçosas; em algumas delas o constrangimento dos tradutores fez com que a formosura das virgens fosse minguando até que seus detalhes anatômicos desaparecessem por completo. Eis um bom exemplo:

Versão 1 - por Arberry
Para os tementes aguardam um lugar seguro, jardins, vinhedos, donzelas de seios arredondados (maduros) e um copo transbordante de vinho.

Versão 2 - por Yusuf Ali
Para os justos haverá a satisfação dos desejos em seu coração, jardins e vinhedos, companheiras da mesma idade e um copo cheio de vinho.

Versão 3 - por Rashad Khalifa
Os justos merecerão uma recompensa. Jardins e uvas. Esposas magníficas. Drinques deliciosos.

Surah an-Naba' (78:31-34)

Mas existe uma boa chance de que os tradutores islâmicos nunca mais precisem dissimular a exuberância das virgens. Um livro publicado recentemente na Alemanha e muito bem recebido pela comunidade científica, "Die Syro-Aramaische Lesart des Koran" ("Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão"), do professor de línguas antigas Christoph Luxenberg, defende a tese de que muita coisa faria mais sentido nos textos sagrados se os tradutores levassem em conta que o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas num mix de antigos dialetos aramaicos. Por exemplo, a palavra "hur", que em árabe quer dizer "virgem", em sírio significa "branca". Assim, segundo Luxenberg, as "castas huris de olhos castanhos" descritas no Alcorão seriam na verdade "uvas brancas secas" de "clareza cristalina", uma iguaria bastante apreciada naquela época. Dá para imaginar a decepção dos mártires? Deve ser como comprar uma passagem para um cruzeiro de solteiros e ao embarcar descobrir que não vai ter mulher...

No final o problema das virgens vai ser resolvido com a troca de uma única palavrinha. Nenhum candidato a homem-bomba vai ficar mesmo muito entusiasmado em abandonar esta vida quando souber que sua recompensa por morrer abraçado em dinamite será um suprimento vitalício de passas.

Mas é claro que esta não deveria ser a solução. A continuidade da civilização como a conhecemos não deveria depender da tradução de uma palavra num livro sagrado, ou de distinguir o que de fato disse um homem denominado profeta das fantasias eróticas de um bando de velhos babões. Melhor seria se não houvesse pessoas no mundo dispostas a acreditar literalmente em histórias escritas há milhares de anos, numa época em que a maioria das pessoas sabia tanto sobre o mundo natural quanto provavelmente sabe hoje uma criança da sétima série, e tinha os mesmos temores e superstições infantis de uma criança da quinta série.


27.1.08

Que $#@! eles estão falando?

No último post um leitor anônimo deixou nos comentários a dica de uma série de vídeos no YouTube satirizando o filme "Quem Somos Nós". Eu achei os filmes tão bons que decidi legendá-los para que fiquem acessíveis para mais gente. São sete ao total, mas por enquanto legendei os dois que achei mais engraçados.

A propósito, se as legendas parecerem não fazer nenhum sentido não é por minha culpa, essa é a graça dos filmes...




15.1.08

Procura-se um desenhista

Já faz algum tempo que eu venho pensando em escrever uma série de tirinhas cômicas provisoriamente intituladas "O Dragão da Garagem em Tirinhas". Mas foi só há alguns meses atrás, num momento de raríssima inspiração em que se encontraram um inesperado ócio criativo, 80 mg de cafeína (= 1 Red Bull) e uma profunda amargura (que precisava ser esquecida) que eu passei do plano à ação; sentado na lanchonete da academia, com uma caneta bic emprestada e um punhado de guardanapos, escrevi umas seis tirinhas completas e rabisquei mais umas tantas no espaço que sobrou (ué, o Feynman não escrevia papers de física num bar de strip-tease?).

Agora, para o projeto sair daqueles amarfanhados guardanapos falta o(a) desenhista (para isso e para um monte de outros projetos que eu tenho na cabeça, como um livro infantil sobre ciência). É aí que você entra. Se você desenha bem, é idealista a respeito da importância da ciência e tem algum tempo livre para investir em projetos que, por enquanto, não trazem nenhum retorno a não ser pura satisfação pessoal, me mande um e-mail ou escreva um comentário logo abaixo. Quem sabe a gente não vira o Penny & Arcade do ceticismo?

10.1.08

Põe na conta do aquecimento global

Outro dia recebi aqui em casa, gratuitamente, a edição de janeiro da revista mineira "Encontro".

A "Encontro" é uma revista até bem caprichada, com papel bom, diagramação decente, entrevistas com gente de peso (essa trazia o ministro Ciro Gomes), muita propaganda do governo estadual e muitas colunas sociais. Sempre a vejo aos montes em cafés e consultórios de dentistas aqui por BH.

Então ali estava eu, folheando casualmente a "Encontro" e pensando comigo que papel eu tinha assinado para receber a revista de graça, quando descobri o suplemento que vinha junto com ela, chamado "Encontro Ambiental". Na capa deste uma pequena manchete chamou minha atenção: "Clima Ruim -- Aquecimento Global faz Mal para a Saúde". O que veio a seguir, meus amigos, foi a pior peça jornalística que eu vi em muito tempo. Eis como tudo começava:

O último relatório de avaliação do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU mostra que as temperaturas mundiais poderão sofrer, até o fim do século, um aumento de 1,4 a 5,8 graus celsius. A variação aponta para consequências nada animadoras como furacões, terremotos, inundações em algumas partes e desertificação em outras, extinção de espécies, fome, doenças, miséria...

Alguém pode me explicar como o aumento da temperatura pode causar terremotos!? Parece mais que a autora, sem fazer pesquisa nenhuma, jogou todas as catástrofes que pôde imaginar numa mesma enumeração. Faltaram apenas o impacto de um asteróide gigante e o Godzilla.

Ainda assim, desconfiado de tanta tragédia junta procurei o resumo do relatório do IPCC que a autora cita. Pelo que li, no caso dos furacões, o IPCC reconhece que não existe nenhuma evidência nos poucos dados disponíveis de que eles vêm se tornando mais freqüentes por causa do aumento da temperatura dos oceanos. Diga-se de passagem que, segundo o IPCC, no hemisfério sul a temperatura dos oceanos não aumentou nem um tiquinho no último século.

Mais alguns parágrafos, todos muito ruins, e vinha o seguinte:

"O aquecimento global também traz preocupação quando o assunto são as doenças vetoriais, como a dengue e a malária. (...) prevê que o aquecimento possa provocar epidemias das duas doenças, com efeitos catastróficos. (...) Em todo o país, o número de casos de dengue notificados até meados deste ano superou em 20% o total do mesmo período de 2006. Pode ser por causa do aquecimento global que favorece a multiplicação do mosquito durante todo o ano."

Pode ser, mas não é. O verdadeiro motivo para o aumento do número de casos da doença não só no Brasil, mas nos outros países subdesenvolvidos, é que aparentemente o Aedes Aegypti evoluiu e desenvolveu imunidade ao veneno tradicionalmente usado para combatê-lo; para piorar o danado agora é capaz de se reproduzir também em água suja e até sem água.

De qualquer maneira colocar a culpa no aquecimento global por alguma coisa só comparando os dados de um ano com o anterior é o pior exercício de estatística que eu já vi. Ainda mais que a autora nem se preocupou em saber se 2007 foi mesmo mais quente que 2006.

E a jornalista seguia colocando vítimas na conta do aquecimento global:

"Mais: estudos mostram que, com as mudanças climáticas, cerca de 20 a 30% dos vegetais e animais poderão ser extintos. Com isso haverá redução do alimento. Menos alimento, mais fome, mais desnutrição e morte. Sabe-se também que a água potável vai ficar mais escassa. Menos água, mais desidratação e morte. E o efeito cascata está formado."

Eu não sei de onde a autora tirou esses dados, mas as pesquisas têm mostrado que tanto as florestas tropicais quanto a agricultura estão na verdade se beneficiando do aquecimento global, já que com mais CO2 no ar e mais tempo de luz solar -- que compensa a quantidade menor de chuvas na época da seca -- a fotossíntese é favorecida. Graças a isso, no geral, a produção de alimentos deve aumentar com o aquecimento global, não o contrário.

A extinção de até 1/4 das espécies animais e vegetais, que de fato é apregoada por alguns cientistas, é uma coisa terrível sem dúvida, mas de fome só vão morrer por causa disso as pessoas que tiverem uma dieta baseada em ursos polares, lêmures, algumas espécies raras de sapos e certas aves (que não o frango).

O quadro de desidratação e morte que a autora pinta tampouco é verdadeiro, embora nesse caso ela seja apenas mais uma indolente vítima da eco-paranóia que predomina na mídia. O próprio IPCC afirma que não vai faltar água em toda a parte. As regiões mais afetadas por secas serão aquelas onde o líquido provém exclusivamente das chuvas; nas regiões mais altas, que dependem do degelo das montanhas, como boa parte da Ásia, vai haver mais água, não menos.

Quando eu achava que já estava preparado para tudo, o texto continuava assim:

"Hoje se tem uma série de alterações por causa do clima. Este ano, por exemplo, devido ao clima frio e seco, aumentou muito o índice das doenças de inverno, como pneumonias, asma e descompensação de doença pulmonar obstrutiva crônica.".

Me corrijam se eu estiver errado mas se no aquecimento global o planeta fica mais quente, por que deveríamos temer as doenças de inverno? Eu não sou médico nem nada, mas pelo que eu entendi vão haver menos casos de pneumonias, asmas e descompensação de doença pulmonar obstrutiva crônica se os invernos forem mais moderados, não é?

O trecho acima vinha acompanhado da figura de um menininho fazendo uso de um inalador, com a seguinte legenda:

"O clima seco favorece o crescimento de casos de doenças respiratórias nas crianças."

É difícil entender como a autora chegou a conclusão nada óbvia (e até anti-intuitiva; o que é estranho já que intuição é tudo o que ela parece ter usado para escrever) de que o clima vai ficar mais seco com o aquecimento global.

Como a capacidade do ar de reter o vapor de água aumenta exponencialmente com a temperatura, a umidade específica deverá aumentar com o aquecimento global, não diminuir. Como com isso aumentam também a evaporação e a precipitação, aumentam junto o risco de chuvas torrenciais e inundações.

Não correu muita tinta e a autora conseguia dizer mais uma bobagem:

"O professor (...) afirma que teoricamente as doenças de pele serão mais incidentes. 'Principalmente as relacionadas ao verão, como câncer de pele, assaduras, micoses e foto-envelhecimento' exemplifica. Os raios ultravioleta também podem ser maléficos aos olhos. Segundo o oftalmologista (...) quanto mais a pessoa ficar exposta ao sol, principalmente sem proteção de óculos escuros, maiores as chances de desenvolver problemas oculares, como a catarata."

O aumento da exposição aos raios ultravioleta, que causa todos os males citados acima, com exceção das micoses e assaduras, são uma conseqüência de outro efeito que nada tem a ver com o aquecimento global: o buraco na camada de ozônio.

O buraco na camada de ozônio é uma diminuição da concentração de ozônio da atmosfera causada pela emissão de clorofluorcarbonetos (CFC), presentes principalmente em aerossóis e equipamentos de refrigeração (diferentemente do CO2 que causa o aquecimento global, só o homem produz CFC, então não dá pra dizer que não foi a gente que estragou o planeta ou, como diria o Homer Simpson, que já estava assim quando chegamos...). Como o ozônio é responsável pela absorção da maior parte dos raios ultravioleta do sol, acredita-se que sem esta camada protetora a vida na Terra estaria mais sujeita aos efeitos nocivos da radiação (embora, pela falta de dados históricos, ainda não seja possível afirmar que houve realmente algum aumento na incidência de raios ultravioleta).

E como pièce de résistance:

"A temperatura mais quente propicia ainda o aparecimento nos pés, de frieiras e micoses de unha. (...) Outra consequência, na opinião da especialista, é o distúrbio da sudorese. 'Ora a pessoa vai transpirar muito, ora transpirar pouco. Isso pode levar ao distúrbio da sudorese, que causa o aparecimento de cravos plantares.' "

Ou seja, por causa do aquecimento global as pessoas vão suar mais. Tudo bem, de alguma maneira eu já esperava por isso. Agora culpar o aquecimento global por... frieiras? Aquele negócio que se evita com uma toalha seca e um pouquinho de higiene?

Errado não está, mas eu me pergunto: se alguém estivesse compilando uma lista das coisas ruins causadas pelo aquecimento global, começando por "aumento do nível dos oceanos" bem no topo, seguido de "proliferação de malária e dengue", "inundações" e "extinção de espécies" logo abaixo, será que haveria realmente espaço nessa lista para "aumento da incidência de frieiras"?


Discutir os efeitos do aquecimento global e o papel do homem nele é uma tarefa espinhosa, com argumentos mais políticos do que científicos de ambos os lados (argumentos que eu não estou preparado para endossar ou refutar nesse momento). Compreensivamente os jornalistas que embarcam nessa tarefa quase sempre abraçam por default este irresistível discurso eco-paranóico pré-apocalíptico. Neste sentido a única novidade do artigo da revista "Encontro" foi saber que caminharemos para o Armagedon com os pés cheios de frieira...

7.1.08

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 3

Este é o derradeiro final de "O Guia Cético para Assistir a 'O Segredo'". Talvez antes de continuar você queira conferir as partes 1 e 2.


00:44:15



"Imaginação é tudo. Ela é a prévia daquilo que a vida atrai."

Albert Einstein

Esta frase de Einstein de fato está disseminada pela Internet, então não se pode acusar Rhonda Byrne de tê-la inventado ou retirado do contexto como as outras. Mas assim como a frase de Emerson que abriu o filme, esta também não é encontrada em nenhum dos livros ou discursos do físico. Considerando-se ainda que o estilo é um pouco moderno demais, o mais provável é que esta seja mais uma das inúmeras citações bastardas que fazem parte do folclore relacionado a Einstein.

00:58:55

"É importante reconhecer que nosso corpo é realmente o produto dos nossos sentimentos. (...) Nós conhecemos o efeito placebo: o placebo é alguma coisa que supostamente não tem nenhum efeito em nosso corpo, como uma pílula de açúcar. Você diz ao paciente que ele é uma droga verdadeira e o que acontece é que o placebo tem o mesmo afeito, se não maior às vezes, do que o medicamento que seria indicado. Assim eles descobriram que a mente humana é o maior fator de cura na arte de curar."

Surpreendentemente, neste ponto "O Segredo" quase acerta. Se não fosse pelo que está tentando sugerir nas entrelinhas, John Hagelin teria finalmente acertado a mão.

Realmente o placebo apresenta resultados formidáveis em algumas situações: aparentemente funciona em cerca de 30% dos casos de dor, em 40% dos casos quando o paciente acha que está tomando Viagra e em até 50% quando usado no lugar do Prozac (alguns pesquisadores chegam a dizer que todas as drogas contra a depressão funcionam pelo efeito placebo).

John Hagelin portanto está certo em uma coisa: a disposição mental de um paciente, suas esperanças e crenças, são sim um fator poderoso em qualquer tratamento médico. Se bem que isso nunca foi nenhum Segredo...

Agora vêm os "poréns".

Porém Um
: é muito difícil dizer qual a extensão real do efeito placebo. Existe um monte de doenças que se curam espontaneamente, ou que vão e vêm em ciclos, como alergias, dores musculares, enxaquecas, crises de depressão e outras (existem doenças que o paciente nem sequer tem, são fruto de sua imaginação, como no caso extremo dos hipocondríacos). Outras doenças têm um componente psicológico tão grande que se resolvem só com um pouco de atenção e cuidado genuíno do médico (coisa cada vez mais rara) ou com o ritual mágico de um curandeiro (coisa cada vez mais comum). E na maioria das vezes o que placebo faz é estimular uma mudança saudável de hábitos e um empenho maior no tratamento. A cura nesse caso não vem do placebo mas da confiança que se deposita nele.

Porém Dois: em muitos casos o placebo simplesmente não funciona. Trate um diabético com soro fisiológico em vez de insulina e ele definhará, por maior que seja sua crença no tratamento; dê um anticoncepcional de farinha a uma mulher e ela terá as mesmas chances de engravidar do que outra que não tomou nada.

Porém Três: o efeito do placebo nunca é maior do que o efeito do medicamento de verdade. É justamente assim que se sabe quando uma droga funciona mesmo, comparando-a com o placebo. Se chá de catuaba misturado com pó de chifre de rinoceronte incrementa a ereção de alguém tanto ou menos do que uma pílula azul de açúcar então a beberagem também é um placebo.


01:00:54

"Nós temos milhares de doenças lá fora. Elas são apenas o elo fraco da corrente. Elas são todas o resultado de uma coisa apenas: stress. Quando você coloca tensão na corrente você coloca tensão no sistema e um dos elos se parte. Nossa fisiologia cria doenças para nos dar feedback, para nos fazer saber que estamos desbalanceados, que não estamos amando, que não somos gratos. Por isso os sinais corporais e sintomas [de uma doença] não são algo terrível.

A questão que é freqüentemente perguntada é: quando uma pessoa manifesta uma doença no templo do seu corpo, ela pode ser curada através do pensamento positivo? A resposta é absolutamente sim!"

Realmente existem evidências bastante fortes mostrando relação entre stress e doenças como depressão, síndrome do pânico, asma, herpes, doenças do coração, obesidade, problemas estomacais etc. Mas daí a culpar o stress por todas as disfunções psicológicas, síndromes, infecções, viroses, doenças degenerativas, congênitas etc é um exagero que não têm respaldo da literatura científica.

Pior que dizer que todas as doenças são causadas por stress é afirmar que desenvolvemos doenças por sermos mal agradecidos ou por não estarmos enamorados com o Universo. Ninguém precisa pensar muito para ver que há alguma coisa errada nessa idéia. Afinal bebês recém nascidos, novos demais para serem tanto estressados quanto ingratos, também adoecem. De fato, a maior incidência de câncer em crianças ocorre entre zero e quatro anos de idade.

E para quem insistir nessa idéia eu tenho uma novidade: animais também ficam doentes! Galinhas ficam gripadas, gatos têm diabetes, peixinhos dourados têm cálculo renal, chimpanzés contraem HIV da mesma maneira que a gente, e a taxa de incidência de câncer entre os cães é quase a mesma que entre os humanos. Tudo bem que um animal pode ficar tão ou mais estressado que um homem, mas acho que ninguém acredita que a fisiologia canina cria doenças para que os cães saibam que precisam ser mais gratos por sua ração.

01:02:36

"Nós nascemos com um programa básico, chamado auto-cura. Se você tem um ferimento ele sara; se você pega uma infecção seu sistema imunológico entra em ação, elimina aquela bactéria e se cura. O sistema imunológico é feito para se curar. A doença não pode viver num corpo que está num estado emocional saudável. Seu corpo está criando milhões de células a cada segundo. Na verdade, partes inteiras do seu corpo são trocadas literalmente a cada dia. Outras partes levam alguns meses, ou anos para serem trocadas, mas dentro de alguns poucos anos nós temos um corpo inteiramente novo!"

Não, nosso corpo não foi feito para se curar e não, você não tem um corpo novo a cada temporada.

Mesmo que uma vida emocionalmente regrada operasse milagres isso não poderia curar nem doenças degenerativas do cérebro, como o mal de Alzheimer, nem distrofias musculares, uma vez que, diferentemente das células de outros tecidos, as células do sistema nervoso e as dos músculos nunca se renovam (é verdade que estudos mais novos têm mostrado que a neurogênese é sim possível em certas regiões específicas do cérebro, ao contrário do que se acreditava, mas isso não quer dizer que estas células têm um ciclo de renovação como o filme afirma).

Quanto à alegação de que pessoas emocionalmente saudáveis não ficam doentes, existem tantas maneiras de testá-la que é até difícil escolher uma. Nós poderíamos por exemplo fazer com que a Pessoa Mais Feliz do Mundo ingerisse uma cápsula com o vírus Ebola tratando-a unicamente com musicais da Disney, tipo o "High School Musical". Como normalmente menos de 10% das pessoas infectadas pelo Ebola sobrevive, será relativamente fácil verificar se a felicidade pode realmente expulsar o vírus.

01:03:49

"Pensamentos alegres levam a uma bioquímica alegre, um corpo mais feliz, mais saudável. Pensamentos negativos, stress, degradam seriamente o corpo e o funcionamento do cérebro."

O que é uma bioquímica alegre? Só uma figura de linguagem infeliz, do tipo que abunda na Superinteressante, ou realmente enzimas saltitantes cantarolando "Age of Aquarius" enquanto processam carboidratos no ciclo de Krebs? Exagero meu talvez, mas não se esqueça que John Hagelin estava naquele outro filme, que mostrou ao mundo células dançando polka numa festa de casamento...

Até onde se sabe pensamentos alegres não disparam alterações bioquímicas no corpo, em vez disso eles estimulam o cérebro a produzir certas substâncias associadas ao prazer como dopamina e endorfinas, que têm o feliz efeito de provocar alívio de dores e atenuação dos sintomas de algumas doenças.

É claro que pensamentos negativos não são bons para ninguém, mas sozinhos não podem ser culpados por provocar doenças. Se fosse assim os hipocondríacos -- pessoas que pensam o tempo todo que estão doentes e não acreditam quando o médico lhes diz o contrário -- manifestariam doenças reais e não imaginárias, como é quase sempre o caso.

01:04:09

"Remova o stress fisiológico do corpo e o corpo faz o que ele foi projetado para fazer: ele se cura."

A não ser que você acredite que o homem foi feito de barro no sexto dia de uma semana bem movimentada, esqueça essa idéia de que nosso corpo vem com um mecanismo de cura universal projetado por um designer cósmico.

Repetindo: nosso corpo não foi feito para se curar. O único motivo das pessoas hoje não morrerem aos milhões com um simples resfriado é porque... as pessoas já morreram aos milhões no passado com um simples resfriado! É assim que funciona a evolução pela seleção natural: aqueles que sobrevivem a uma praga por serem naturalmente resistentes a ela têm uma boa chance de passar esta imunidade aos seus descendentes. Esta é a sobrevivência do mais apto, de que falava Darwin.

Por exemplo, os índios da América não morreram como moscas quando os europeus invadiram suas praias por causa de uma crise de depressão coletiva (que seria até justificável se eles soubessem que seriam convertidos ao catolicismo à ferro e a fogo e depois de alguns séculos estariam vendendo miçangas nas estradas....). Morreram porque foram expostos a novos tipos de vírus -- principalmente Influenza (o vírus da gripe) e varíola -- para os quais não tinham ainda imunidade (sobre isso recomendo o excelente livro "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond). O mesmo aconteceu mais tarde com a gripe espanhola, que matou 5% da população do planeta no início do século. Se um designer planejava nos projetar resistentes a todas estas doenças desde a versão 1.0 ele fez um péssimo trabalho de engenharia...

01:11:01

"Uma das questões que eu recebo quase todo o tempo e que provavelmente está na sua cabeça agora é 'bem, se todo mundo usa o segredo e todos tratam o universo como um catálogo nós não vamos acabar com tudo? se todo mundo for ao caixa ao mesmo tempo isso não vai quebrar o banco?'

"A beleza do ensinamento de o segredo é que há mais do que o bastante para todo o mundo. Existe esta mentira, que age como um vírus na mente da humanidade, e esta mentira é que 'não há o bastante para todo mundo'; que há falta, que há limitação, que não há suficiente. Esta mentira faz com que as pessoas vivam com medo, ganância, avareza e estes pensamentos se tornam sua experiência. Assim o mundo tomou essa pílula do pesadelo [aqui o filme mostra um contigente militar indo à guerra]. Mas a verdade é que há o bastante para todo mundo; há mais do que o bastante de idéias criativas, há mais do que o bastante de amor, há mais do que o bastante de alegria."

Idéias criativas e amor, uma ova! Citando os Beatles, as melhores coisas da vida são de graça, mas você pode deixar isso para os pássaros e abelhas; agora me dá meu dinheiro que é isso é o que quero!

É um (triste) fato, não uma mentira ou um vírus: não há recursos naturais suficientes no planeta para sustentar indefinidamente as atuais taxas de crescimento econômico, tomando como base o padrão de consumo americano. Na verdade, os economistas estimam que se toda a população do mundo de repente começasse a consumir e gerar lixo nas mesmas quantidades que os EUA, seria necessário que nosso planeta fosse seis vezes maior.

01:12:19

"Todo grande mestre que já andou por este planeta nos ensinou que a vida deveria ser abundante. E assim, toda vez que nós pensamos que os recursos estão acabando, nós achamos novos recursos para fazer a mesma coisa."

Pode ser, pode não ser. Mas provavelmente no tempo dos grandes mestres nem todo mundo sonhava em ter banheiras de hidro-massagem em casa ou Hummers na garagem.

01:14:21

"Pense nisso por um instante: pegue sua mão e olhe para ela. Sua mão parece sólida mas não é. Se você a colocar num microscópio apropriado verá uma massa de energia vibratória".

É difícil entender aonde o sujeito que disse que não sabia o que era a eletricidade quer chegar, mas mesmo que você metesse a sua mão debaixo de um Microscópio Eletrônico de Tunelamento (o que a rigor não seria possível de qualquer maneira, mas aqui eu estou sendo apenas chato), você poderia no máximo resolver os átomos que compõe a superfície da sua mão, nunca veria alguma coisa parecida com uma "massa de energia vibratória".

Só para constar: energia não é uma entidade que pode ser observada, no sentido em que se observa uma pedra caindo ou um átomo. Mal comparando é como observar o vento, você não o vê diretamente, apenas vê o seu efeito nas coisas.

01:14:33

"Tudo é feito exatamente da mesma coisa, seja sua mão, seja o oceano ou uma estrela. Tudo é energia. E deixa eu te ajudar a entender isso: existe o Universo é claro, e nossa galáxia e nosso planeta, e então tem as pessoas e dentro delas, o orgãos, e as células e então vêm as moléculas, e os átomos e dentro deles há energia. Logo, há um monte de níveis sobre os quais falar, mas no final tudo no universo é energia."

"Não importa em qual cidade você vive, você tem energia em seu corpo, energia potencial, para iluminar uma cidade inteira por aproximadamente uma semana"

Vamos começar pelo final, que parece alguma coisa que o Morpheus disse em Matrix enquanto segurava uma pilha Duracell. O Brasil consome aproximadamente 2.000 kWh por pessoa anualmente (este número é seis vezes maior nos EUA). Fazendo as contas para quanto uma cidade de 1 milhão de habitantes consumiria em uma semana, dá mais ou menos 40 milhões de kWh. Deixa eu ver... nop, não há como extrair essa energia elétrica de um único corpo humano (a não ser é claro que você se lance dentro de um reator de fissão nuclear, mas eu acho que pouca gente está disposta a fazer isso).

A NASA, que por motivos óbvios tem o maior interesse em conseguir aproveitar a energia corporal nas viagens espaciais, calcula que uma pessoa dormindo pode gerar até 81 W de energia aproveitável, uma pessoa andando 163 e um maratonista 1048, o que daria no geral, calculam, uns 11 kWh por dia. Isso dá menos de 80 kWh em uma semana (na prática esse número seria muito menor pois é impossível com os meios atuais transformar a energia corporal em eletricidade com 100% de eficiência; por exemplo, os materiais termoelétricos existentes hoje só conseguem converter 3% do calor do corpo), muito abaixo dos 40 milhões necessários para manter uma cidade.

O outro erro é dizer que a energia está dentro dos átomos. Como Einstein mostrou com sua famosa expressão E=mc^2, matéria é energia. O que isto quer dizer é que a massa pode ser considerada como uma forma de energia (mas não o contrário); isto não quer dizer que se você observar a matéria em um microscópio muito poderoso chegará ao ponto em que verá a energia.

[Atualização] Realmente a Teoria das Cordas ("String Theory") ou como é mais comumente chamada hoje em dia, Teoria do Tudo ("Theory of Everything" ou "TOE"), defende a idéia de que a matéria é constituída não de partículas, mas de absurdamente minúsculos campos de energia vibratórios (as tais "cordas"). Infelizmente esta teoria, apesar de sedutora por unificar a teoria da relatividade e a teoria quântica, ainda não foi comprovada experimentalmente (alguns duvidam que possa ser um dia) nem fez nenhuma predição que pudesse ser observada, por isso continua à margem da física.

1:17:38



"Todo o poder vem de dentro e portanto está sob seu controle."

Robert Collier

Depois de Einstein, Buda e Graham Bell você poderia se achar na obrigação de conhecer esse tal de Robert Collier. Fique tranquilo: Collier é somente mais um autor de livros de auto-ajuda bem conhecido pelos íntimos do Novo Pensamento. Citá-lo tem mais ou menos o mesmo valor que citar a própria autora de "O Segredo".

01:20



Novo festival de caretas do Fred. Parece que alguém está precisando se alinhar ao Universo ou não vai ganhar filme novo esse ano...

01:24:08

"Lembre-se que nós usamos somente 5% do potencial da mente humana. Cem por cento podem ser alcançados com treinamento adequado. Agora imagine um mundo em todas as pessoas usam totalmente seu potencial mental e emocional. Nós poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa, conseguir qualquer coisa."

Já chegando ao final do filme John Hagelin lança mão do batido mito de que o homem só usa 5 ou 10% do cérebro (eu estava esperando que isso viesse mais cedo, afinal este é o maior suporte para as teorias mirabolantes sobre poder da mente).

O maior problema deste tipo de mito é que para dizer que alguém usa apenas 5 ou 10% do potencial da mente humana é preciso estabelecer quanto é 100% e ninguém imaginou ainda uma maneira de fazer isso. Por exemplo, como você vai virar para o Pelé e dizer que ele só usava 5% do potencial da mente dele para jogar futebol? Ou dizer pro Beethoven que ele só estava usando 10, ou 20, ou x porcento do potencial da mente dele quando compôs a Nona Sinfonia?

Em outras palavras, qualquer medida do potencial da mente humana será sempre arbitrária. John Hagelin por exemplo arbitrou vagamente que com 100% nós "poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa". Se isso incluir a capacidade de se teletransportar para outro planeta então acho que estamos ainda muito aquém dos 5%...

O Alexandre Taschetto escreveu um ótimo artigo sobre este mito no Projeto Ockham.

1:27:41



"Sinta-se bem."




Agora que o filme acabou eu me sinto bem melhor, obrigado.


Conclusão
Guaribas no Piauí, escolhida como marco zero do programa Fome Zero, é um dos vilarejos mais miseráveis do mundo. Lá não tem água, energia elétrica, telefone público, um posto de saúde sequer, farmácia, e o esgoto corre a céu aberto.

Em Guaribas as crianças não sonham com bicicletas, sonham com água. Se as crianças de Guaribas assistissem DVDs ou conseguissem ler livros de auto-ajuda, poderiam aprender com "O Segredo" que tudo o que precisam fazer para conseguir água -- em vez de andar 14 km, ida e volta, todos os dias, às vezes duas vezes por dia, até um açude lamacento -- é contemplar diuturnamente a foto de um balde d'água. Um dia, quem sabe, o Universo providenciará para que o próprio presidente da república apareça às suas portas saltando de um reluzente caminhão-pipa.

Mas como as crianças de Guariba não sabem usar o Segredo nem têm o que comer e o que bebem é uma água barrenta infectada pelo lixo, a taxa de mortalidade infantil por lá só é comparável às das regiões mais pobres da África. A maior parte das mulheres de Guaribas já perdeu pelo menos um filho. Rhonda Byrne poderia dizer a estas mães que seus filhos ficaram doentes porque eles, ou elas, não estavam suficientemente gratos pelo que o universo lhes oferece.

Extrapole este exemplo para qualquer rincão miserável do planeta e você verá qual o verdadeiro segredo de "O Segredo": que ele não passa de uma filosofia cruel que joga sobre os desafortunados, os doentes e miseráveis toda a responsabilidade por suas mazelas, enquanto libera os felizes, saudáveis e abastados da sua responsabilidade para com os primeiros.

E difícil entender porque uma filosofia tão egoísta veiculada em um filme tão ruim faz tanto sucesso, mesmo levando em conta sua massiva estratégia de marketing (que por aqui quer fazer da Ana Maria Braga a Oprah tupiniquim, com o livrinho "O Segredo por Ana Maria Braga"). Pois se em "Quem Somos Nós" a enganação e a pseudociência ficavam muito bem escondidas do leigo pela edição alucinada, os problemas de "O Segredo" afloram à superfície de uma maneira que qualquer um minimamente escolarizado pode ver (tanto que eu sei que este Guia Cético nunca terá a mesma importância do outro, sobre "What a Bleep Do We Know").

É claro que todo mundo (inclusive eu) quer saber como ganhar dinheiro sem trabalhar, emagrecer sem fazer dieta, conseguir um corpo bonito sem malhar, ficar inteligente sem estudar e ter cabelo sem fazer transplante capilar (tá, essa só eu e mais alguns). Mas só os fãs de "O Segredo" estão dispostos a não abandonar sua credulidade por coisas bobas como lógica e bom senso.



The End.

29.12.07

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 2

Antes de você começar a ler esta continuação do Guia Cético para Assistir a "O Segredo" deixa eu dizer que este foi um dos artigos mais difíceis que já escrevi para o Dragão da Garagem.

Não que algum argumento de "O Segredo" tenha sido particularmente desafiador. Foi justamente o contrário. Comparado a "What a Bleep Do We Know", que fazia um bom trabalho tentando se disfarçar de documentário científico, "O Segredo" trata a ciência de forma tão infantil que na maior parte das vezes eu me via sem saber nem como começar a rebater as alegações do filme. Era como ter que explicar que não é um anão dentro da máquina de coca-cola que conta o dinheiro e coloca as latinhas na fenda.

Além disso, enquanto "Quem Somos Nós" possuía um certo charme de filme trash que ajudava a tornar, digamos, curiosa, a experiência de assistí-lo (o hilário sotaque lemuriano de Ramtha, os efeitos especiais de propaganda de shampoo, as células com olhinhos e boquinhas sendo dizimadas por um bombardeio de peptídeos etc.),"O Segredo" é exatamente tão interessante quanto pode ser uma convenção da AmWay ou da Herbalife (o que deve te dar uma boa idéia de quão insuportável foi assistí-lo até o fim).

Bem, mas a missão está cumprida. No final das contas acabei extrapolando um pouco e comentando não só as enganações científicas mas também os problemas éticos que "O Segredo" levanta. Com isso esta continuação acabou ficando muito maior do que eu gostaria. Como pensando bem não existem muitas "dulogias" famosas por aí, achei uma boa idéia quebrar o post em duas partes mais. A boa notícia é que a terceira parte já está praticamente pronta e sai logo em seguida.

Vamos então a segunda parte do Guia Cético para Assitir a "O Segredo".


00:03:32



"O Segredo é a resposta para tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será."

Ralph Waldo Emerson

Ralph Waldo Emerson, poeta e ensaísta americano famoso no século XIX pelos seus discursos abolicionistas, está para a literatura de seu país mais ou menos como Castro Alves está para a nossa. Quem vê uma figura literária do seu porte citando o Segredo assim, tão explicitamente, é até capaz de acreditar no causo do segredo ancestral desenterrado por Templários que foi transmitido só a alguns iniciados até ser acobertado por uma conspiração malvada.

O problema é que tudo indica que Emerson nunca disse as palavras acima. Se você fizer uma busca na internet verá que todo mundo que atribui a frase à Emerson cita "O Segredo" como fonte.

Por exemplo, Julia Rickert, jornalista do jornal on-line Chicago Reader, foi uma das que procurou a fonte original da frase de Emerson. Depois que nem mesmo os especialistas na obra de Emerson conseguiram ajudá-la, Julia decidiu contactar a editora de "O Segredo" e perguntar de onde Rhonda Byrne havia tirado a citação. Tudo o que conseguiu, além de uma mensagem padrão isentando a editora da responsabilidade pelo conteúdo do livro, foi a promessa de que a questão seria endereçada à autora.

Ou Rhonda Byrne descobriu alguma obra inédita de Emerson enterrada sob uma pirâmide durante todo o último século, ou ela simplesmente inventou a frase.

00:03:38

"Você provavelmente está sentado aí pensando "O que é o Segredo"? Eu vou lhe dizer como eu vim a entendê-lo. Todos nós estamos submetidos a uma força infinita. Todos nos guiamos exatamente pelas mesmas leis. As leis do universo são tão precisas que nós não temos nenhuma dificuldade para construir naves espaciais que levam pessoas à Lua. E nós podemos dizer a hora do pouso na Lua com a precisão de uma fração de segundo. Não importa se você está na Índia, Austrália (...) [uma lista enorme de países], todos nós estamos submetidos a uma única força, uma única lei: A Atração. O Segredo é a Lei da Atração."

Aqui o sr. Bob Proctor afirma que a lei da atração é uma lei da natureza, tão precisa e prevísivel quanto a lei da gravidade. Aparentemente o gancho para essa alegação extraordinária é simplesmente o fato de que ambas têm o nome de "lei".

Uma lei da natureza é uma representação simples, geralmente matemática, de um comportamento da natureza. Por exemplo, a lei da gravidade diz que os corpos se atraem com uma força proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Essa é uma lei da natureza porque os físicos acreditam que ela é universal e imutável (e obviamente independente da existência humana). É assim que devem ser as leis da natureza.

Mas nem tudo o que tem o nome de "lei" é uma lei da natureza. Por exemplo, nas outras áreas de conhecimento você pode chamar de lei qualquer regra empírica que pareça se aplicar com uma certa (e maleável) regularidade. Assim temos, por exemplo, a lei de Moore segundo a qual "a cada dois anos a capacidade de processamento dos microprocessadores dobra", e a lei da oferta e da procura que diz mais ou menos que "quanto menor a oferta e maior a demanda de um produto mais caro é o preço cobrado por ele". Mas é claro que estas não são leis no sentido estrito que a ciência lhes dá, afinal ninguém espera que elas sejam universais nem atemporais, e isso vale também para a lei da atração.

Tudo bem, você está disposto a reconhecer que a lei da atração não é uma lei da natureza só porque tem a palavra "lei" no nome. Mas e daí? será que a lei da atração realmente não é previsível o suficiente para ser comparada a uma lei da natureza (o que afinal de contas é o quer provar o filme)? Bem, se tudo o que eu disse sobre os furos da lei da atração na primeira parte deste Guia não foram suficientes para responder esta pergunta, talvez a gente possa tentar uma outra abordagem. Para isso vamos pensar numa outra lei muito parecida com a lei da atração: a lei de Murphy.

A lei de Murphy diz que "tudo o que pode dar errado vai dar errado no pior momento e de maneira que cause o maior dano possível" e cá entre nós, ela "funciona" muito melhor do que a lei da atração (ou vai dizer que seu computador nunca deu pau quando você mais precisava dele? ou que justamente nos dias em que você esquece o guarda-chuva caem as maiores tempestades!?). E se a lei de Murphy não atrai coisas, como a lei da gravidade, pelo menos se encarrega de fazer como que as torradas sempre caiam com a manteiga para baixo... (aplicação de um corolário da lei de Murphy conhecido por "gravitação seletiva" que faz com que as coisas caiam de forma a causar sempre o maior estrago possível).

Tanto a lei de Murphy quanto a lei da atração nos dão a sensação de que "funcionam" porque temos a tendência de colher seletivamente os exemplos da sua eficácia (o tal "wishfull thinking"). Enquanto na lei da atração geralmente pinçamos as casualidades fortuitas e os desejos realizados para nos convencer que ela dá certo, na lei de Murphy é quando as coisas dão errado apesar de todos os nossos esforços, que a lei se confirma uma vez mais (aí só resta usá-la como desculpa: "sabe como é chefe... é a lei de Murphy...").

Oposta na finalidade mas igual no mecanismo, a lei da Murphy é apenas uma gozação global com a mania humana de enxergar padrões onde eles não existem. Por outro lado sua nêmesis, a lei da atração, aspira ser equiparada a uma lei da natureza...

00:06:11 [atualizado]

"O que a maioria das pessoas não percebe é que um pensamento tem uma freqüência. Nós podemos medir um pensamento. É como se você estivesse pensando uma mesma coisa repetidamente, ou como se você estivesse imaginando ter um carro novo em folha, conseguir o dinheiro que precisa, encontrar sua alma gêmea. Quando você faz isso está emitindo aquela freqüência. Pensamentos estão enviando aquele sinal magnético para fora da sua mente e este sinal está atraindo o sinal correspondente de volta para você. Veja a si mesmo em abundância e você vai atrair isso para você. Funciona sempre e funciona com qualquer pessoa."

Aqui "O Segredo" nos dá duas opções, ambas incorretas é claro: ou o filme fala em sinal magnético querendo dizer na verdade sinal eletromagnético (como uma onda de rádio, por exemplo, opção reforçada pela associação com a palavra "freqüência"), ou se refere mesmo a um campo magnético, o que é meio difícil de entender já que os campos magnéticos atraem o seu oposto, como fazem os imãs, não o seu semelhante -- como teoricamente faria a lei da atração. Como tudo é possível tratando-se desse filme, vamos analisar as duas opções.

Primeiramente é preciso esclarecer a diferença entre uma onda eletromagnética e um campo magnético. Um campo magnético é um campo de forças distribuído no espaço que faz, por exemplo, com que os pólos opostos de um imã se atraiam. Agora, quando um campo magnético e um campo elétrico oscilantes se propagam juntos no espaço (perpendicularmente um ao outro) dão origem a uma onda eletromagnética, como as ondas de rádio e a luz visível por exemplo. Fisicamente falando, uma onda eletromagnética não atrai coisa alguma só porque tem "magnética" no nome; em vez disso ela carrega energia, como no caso da luz solar.

Um pensamento é uma reação química que produz eletricidade, e como toda corrente elétrica, produz um campo magnético na sua vizinhança (por isso mandam a gente desligar os aparelhos eletrônicos no avião). Só que o campo magnético produzido pelo cérebro é tão pequeno que só pode ser medido por um dispositivo extremamente sensível numa sala completamente blindada contra interferências magnéticas. Para ser mais exato o campo magnético produzido pelo cérebro é 10 bilhões de vezes menor que o campo magnético da Terra e como sua intensidade é inversamente proporcional ao quadrado da distância da fonte, ele decai rapidamente à medida que se afasta do cérebro, tornando desprezível o que já era ínfimo. Por isso não há sentido prático em dizer que um pensamento envia "um sinal magnético para fora da sua mente".

00:12:19




"Eu quero dizer, eu não estou falando somente do ponto de vista de a-cre-di-tar-só-por-que-rer,
ou i-ma-gi-na-ção... lou-cu-ra... [Fred soletra estas palavras com muitas caras e bocas] Eu estou falando do ponto de vista de um conhecimento mais profundo. A física quântica realmente começa a apontar para esta descoberta: ela diz que você não pode ter o universo sem a mente fazendo parte dele. A mente está na verdade moldando as coisas que percebemos."

Aqui Fred Allan Wolf aparece fazendo seu papel de ligar o Segredo à Física Quântica.

O trecho poderia ser apenas uma sobra ruim das gravações de "What a Bleep Do We Know" (já devidamente refutado no nosso outro Guia Cético) se não fosse por um detalhe engraçado. Em "What a Bleep" Fred se projetava como um velhinho gente boa, sempre sorridente, o tipo de sujeito que a gente adoraria que ensinasse física para os nossos filhos. Mas em "O Segredo" ele parece ter decidido adotar a tática de que o ataque é a melhor defesa. Neste trecho por exemplo, ele se antecipa aos seus críticos e soletra com deboche e muitas caretas as palavras "wishfull thinking", "imaginary" e "craziness".

Ou seja, "No more Mr. Nice Physicist"...

00:12:55

"Veja, se você não entende uma coisa não significa que você deve rejeitar essa coisa. Você não entende direito a eletricidade. Antes de mais nada, ninguém nem sequer sabe o que é a eletricidade. Assim mesmo você se beneficia dela. Você sabe como ela funciona? Eu não sei! Mas eu sei o seguinte: você pode fritar a comida de uma pessoa com eletricidade e você também pode fritar a própria pessoa com ela."

Ai, ai... Não engula essa conversa fiada. Nós conhecemos a eletricidade muito bem, o suficiente para construir fogões e cadeiras elétricas e também células solares, geradores, microprocessadores, supercondutores, motores elétricos, televisões, rádios, telefones, iPhones, aparelhos de raios-x... preciso continuar?

00:13:28

"Duas coisas das quais você precisa estar ciente. Primeira: está provado cientificamente que um pensamento afirmativo é centenas de vezes mais poderoso que um pensamento negativo."

Este homem é um visionário. Não, sério, esta é a credencial dele; está escrito "Visionário" ali, logo abaixo do seu nome.

Mas o Visionário é na verdade um Embromador. Juntou a palavra "cientificamente" com termos calculadamente imprecisos (o que é um pensamento "poderoso", afinal?) e não disse absolutamente nada. O pobre espectador não entende nada porque não tem nada mesmo para entender, mas sai com as palavrinhas "provado cientificamente" na cabeça...

00:13:41

"Você vive numa realidade em que há um buffer de tempo. E isso funciona a seu favor. Você não quer viver em um mundo em que seus pensamentos se manifestam imediatamente."

Esse discurso acompanha a cena em que um sujeito vê a figura de um elefante em um cartão postal, pensa na coisa por alguns segundos (provavelmente desejando ter o bicho para si) e o animal se materializa bem na sua frente. Seria engraçado se eles não estivessem falando sério...

A rídicula cena responde a uma pergunta que o filme faz aqui pela primeira vez: se a lei da atração é uma lei da natureza e como tal funciona sempre e para qualquer um, por que os pedidos não se materializam imediatamente depois que pensamos neles?

Para isso, "O Segredo", oferece duas explicações (diferentes) e a primeira delas é esta aqui: o universo possui um "buffer de tempo" que atrasa a entrega do pedido até que seja mais conveniente recebê-lo. Afinal, imagine que desagradável seria pensar em um elefante e o paquiderme se materializar na mesma hora na sua sala de estar? (eu posso pensar em umas duas dúzias de exemplos mais embaraçosos do que esse, a maioria envolvendo alguma situação sexual...).

É ou não é a coisa mais estúpida que você já viu num comercial desde aquela propaganda do sofá inflável Air-O-Space?

Só para início de conversa não é assim que um buffer funciona. Um buffer é um reservatório que tem a finalidade de acelerar o acesso ou manter constante o fluxo de alguma coisa; uma caixa d'água por exemplo, ou o mecanismo anti-choque dos CDs de carro (eles mantém armazenados alguns segundos adiante da música para que não haja pausas no caso de um chacoalhar mais violento). Tudo bem, eu sei que isso é apenas picuinha. O problema real é que é bastante óbvio que esta é apenas uma rídicula explicação ad hoc (um "remendo") para explicar porque a lei da atração não se comporta como uma lei da natureza mesmo que insistam que ela é uma. Tanto que ao final do filme eles oferecerão uma outra explicação completamente diferente para o motivo da lei da atração demorar ou mesmo nunca funcionar.

00:14:53

"Nós vivemos em um Universo onde há leis, assim como a Lei da Gravidade. Se você cair de um edíficio não importa se você é bom ou mau, você vai atingir o solo. Tudo o que cerca você em sua vida, incluindo as coisas das quais você reclama, você atraiu. (...)"

Aqui "O Segredo" tenta nos convencer que a lei da atração, como uma boa lei da natureza, é tão "impessoal" quanto a lei da gravidade. Ou seja, para conseguir realizar seus desejos você não precisa ser bom, habilidoso, estudioso, competente, esforçado... Para o universo você é apenas um corpo de massa m; ele não quer saber se você é um corpo de massa m bonzinho e esforçado.

E onde você leu "Trabalhe" no trinômio "Peça, Acredite e Receba" mesmo?...

00:17:33

"O que eu estou atraindo agora mesmo? Como eu me sinto? Me sinto bem? Então continue fazendo o que você está fazendo!

"Nossos sentimentos são o feedback para saber se estamos alinhados ou não, se você está no curso certo ou não. Quanto melhor você se sentir mais alinhado está [com o universo]. Quanto pior você se sentir, mais desalinhado está."

Isso é tudo o que queriam ouvir vizinhos espaçosos, fumantes abusados, pessoas que sentem prazer em dirigir perigosamente, viciados em drogas, pedófilos, terroristas ansiosos pelas virgens de seios fartos do paraíso islâmico, serial killers que simplesmente curtem matar e basicamente qualquer outro tipo de ser humano que sinta prazer às custas da infelicidade alheia e não cultive nenhum remorso por isso. Continuem o bom trabalho pessoal.

00:20:13



"Você cria seu universo à medida que percorre seu caminho."

Winston Churchill

Essa a Rhonda Byrne não inventou; Churchill realmente escreveu isto em sua auto-biografia "Minha Mocidade". Mas vejamos o que dizia o parágrafo completo de onde o trecho foi extraído:

"Alguns de meus primos, que têm a grande vantagem de serem educados em universidades, costumam me provocar com argumentos para provar que nada existe de verdade, a não ser as coisas que pensamos. Toda a criação não passa de um sonho; você cria seu universo à medida que percorre seu caminho. Quanto mais forte sua imaginação mais diverso é seu universo. Quando você pára de sonhar o universo deixa de existir. Estas divertidas acrobacias mentais são boas para se brincar. São inofensivas e sem utilidade nenhuma. Eu aviso aos meus jovens leitores para só tomá-las como uma brincadeira. Os metafísicos sempre terão a última palavra e desafiarão vocês a demonstrar o absurdo de suas proposições."

Ou seja, Churchill estava dizendo justamente o oposto do que prega "O Segredo"! Não é irônico? Agora, graças a "O Segredo", milhões de esotéricos enaltecem a Lei da Atração citando Churchill, sem saber que na verdade ele ridicularizava este tipo de pensamento metafísico.

00:25:18

"Se você fizer uma pequenina pesquisa verá que todos aqueles que já conquistaram algum feito não sabiam como o fariam, apenas sabiam que conseguiriam."

Claro. Esqueça todo o estudo e planejamento minucioso. Quando Amir Klink se prepara para mais uma travessia pelo Atlântico ou outra circunavegação ao redor da Antártica ele apenas joga aleatoriamente alguns mantimentos e cartas geográficas pelo primeiro barco que vê e parte. Do resto cuida a Lei da Atração...

Neste ponto tem início a história do menininho que ganha uma bicicleta do pai aplicando a Lei da Atração. O garoto recorta uma foto da bicicleta dos seus sonhos e olha para ela todos os dias. Leva a foto para a beira do lago, para a escola, para debaixo da colcha e olha, olha e olha. O menino não pensa num plano para juntar dinheiro e comprar a bicicleta; talvez trabalhar meio expediente engraxando sapatos ou cortar a grama do vizinho ou fazer uma rifa... ele só... olha. Até que um dia o Universo surge paternal à sua porta com seu objeto do desejo em mãos.

A moral da história é clara, mesmo porque vem sendo martelada desde o início do filme: você não precisa se esforçar para conseguir o que quer. Basta contemplar obssessivamente o objeto do seu desejo e o universo o providenciará para você.

Apenas por curiosidade Esther Hicks, que aqui faz sua principal participação no filme (participação removida da segunda edição devido à desentendimentos a respeito do marketing de "O Segredo") é uma médium. Ela diz que seus livros são psicografados por um "espírito coletivo" (não, não me pergunte...) denominado Abraham. Cada filme tem o Ramtha que merece...

00:30:05

"Tamanho não importa para o Universo. Não é mais difícil atrair, cientificamente falando, algo que consideremos grande do que algo que consideremos infinitesimalmente pequeno."

"Cientificamente falando" importa sim. Quanto maior a coisa (na verdade é uma questão de massa não de volume) maior a força necessária para movê-la, atraindo ou não. É assim que funciona a segunda lei de Newton, essa sim uma lei da natureza. Agora se estamos falando da lei da Atração e não da lei de Newton, então... tudo bem... só que não estamos mais falando cientificamente.

00:30:16

"O Universo faz tudo o que faz com esforço zero. A grama não se esforça para crescer, ela cresce sem fazer força. Este é o grande design."

Isso é o mesmo que dizer que uma criança cresce com "esforço zero" e se você já teve que colocar comida na mesa de um adolescente em fase de crescimento sabe que não é verdade.

Mas calma lá! crescer é um processo que ocorre naturalmente não é? assim como a grama cresce de forma vagarosa mas certa (dadas as condições certas de solo, água e luz) nenhum adolescente precisa se dedicar ao ato de fazer crescer seu esqueleto, não é?

O problema é que ao usar a palavra "esforço" no sentido de "empenho", ou "dedicação", "O Segredo" está antropomorfizando o universo (atribuindo a ele características humanas). É o filme repetindo o velho truque de misturar os significados das palavras e embaralhar metáfora com sentido literal, como já fez com "lei", "atração", "frequência" e fará daqui a pouco com "energia".

No final, esta foi mais uma tentativa de convencer o espectador de que ele pode obter qualquer coisa sem nenhum esforço. Note também que pela primeira vez surge no filme a menção a um design, o que implica na existência de um designer, um projetista, do universo. Isto se repetirá algumas vezes mais.

00:37:30

"O que é interessante sobre a mente é que você pega um atleta olímpico e o prende a um equipamento sofisticado que mede sua resposta biológica. E ao fazer com que imaginem estar disputando uma prova, incrivelmente os mesmos músculos são acionados, na mesma seqüência que se estivessem competindo pra valer. Por quê isso é assim? Porque a mente não consegue distinguir quando você está realmente fazendo algo ou quando é só imaginação."

Nós já passamos por isso antes, este é exatamente o mesmo argumento usado em "What a Bleep Do We Know". Na parte 3 daquele Guia Cético eu mostrei que existe uma enorme diferença quantitativa nas áreas do cérebro que são acionadas quando imaginamos alguma coisa e quando estamos realmente diante desta coisa (o que faz com que filmes gnósticos como "O Vingador do Futuro", "Vanilla Sky" e "13o andar" permaneçam no campo da ficção científica).

00:38:00



"Que força é essa eu não sei. O que sei é que ela existe".

Alexander Graham Bell

Mais uma vez "O Segredo" manipula a verdade. Leia de novo, agora com a frase inserida no contexto original:

"Eu havia colocado na cabeça que ia encontrar o que estava procurando, nem que isso custasse o restante da minha vida. Depois de inúmeras falhas, eu finalmente encontrei o princípio que estava procurando e fiquei surpreso por sua simplicidade. Outra coisa que descobri com minha busca é que que quando um homem se dispõe a produzir um resultado definitivo e finca o pé nesta disposição isso parece lhe conferir uma segunda visão, que o habilita a ver através dos problemas comuns. Que força é essa eu não sei. O que sei é que ela existe e fica disponível quando um homem está naquele estado mental no qual ele sabe exatamente o que quer e está totalmente determinado a não desistir enquanto não o alcançar."

É possível ver que Graham Bell não estava exaltando nenhuma força sobrenatural, mas exaltando a perseverança, a obstinação e o trabalho duro, aliás completamente o oposto do que "O Segredo" vem pregando.

Uau! Rhonda Byrne conseguiria usar uma frase de Ghandi fora de contexto para defender a supremacia branca num documentário neo-nazista. Ela é boa assim.

00:41:15
"A única diferença entre as pessoas que realmente estão vivendo dessa maneira [em abundância] e as pessoas que não estão vivendo a magia da vida é que as pessoas que estã vivendo a magia da vida se habituaram a pensar dessa maneira [aplicando a lei da atração]. Elas se habituaram ao processo e a magia acontece onde quer que elas vão."

Aqui "O Segredo" separa os vencedores dos losers entre aqueles que aplicam a lei da atração e os que não a aplicam.

Este pensamento não é apenas maniqueísta. Ele é cruel. Como disse o blog Skpetic, você olharia nos olhos de cada um dos seis milhões de judeus momentos antes de serem exterminados e lhes diria que eles atraíram para si mesmos a humilhação, o sofrimento e finalmente a câmara de gás? Você explicaria para os familiares das vítimas dos recentes acidentes áereos no Brasil que não foram os erros humanos, a incompetência e a ganância criminosas, mas sim os pensamentos (de todos eles, de alguns ou de apenas um dos passageiros?) que os vitimou? Porque eu duvido que mesmo o fã mais ardoroso de "O Segredo", aquele que mal pôde esperar o filme terminar para começar a contemplar mentalmente seu carro novo e sua TV gigante de tela plana, possa sustentar que uma criança desnutrida não vive a "magia da vida" só porque é incapaz de contemplar mentalmente sua comida.



Por enquanto é só pessoal. Na terceira e última parte deste Guia veremos os trechos em que "O Segredo" fala sobre como aplicar a Lei da Atração à saúde, ao meu ver os mais manipulativos e nocivos de todo o filme.


Terceira Parte >>

25.11.07

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 1

É tarde da noite, você não tem o que fazer a não ser zapear preguiçosamente pelos canais da TV por assinatura. De repente, em um canal que não dá a mínima para o fato de que você está pagando pela programação, você se depara com mais um daqueles famigerados comerciais que duram horas, anunciando coisas como a mangueira Flat Hose ou o aparelho de abdominais Abtronic. São os infomerciais, comerciais que tentam se parecer com um programa normal nos fazendo esquecer que são só mais uma propaganda.

A maioria dos infomerciais é involutariamente engraçada (um sofá inflável!? que vem com uma bomba para inflar "inteiramente grátis"!? ) e cheios de promessas que desafiam o bom senso na maior cara-de-pau, mas até que de vez em quando um ou outro nos faz pensar em botar a mão no cartão de crédito. Nos mais elaborados o apresentador conversa com a câmera como se estivesse num documentário ou num programa de auditório e alguns até trazem uns "especialistas" (a gente sabe na hora que eles são especialistas porque sempre vestem branco) para abalizar a eficácia daquele novo aparelho abdominal ou de algum "revolucionário" gel redutor de celulite.

Bem, quando assisti a "O Segredo" para escrever este novo Guia Cético a impressão que tive foi de estar diante não de um documentário, mas de um longuíssimo infomercial de duas horas anunciando o pensamento positivo no lugar de facas Ginsu ou meias Vivarina.

Faz todo o sentido. Se o Tony Little pode prometer uma barriga tanquinho com apenas 5 minutos de abdominais por dia, não ia demorar mesmo o dia em que alguém prometesse uma barriga sarada sem nem um abdominal sequer ("O Segredo" não menciona nada sobre abdominais esculturais, mas diz que você pode emagrecer comendo qualquer coisa já que comida não engorda, pensamentos sim...). E você também não acha que a Oprah Winfrey está para "O Segredo" meio como o George Foreman está para suas Grelhas Redutoras de Gordura? (essas eu tenho, e "funcionam mesmo!")

Se você não assiste televisão, nunca viu o impagável infomercial do Tony Little e não faz idéia de quem é a Oprah, não se preocupe -- você deve estar gastando o seu tempo bem melhor do que eu. Esta introdução é apenas para que você saiba que o meu objetivo ao longo das duas partes deste Guia Cético será mostrar que "O Segredo" não passa de um produto de marketing muito bem embalado que manipula a ciência e o bom senso da mesma maneira absurda, e às vezes hilária, de um infomercial que vende meia-calça resistente à unhas de gato.

Então sem mais delongas televisivas vamos ao mais que aguardado Guia Cético para Assistir a "O Segredo" - parte 1.



É inevitável começar a escrever sobre "O Segredo" sem compará-lo a "What a Bleep Do We Know"(Quem Somos Nós).

Os dois filmes afirmam que a realidade pode ser fisicamente modificada pela força do pensamento e, para dar uma certa cientificidade a esta idéia, ambos utilizam conceitos distorcidos da ciência, especialmente da sempre maltratada física quântica. Os dois até mesmo dividem alguns de seus notáveis convidados tais como os físicos Fred Alan Wolf e John Hagelin , que praticamente reproduzem em "O Segredo" suas falas de "What a Bleep".

Mas enquanto "What a Bleep Do We Know" foi um filme de baixo orçamento e pequenas expectativas -- o filme estreou em apenas duas salas de cinema nos EUA e se tranformou num sucesso acidental graças ao "boca-a-boca" nos fóruns e listas de e-mail -- "O Segredo" foi um produto minuciosamente concebido para ser um best-seller.

E que best seller! Tanto o DVD quanto o livro chegaram ao topo da lista dos mais vendidos em quase todos os países onde foram lançados. Só o livro já é considerado o maior sucesso editorial do gênero de auto-ajuda de todos os tempos. Nos EUA as vendas foram catapultadas às alturas depois que a apresentadora Oprah Winfrey, uma das personalidades mais influentes no país, dedicou dois programas inteiros e uma grande porção de seu web site a "O Segredo".

"O Segredo" é um filme sobre a Lei da Atração, o princípio segundo o qual nós sempre conseguimos exatamente o que desejamos, nem mais nem menos. De acordo com o filme, este ensinamento -- outrora gravado em pedra (aparentemente a famosa Tábua de Esmeralda, relíquia rosacruciana) -- era conhecido apenas por uns poucos iniciados até o dia em que alguém fez uma cópia ilegal da tábua em papiro e a enterrou sob a pirâmide de Gizé. Alguns séculos depois o papiro foi descoberto por Cavaleiros Templários e confiado ao lendário alquimista Saint Germain, que o decodificou. Ao longo das eras O Segredo veio a ser revelado somente a algumas personalidades notáveis -- Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, Buddha, Winston Churchil e outros -- até chegar às mãos da produtora de televisão australiana Rhonda Byrne (ao lado juntamente com a Oprah) que, a despeito do complô de grupos poderosos para mantê-lo secreto, decidiu transmiti-lo ao populacho na forma de DVDs, livros, áudio-livros, CDs e quinquilharias diversas.


O Verdadeiro Segredo de "O Segredo"
A primeira coisa que você precisa saber sobre "O Segredo" é que ele não conta segredo nenhum (e quando um filme já engana o espectador a partir do próprio título você já pode imaginar o que vem pela frente...).

O pensamento positivo e a Lei da Atração já são a carne-de-vaca do pensamento mágico desde tempos bíblicos. O apóstolo São Marcos já tinha sua própria versão para o peça-acredite-receba de "O Segredo" : "Tudo o que pedirdes na oração, crendo, recebereis"; a versão de Buda era quase a mesma coisa: "Tudo o que somos é o resultado do que pensamos". Mas foi no século 19 que a Lei da Atração explodiu em meio a um movimento místico-religioso que se tornou conhecido por New Thought (Novo Pensamento).

O Novo Pensamento, assim como a Nova Era, têm em suas origens uma miscelânia de "ismos" metafísicos como espiritualismo, hinduísmo, budismo, panteísmo, mesmerismo etc. Mas o Novo Pensamento se diferencia da Nova Era por ser um movimento mais antigo e mais organizado, que cresceu e se mantém graças a centenas de cultos ao redor do mundo, como a Igreja da Ciência Religiosa (!), também conhecida por Ciência da Mente, a Igreja da Ciência Divina (!!), a Igreja Metafísica do Novo Pensamento, no Brasil, e o Seicho No Ie, ramificação oriental, de caráter mais ritualístico, do Novo Pensamento.

Mas atualmente o maior expoente mundial do Novo Pensamento é a Igreja Unitária (Unity Church), também conhecida por Escola Unitária do Cristianismo (Unity School of Christianity), fundada em 1889 pelo vendedor Charles Fillmore. Com mais de 2 milhões de membros e centenas de templos em todo o mundo não se pode dizer que a Igreja Unitária está tentando guardar algum segredo... Fillmore costumava dizer ter pegado o melhor de cada religião e unificado tudo em uma verdade "simplificada" que todos poderiam entender, algo que ele chamava de "cristianismo pragmático". Em outras palavras fez uma mistureba de religião formal com poder da mente. Só para que você entenda o quão distante o resultado ficou do cristianismo original, eis resumidamente alguns dos dogmas da Igreja Unitária:

Deus é a divina mente, o bem absoluto, portanto o conceito de mal é puramente ignorância. Jesus foi simplesmente uma pessoa especial, um "professor". A Bíblia só tem significado profundo quando interpetado metafisicamente. A Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo devem ser interpretados como a Mente, a Idéia e a Expressão.

Apesar de suas origens calcadas no cristianismo protestante, "O Segredo" nega que seus ensinamentos entrem em conflito com as outras religiões, se definindo mais como o menor denominador comum de todas elas. Conforme veremos na continuação deste Guia Cético, nada poderia estar mais distante da realidade.

Para se ter uma idéia de como a Lei da Atração é antiga, já em 1906 William Walker Atkinson, publicava o livro "Thought Vibration or the Law of Attraction in the Thought World" (A Vibração do Pensamento ou a Lei da Atração no Mundo do Pensamento). O livro é até hoje um marco do Novo Pensamento e recentemente foi relançado para pegar um pedacinho do sucesso de "O Segredo" (como tudo o mais que tenha "Atração" e "Segredo" no nome...).

Rhonda Byrne nunca escondeu que o livro que a inspirou a conceber "O Segredo" foi um velho clássico do Novo Pensamento, publicado em 1910: "The Science of Getting Rich" (A Ciência de Como Ficar Rico) de Wallace D. Wattles. Segundo o prefácio este era um livro para aqueles que "precisam de dinheiro mais do que qualquer outra coisa; que querem ficar ricos primeiro e filosofar depois".

Aliás, a ênfase no enriquecimento material em vez do espiritual é o único ponto em que "O Segredo" distoa um pouquinho da doutrina do Novo Pensamento, motivo pelo qual costuma ser criticado por seus adeptos (mas não tãaooo criticado assim... afinal depois do filme as fileiras dos templos como os da Igreja Unitária só fizeram aumentar). Em tudo o mais "O Segredo" é apenas uma reprodução literal dos "evangelhos" do Novo Pensamento.

Concluindo, basicamente o que Rhonda Byrne fez em "O Segredo" foi pegar um assunto surrado, juntar alguns temas da moda (conspirações, códigos escondidos por eras, Cavaleiros Templários, alquimistas), dar ao produto uma embalagem medieval (lacres, tipografia antiga, croquis amarelados etc) e voilá... mais um Código Da Vinci de não-ficção nas prateleiras.


O Pensamento Positivo e a Lei da Atração
Uma coisa sobre o pensamento positivo é que ele funciona de verdade. Ora, e como não poderia? Pessoas que cultivam pensamentos positivos não esmorecem facilmente diante de qualquer obstáculo e por isso têm muito mais chances de atingir seus objetivos. Os que encaram a vida positivamente tendem a cuidar melhor da aparência e da saúde o que alimenta seu círculo virtuoso de auto-estima e lhes dá óbvias vantagens competitivas na vida pessoal e profissional. E quando doentes, os otimistas se recuperam melhor do que os pessimistas, não por causa de alguma força sobrenatural, mas porque em geral têm mais apego à vida, se dedicam mais ao tratamento e podem contar com amigos que nas horas difíceis contribuem com afeto e dedicação.

Sim, o pensamento positivo funciona e o verdadeiro segredo do seu sucesso não reside em teorias esotérico-mirabolantes, mas na soma de uma miríade de fatores ordinários individualmente imperceptíveis. No entanto, como veremos ao longo da segunda parte desse post, existe uma boa distância entre perseguir com uma postura positiva aquele bônus de final de ano e acreditar que sua conta bancária vai aumentar só escrevendo zeros com uma caneta à direita do seu saldo, como afirma "O Segredo".

Já a Lei da Atração, ou a "lei" de que semelhante atrai semelhante, não funciona tão bem como gostariam os adeptos do Novo Pensamento. É verdade que as pessoas tendem a se agrupar em tribos onde seus integrantes compartilham afinidades religiosas, culturais e sociais. E apesar do dito popular de que os opostos se atraem, acho que a maioria concorda que uma relação precisa de mais semelhanças do que de diferenças para funcionar. Por outro lado, se os endinheirados sempre atraíssem outros endinheirados eles não precisariam de carros blindados, e agiotas não teriam lucro fácil se gente com dinheiro demais não atraísse gente com dinheiro de menos.

Se a Lei da Atração parece funcionar tão bem é porque recebe uma boa maõzinha da nossa imaginação (algo melhor condensado na expressão inglesa "wishfull thinking"). Normalmente ninguém conta todas as vezes em que "atraíram" algo que não desejaram de jeito nenhum como uma visita da sogra bem cedinho no domingo ou um pneu furado em dia de chuva (afinal "shit happens!"), mas quando algo que desejamos à beça se concretiza... lá vai mais um ponto para a Lei da Atração!

"O Segredo" ensina que a Lei da Atração pode ser posta em ação pelo trinômio peça-acredite- receba, mas na prática a coisa toda é tão cheia de meandros que deixa bastante espaço para o exercício do wishfull thinking (aceito sugestões para uma tradução elegante). Por exemplo, segundo Lisa Nichols, uma das colaboradoras de "O Segredo", a Lei da Atração na verdade é assim meio como o bordão daquela antiga propaganda de guaraná: tem que saber pedir. Eis o que ela disse à revista Veja (edição de 4 de abril de 2007, que tem o filme na capa):

"Se pedir o que não é melhor pra você, você não ganha. Eu já desejei muito errado. Quis ficar com homens que achava serem perfeitos para mim, mas que não eram. Por isso não consegui."

Em outras palavras meu amigo, não adianta nada pedir a Juliana Paes se o Universo achar que você merece mesmo é a Betty, a Feia.

E se as coisas estão demorando demais a acontecer? A Lei da Atração falhou? Que nada... pode ser que simplesmente não seja ainda a "hora certa". Segundo Marrie Diamond, fengshuista e outra das professoras de "O Segredo", a Lei da Atração tem uma espécie de dispositivo que impede que você consiga tudo o que quer ao mesmo tempo, provavelmente para não enfartar de felicidade o desejante:

Sempre sonhei ir ao Brasil. Estar conversando com você [o jornalista da Veja] é um sinal de que isso vai se realizar. Mas as coisas têm que acontecer na hora certa. Não dá pra ter tudo ao mesmo tempo.

Por segurança é melhor não ser muito específico ao encomendar seu objeto de desejo, ou você corre o risco de não ter muita utilidade para aquele iPhone de 8GB quando, daqui a 10 anos, o Universo finalmente decidir que a "hora certa" chegou.

E o Jonh Hagelin? Lembram-se dele? O físico que acredita que a meditação reduz a criminalidade? Ele disse à mesma revista:

"Não há o perigo de todas as pessoas de Nova York desejarem um carrão e todas conseguirem. Primeiro porque só as pessoas com verdadeiro poder de pensamento vão conseguir, e elas são poucas. Segundo porque se uma coisa não atende ao bem comum a mente desenvolvida não a deseja."

Eu não só tenho uma mente "desenvolvida", como realmente acredito que o iPhone atende ao bem comum de transformar o mundo num lugar melhor, um mundo onde as pessoas possam ser mais felizes deslizando seus dedos pela tela, em vez de sofrer com aquelas teclinhas minúsculas no meio do aparelho. Posso pedir o meu agora? rápido, enquanto eles ainda tem a coisa em estoque?


A Ciência em "O Segredo"
Até aqui tudo o que eu fiz foi mostrar que a coisa mais secreta em "O Segredo" são os detalhes de sua campanha de marketing. Se a moda de reciclar velhos esoterismos pega, daqui a pouco homeopatas, fengshuistas, radiestesistas, astrólogos... todos vão ter algum segredinho para contar por R$ 39,90. Quanto ao pensamento positivo, ninguém pode discordar que mesmo não tendo ele nada de mágico ainda assim é algo que deve ser cultivado (desde que você simplesmente não vá se sentar sobre ele enquanto espera que o Universo providencie seus desejos).

Na próxima parte deste Guia Cético vamos debulhar a ciência em "O Segredo" e desmontar todas as falácias, mentiras, exageros e simplificações que este longo infomercial comete para vender o pensamento positivo.


Segunda parte >>


PS: Foi mal a demora!

22.7.07

Os discos evangélicos mais estranhos de todos os tempos

Quando alguém fizer a lista dos discos mais bizarros de todos os tempos terá que incluir "Demônios que Choram - Espantosas Gravações de Demônos Falando Através das Pessoas Possuídas por Eles" (Crying Demons - Amazing Recordings of Demons Speaking Through People Who Are Possessed by Them). Só a capa já garante o posto:




O álbum é uma coleção das gravações dos exorcismos realizados pelo famoso pastor americano A. A. Allen nos anos de 1960. O disco de vinil é uma raridade (parece que a maior parte do estoque se queimou num incêndio em um depósito décadas atrás), mas o CD ainda pode ser comprado (US$ 9,90) através do site mantido pela família de Allen. Vale a pena. A julgar pela amostra grátis que é possível escutar em alguns sites o disco é tão trash quanto a capa.

Em um trecho por exemplo, ouvimos Allen expulsando um demônio de uma mulher em um ritual que lembra mais a negociação com uma criança mimada do que com um demônio das profundezas do inferno:

"Diabo, você vai sair.", comanda com autoridade o pastor
"Eu não vou a lugar nenhum...", responde sonolentamente o diabo.
"Você vai sair daí."
"Eu não vou a lugar nenhum..."
"Você vai sair daí."
"Não..."
"Você vai!"
"Não..."
"O que faz você pensar que não vai sair?"
"Eu não vou."
"Você vai sair sim!"
"Nãaaaaoooo, eu não tô te incomodando...", diz o diabo como uma criança birrenta cujo pai estivesse mandando para a cama muito cedo.
"Eu te expulso, em nome de Jesus!!", apela o pastor, já sem paciência.
"Eu não tô te incomodando...", insiste o Encosto, fingindo que não ouviu.

Infelizmente não dá pra saber como o exorcismo termina, mas pelo jeito alguns demônios precisam mais de uma super babá, daquelas dos reality shows da TV, do que de exorcistas para expulsá-los.

A.A. Allen foi um dos mais carismáticos e controversos pregadores da igreja Pentecostal (do mesmo ramo protestante das Igreja Universal e Assembléia de Deus no Brasil) nos anos de 1950 e 60. Se Jesus multiplicava peixes Allen multiplicava dólares. Não que isso seja estranho ao negócio das religiões; a diferença é que Allen dizia fazer isso literalmente: o pregador afirmava que Deus lhe dava o poder de transformar notas de 1 dólar em 20 (embora isso não diminuísse seu empenho em coletar dízimos; Allen afirmava que Deus tinha lhe garantido o poder de conferir uma benção especial para os que doassem 100.000 dólares para sua obra missionária). Por um breve período Allen manteve um programa de rádio chamado "Raise The Dead", onde afirmava poder ressuscitar os mortos, mas infelizmente o programa foi cancelado depois que os fiéis pararam de enterrar seus entes falecidos esperando que Allen os trouxesse de volta. Abaixo nós o vemos na capa de outro disco evangélico com lugar garantido na nossa lista: "Deus é um Assassino" (God is a Killer).



Os exorcismos de Allen também podem ser vistos em vídeo, caso você queira saber como eram as sessões de descarrego nos tempos da brilhantina (descontando os penteados, não muito diferentes dos atuais, adianto...).

Para que os fiéis de um culto protestante se comovam diante de espetáculos de exorcismo é preciso que eles acreditem que o diabo existe, em primeiro lugar. Aí entra o álbum seguinte na nossa lista dos discos evangélicos muito estranhos: "Satã é Real" (Satan is Real), da dupla The Louvin Brothers:



Tudo bem que o mau gosto intimide mais do que o capeta de papelão, mas as músicas até que não são ruins.

E finalmente, para completar nossa lista, vem o disco dos exorcistas que primeiro dão porrada e depois fazem perguntas: "O Pregador Faixa Preta" (Karatist Preacher -- acho que ficaria melhor assim em português), do instrumentista Mike Crain.



Este merece. Um pastor com franjinha estilo Monkeys que expulsa o demônio com golpes de karatê é algo que nem a dupla Quentin Tarantino-Robert Rodriguez teria imaginado.

Caso você queira montar sua própria lista, aqui e aqui há mais alguns candidatos.

16.6.07

Engenharia esotérica

Nas minhas idas e vindas para Belo Horizonte acabei me deparando com o que parecia ser só mais um rápido exemplo do Festival de Besteiras Quânticas que Assola o País, mas acabou dando um caldo grosso para um post mais diverso. Este saiu no caderno de imóveis do jornal Estado de Minas, no dia 10 de maio.

Em busca do bem estar
Construtora cria espaços internos e externos que valorizam a qualidade de vida, usando técnicas que permitem descobrir melhores espaços para cada ambiente

Amplamente usadas na Europa e só agora descobertas pelas empresas mineiras, as técnicas de feng shui e radiestesia norteiam a construção de prédios. A aplicação destes conceitos busca proporcionar um ambiente agradável, não só do ponto de vista arquitetônico, como do ponto de vista energético, direcionando partes importantes do empreendimento, como quartos e áreas de convivência para ficarem sobre pontos que emanam energias positivas.

A RKM Engenharia adotou essas práticas como padrão em suas obras. Assim como o equilíbrio entre ocupação e preservação da natureza que se reflete positivamente entre os vizinhos.

(...)

O diretor geral da empresa, Ricardo Alfeu, diz que a busca pela qualidade de vida motivou a construtora a pesquisar e atender a demanda da clientela. (..) "permitir que o morador ao chegar em casa se esqueça do corre-corre e se lembre que ele tem 24 horas, e não 16 horas, como já sugere a física quântica diante da rapidez das informações e do mundo atual", explica.

A física quântica tem mesmo as costas largas. Serve como explicação para qualquer maluquice esquisotérica que se queira disfarçar de ciência. Neste caso Ricardo Alfeu impugna à física quântica a justificativa para uma bobagem que o teólogo Leonardo Boff publicou no Jornal do Brasil em 2004. Segundo Boff, uma variação na freqüência de ressonância do campo magnético terrestre, conhecida por Ressonância Schumann, estaria relacionada ao acirramento de todas as mazelas do mundo -- guerras, crimes, desastres ecológicos etc -- além de ter reduzido a duração do dia para apenas 16 horas (!). A história, eu nem precisaria dizer, é apenas um mito (que nada tem a ver com quantuns e partículas atômicas); só para dizer o mínimo, a frequência de ressonância Schumann não sofreu nenhuma variação significativa nos últimos anos.

Mas o texto fica melhor mais à frente:

Os estudos começam com a radiestesia (captação de energia por um pêndulo), que prepara o terreno para receber o empreendimento . "Antigamente, quando uma fazenda estava para ser construída era costume soltar o gado no terreno e ver aonde eles iriam dormir. Acreditava-se que aquele seria o local ideal para erguer a casa. Energeticamente mais favorável. Esta técnica identifica a energia do terreno e procura direcionar os pontos mais adequados para abrigarem os cômodos do imóvel."

Radiestesia é a arte, milenar como sempre, de detectar "energias" usando pêndulos, varinhas ou galhos em forma de forquilhas. A aplicação clássica da radiestesia sempre foi encontrar água, mas os modernos radiestesistas se especializaram em encontrar quase qualquer coisa: petróleo, metais preciosos, objetos perdidos, pessoas desaparecidas, assassinos, minas terrestres, cemitérios antigos, doenças e defeitos em equipamentos elétricos, além de indicar dietas, determinar afinidades amorosas e descobrir o melhor lugar para pastos, templos e comércio em geral. Até hoje nenhuma dessas alegações resistiu ao mais elementar teste duplo-cego e nenhum radiestesista levou pra casa o prêmio de 1 milhão de dólares do James Randi (embora muitos tenham tentado, a maioria vem preferindo ganhar seu milhão no varejo místico). Para saber mais sobre a pseudociência que é um verdadeiro canivete suiço astral leia o artigo do Projeto Ockham.

Mas voltando às vacas, frias: será que gatos também detém essa habilidade extra-sensorial para descobrir áreas energeticamente mais favoráveis para cochilar ou esta é uma habilidade exclusivamente bovina? Porque neste caso as áreas energeticamente mais favoráveis da minha casa são seguramente o interior de caixas de papelão e gavetas entreabertas, que são os lugares aonde os bichanos passam a maior parte do tempo.

Mesmo admitindo que as vacas são bichos menos caprichosos que os gatos, não dá para entender esse apelo à velha sabedoria popular. Pois outra coisa que os moradores rurais fazem até hoje (e também os da cidade grande) é colocar garrafas com água sobre os medidores de energia elétrica. Acreditam que isso faz o relógio girar mais devagar, conseqüentemente diminuindo a conta de luz. E alguém já ouviu algum engenheiro preocupado com o prejuízo que isso pode causar à companhia de energia?

Tudo isso é pura ciência segundo a matéria, que continua:

O projeto arquitetônico é baseado no feng-shui, também chamado de medicina da habitação, que significa água e vento. "Não se trata de nada místico ou zen, e sim de questões científicas", defende Ricardo.

Mas antes de chegar a este trecho, o artigo seguia assim:

A geobióloga e radiestesista Dalvelina Rocha Araújo explica que quartos e escritórios devem ficar num ponto de baixa irradiação. A partir da filosofia, que tem mais de 5 mil anos, a idéia dos engenheiros da RKM foi transformar pontos saudáveis dos terrenos, que inicialmente ficariam perdidos, em áreas de convivência, como salas de meditação e espaços gourmet, o que aproxima os moradores e proporciona um relacionamento mais proveitoso entre os vizinhos.

Os pontos ruins ou densos podem ser corrigidos. "É necessário aplicar uma liga especial misturada ao cimento que vai formar o piso do local. (...) Isso impede as más energias de subirem. Alguns pontos tem radiação semelhante a um aparelho de raios-X. Imagine isso 24 horas por dia incidindo sobre a pessoa. Causa até doenças", afirma Dalvelina.

De fato o solo normalmente contém pequenas quantidades de urânio -- menos ou mais dependendo da região evidentemente. O urânio em si é inofensivo, mas depois de um tempo ele produz por decaimento radioativo o elemento rádio que por sua vez se desintegra formando o radônio. É aí que mora o perigo pois o radônio, um gás inodoro, sobe facilmente através da terra até a superfície e pode penetrar nas casas através de fendas no piso, rachaduras e junções mal formadas entre as paredes e o chão, contaminando os moradores.

Nos EUA a contaminação por radônio nas residências é a segunda maior causa de câncer de pulmão, atrás só do cigarro. Lá o problema é tão grave que o governo faz grandes campanhas educativas para orientar os moradores a medir os níveis de radônio de suas casas regularmente e kits de medição são vendidos em qualquer loja de ferragens. No Brasil o problema é bem menos sério, pois graças ao clima, a maioria das pessoas mantém as janelas abertas, evitando que o gás se acumule em espaços confinados.

Dalvelina não está inventando nada portanto. O que ela está fazendo é se apropriando da linguagem e dos procedimentos científicos para construir uma outra coisa que parece ciência mas não é: a geobiologia.

Geobiologia é uma pseudociência de nome chique cuidadosamente pensado para parecer científico. No fundo não é nada mais que radiestesia misturada com feng-shui. Basicamente a geobiologia estuda como as "energias más" da habitação afetam o homem, sejam elas:

(...) ionização das moléculas de ar que respiramos; gases polônio e radônio, típico de fraturas no subsolo; presenças nefastas necromantes ou psíquicas; influência da rede elétrica; influência dos deslocamentos de águas no subsolo, inclusive esgotos da própria residência (ou empresa); eletromagnetismo gerado por aparelhos eletroeletrônicos, como TV, Computador, Microondas, Celulares, etc. e influência de objetos decorativos, quadros, estátuas, fotografias, móveis antigos (antiguidades), objetos herdados, fotografias de antepassados, etc.

Os instrumentos de um geobiólogo para detectar e transmutar tantas e tão variadas energias são, além das clássicas varinhas, pêndulos e forquilhas, "(...) pirâmides cuja base, quando corretamente orientada, emite espectros positivos, inclusive para curas através de cromoterapia e também uso de emissores de ondas de forma."

Todo esse papo furado é até tolerável no cercadinho pseudocientífico razoavelmente inofensivo que inclui as revistas de decoração, arquitetura (vá lá... já perdemos esta), programas femininos etc, mas deveria ser absolutamente condenável no portfólio de uma empresa de engenharia. Engenheiros que apóiam o uso de pêndulos e pirâmides em seu pátio de obras são, em gênero pelo menos, como os juízes que dão ouvidos à espíritos em pleno tribunal.

Por isso não sei quanto à você, mas eu preferiria morar em uma casa solidamente construída sobre um cemitério indígena do que arriscar a sorte em um prédio cheio das boas intenções do feng shui mas construído por quem chama radiação ionizante de "energia má" e usa pêndulos em vez de contadores Geiger para detectar radônio.


19.5.07

O Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” - Parte 3

Na primeira parte desta trilogia apresentei as pessoas -- e o espírito -- responsáveis pelo polêmico documentário "What a Bleep Do We Know". Na segunda parte analisei a primeira metade do filme e apontei alguns dos erros que ele comete ao usar a Física Quântica para justificar as crenças místicas da seita Ramtha. Nesta terceira parte analiso o restante do filme e concluo tentando entender os motivos que levaram "Quem Somos Nós" a se tornar tão popular.

Vamos então ao tão aguardado Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” - O Retorno de Ramtha.


0:33:34


A exibição do metrô vem do Japão e do Sr. Masaru Emoto. Masaru Emoto tornou-se tremendamente interessado na estrutura molecular da água e no que a afeta. A água é o mais receptivo dos quatro elementos. Mr Emoto pensou que talvez ela pudesse responder a eventos não físicos. Assim ele realizou uma série de estudos, aplicando estímulos mentais e fotografando-a em um microscópio de campo escuro.

A primeira figura é uma foto de água da represa de Fujiwara. E esta figura é a mesma água após receber uma benção de um monge budista. Agora, na próxima sequência Emoto imprimiu palavras nas garrafas de água destilada e as deixou da noite para o dia. A primeira figura é uma fotografia de água destilada -- só a essência de si mesma. As fotografias sequintes são diferentes: a primeira é o "Chi do Amor", a seguinte é "Obrigado". E você pode ver onde isso foi escrito aqui. (...) A ciência sobre como isso efetivamente afeta as moléculas é desconhecida, excepto para as moléculas da água evidentemente... E isso é realmente fascinante quando se tem em mente que 90% dos nossos corpos é formado de água.


Como num filme de David Lynch, um tipo sinistro sai da multidão e, encarando Amanda fixamente, diz:

Faz você pensar não é? Se os pensamentos podem fazer isso com a água imagine o que podem fazer conosco...


Então chegamos a Masaru Emoto.

Masaru Emoto, formado em Relações Internacionais no Japão, PhD em medicina alternativa na Índia, autor do livro "Messages From Water", acredita que a água reage às emoções ao redor dela: quando exposta à emoções positivas, a água se congela formando cristais belos e ordenados, mas se exposta a sentimentos considerados (por Emoto) como negativos sua estrutura cristaliza-se de maneira feia e desorganizada.

Além disso Emoto acredita que a água tratada com palavras amáveis e orações em vez de cloro e flúor, pode matar a sede mais eficientemente, melhorar a circulação sanguínea e o regular o metabolismo. Por isso inventou a revolucionária Água Indigo, uma água “geometricamente perfeita”, que promete as maravilhas acima e muitas outras pelo preço de um perfume francês: U$ 35,00 a garrafinha de 230 ml.

Tudo isso eu já escrevi há algum tempo atrás quando dediquei um post a Masaru Emoto. Na época eu não imaginava o papel central que as idéias de Emoto tinham em "What a Bleep Do We Know" (veremos isso adiante) e nem tinha a noção da enorme popularidade que ele alcançaria, catapultado pelo sucesso do filme.

Como vimos naquele post, o maior -- mas não o único -- impedimento para tentar levar Emoto à sério é que ele não usa testes duplo-cego. Duplo cego é um procedimento que visa evitar qualquer parcialidade do pesquisador, voluntária ou não. Como quando estão estudando a eficência de uma nova droga e os médicos misturam entre as pílulas reais algumas pílulas falsas, chamadas de placebo, de maneira que nem o médico nem o paciente sabem, de antemão, quem está tomando o quê. Um teste duplo-cego é simplesmente uma maneira de se testar uma alegação com a máxima honestidade. É por isso que é usada pelos pesquisadores que querem convencer a comunidade científica de seus resultados mais do que apenas ganhar dinheiro com eles.

Pois Emoto não só não realiza testes duplo-cego como já respondeu em uma entrevista recente que “não entende muito bem esse negócio de duplo-cego”! Em vez da inconveniente imprevisibilidade de um teste duplo-cego Emoto prefere contratar assistentes com um "acurado senso estético", que possam fotografar os cristais em um ambiente livre de pressões. Isto quer dizer que quando um assistente de Emoto fotografa um cristal de água, ele sabe tanto o que aconteceu à água, quanto o que acontecerá a ele se não fotografar o resultado que Emoto espera. Como numa única gota d'água pode haver milhares de microscópicos cristais se formando, sempre será possível encontrar cristais bonitos e feios, dependendo de como se procure.

O mágico James Randi já ofereceu 1 milhão de dólares a Emoto caso ele reproduzisse seus resultados usando uma metologia realmente científica. Não é surpresa que Emoto tenha recusado: alguém que vende água por quase R$ 100,00 o copinho não deve estar precisando de dinheiro não é?

Voltemos ao filme: a narradora nos diz que a “água é o mais receptivo dos quatro elementos”. Ora, a idéia de que o mundo é formado por 4 elementos -- fogo, água, terra e ar – remonta à Aristóteles e tem a ver com a química moderna tanto quanto colocar sanguessugas sobre talhos na pele de um paciente tem a ver com a medicina moderna. E alguém aí sabe o que pode ser um “elemento receptivo”? um doce para quem encontrar esta propriedade química na tabela periódica.

Existe ainda outra idéia falsa camuflada neste trecho do filme: a premissa de que tudo o que afeta a água afeta igualmente o nosso corpo, já que ele formado em grande parte por esse líquido. Os astrólogos, por exemplo, amam com paixão esta idéia: ora, se a Lua tem tamanha influência sobre as marés, como poderia não influenciar também nosso corpo? justificam-se. (Acontece que a força gravitacional, que causa as marés, é pequena demais para ser percebida a não ser que grandes massas estejam envolvidas, como é o caso entre a Lua e os oceanos. É por isso que, assim como o nível do seu copo de cerveja -- que também é composto em grande parte de água -- não sobe de acordo com a fase da lua, o nosso corpo tampouco sofre a ação de nenhuma espécie de "maré corporal", ou algo do gênero). É esta a falácia que o filme apresenta quando o tal sinistro personagem pergunta: “Faz você pensar não é? Se os pensamentos podem fazer isso na água imagine o que podem fazer conosco...”.

E o mais grave: as experiências de Emoto são feitas com água congelada e felizmente nós não temos água congelada no nosso corpo. Resta supor que a água prediposta a se solidificar de maneira esteticamente agradável é mais saudável do que a água microscopicamente feia. No entanto, note que nenhuma relação entre saúde e beleza foi estabelecida pelo filme. Quando o tal personagem misterioso diz “Se os pensamentos podem fazer isso na água imagine o que podem fazer conosco...” ele espera que o espectador preencha esta lacuna lógica com pura imaginação, não com fatos. Quando colabora, o espectador não percebe que está sendo vítima do que, em inglês, se dá o nome de "wishfull thinking", que em portugês não dá para traduzir muito melhor do que "crença movida pelo desejo".

A propósito, a não ser que você seja o Bob Esponja você não é formado por 90% de água. A percentagem correta do líquido nos seres humanos é de pouco menos de 80% nos recém nascidos, 60% em homens adultos e 55% nas mulheres.


0:36:31


Se você aceitar com todas as forças do seu ser que você pode andar sobre a água, o que acontecerá? Sim, você vai andar! Mas você sabe, é como, uh, é como o pensamento positivo funciona. É uma idéia maravilhosa o pensamento positivo, mas o que ele normalmente significa é que nós temos um pequeno lampejo de pensamento positivo encoberto por toda uma massa de pensamento negativo. Logo, o pensamento positivo nunca é pensamento positivo mesmo, é só o pensamento negativo que temos mascarado...

Aqui o filme leva ao extremo a idéia do pensamento positivo, afirmando que uma pessoa pode literalmente levitar sobre a água desde que aceite com todas as forças do seu ser que pode fazer isso.

Michael Ledwith não está no filme para falar de ciência. Como ex-padre, o papel de Ledwith em "What a Bleep Do We Know" é de Consultor para Assuntos Religiosos: sua pequena participação se resume a este trecho enaltecendo o pensamento positivo e outras rápidas passagens em que divaga sobre a natureza de Deus. No entanto sua aparição revela uma das maiores estratégias de "What a Bleep Do We Know": inserir calculadamente os assuntos esotéricos e as opiniões puramente pessoais em meio às discussões "científicas" para dar ao pacote todo uma aparente cientificidade e criar a ilusão de que estes temas estão entrelaçados. Foi desta maneira que "What a Bleep Do We Know"conseguiu ser aclamado como um "documentário de física quântica" falando tão pouco sobre física.


0:51:02

Mais ou menos a partir dos 40 minutos "What a Bleep Do We Know" dá uma virada. A Física Quântica, que vinha sendo o tema principal do filme, é substituída pela Neurociência e só volta a ser citada bem no finalzinho. A partir deste ponto o quiroprático Joe Dispenza toma as rédeas e conduz o documentário praticamente sozinho com raras intercalações de seus companheiros de seita. Com isso a ciência -- que já era rala -- vai ficando ainda mais diluída em meio a extrapolações morais, discussões religiosas e sermões sobre como viver a vida. Finalmente, como se removesse um véu de sobre a última camada do filme, Joe revela o que "What a Bleep Do We Know" realmente é: um documentário de auto-ajuda.

Com a palavra, Joe Dispenza:

O cérebro, quando dispara seus pensamentos, é como uma planície sob um temporal. E o emaranhado de sinapses são como o céu entre... a tempestade e a Terra. Você vê esta nuvem negra no céu e você vê os impulsos elétricos se movendo por eles e então você vê eles atingirem o solo. O cérebro se parece com uma tempestade, quando formulando um pensamento coerente. Mas ninguém vê um pensamento, o que se vê é uma tempestade açoitando diferentes quadrantes do cérebro. Estas áreas devem estar respondendo à imagens holográficas -- raiva, assassinato, ódio, compaixão, amor.

O filme mostra as lembranças ruins de Amanda disparando em seu cérebro uma autêntica tempestade de raios (o que faz o termo "brainstorm" deixar se ser apenas uma figura de linguagem).

Mas o cenário de uma planície de massa cinzenta açoitada por uma tempestade de relâmpagos entre nuvens de neurônios, embora empreste à cena a dramaticidade que o filme busca, é -- surpresa! -- bastante incorreta. Os estímulos nervosos não são transmitidos através de arcos voltaicos como relâmpagos e sim quimicamente através de substâncias chamadas de neurotransmissores.


0:52:17

Joe Dispenza novamente:

O cérebro não sabe a diferença entre o que ele vê no ambiente e o que ele lembra. Porque os mesma rede neural é ativada.


Estudos mostram que a mesma área do cérebro é ativada quando você vê uma maça e quando pensa em uma maça. Isso parece ser confirmado pela nossa experiência, uma vez que a lembrança de uma suculenta maçã geralmente dispara nossas células salivares tanto quanto a visão de uma. Mas será que isso significa que o cérebro não sabe a diferença entre uma maça de verdade e a lembrança de uma maçã? Não, isso não é verdade.

Estudos mostram que embora as mesmas áreas do cérebro sejam ativadas, esta atividade é muito menor quando imaginamos uma coisa do que quando olhamos para esta coisa, sendo que esta atividade é tão menos intensa quanto menos vívida for a lembrança. Ou seja, existe uma diferença quantitativa nas áreas ativadas no nosso cérebro quando imaginamos algo e quando o vivenciamos. E isso faz toda a diferença.


0:55:39

E assim, sem mais nem menos, o físico John Hagelin aparece em cena por menos de 3 segundos, para dizer:


A mais sofisticada fármacia do universo está aqui.




Logo em seguida, Joe continua:

Existe uma parte do cérebro chamada de hipotálamo... o hipotálamo é como uma mini fábrica e é o lugar onde são montadas certas substâncias químicas que correspondem a certas emoções que vivenciamos. E estas substâncias em particular são chamadas de peptídeos. Eles são pequenas cadeias de amino-ácidos. O corpo é basicamente uma unidade de carbono... que constrói 20 diferentes aminoácidos para formular sua estrutura física. O corpo é uma máquina de produzir proteínas. No hipotálamo nós pegamos estas pequenas cadeias de aminoácidos chamadas peptídeos e os montamos em certos neuropeptídeos ou neurohormônios que correspondem aos nossos estados emocionais que experimentamos no dia a dia. Assim há substâncias para raiva e há substâncias para tristeza e há substâncias para vitimização e para luxúria. Há substâncias químicas para cada emoção que experimentamos. E no momento em que vivemos aquela emoção o hipotálamo imediatamente monta o peptídeo correspondente e o libera na corrente sanguínea. Nesta hora o peptídeo encontra o caminho até as diferentes partes do corpo. Agora, cada célula do nosso corpo possui estes receptores do lado de fora...

Como vimos, os sinais nervosos não são transmitidos através de arcos voltaicos como o que acende o gás do seu fogão, e sim através de substâncias químicas chamadas de neurotransmissores. Uma das categorias de substâncias que agem como neurotransmissores são os peptídeos, que nada mais são do que proteínas pequenas.

Acontece que sintetizar neutransmissores não é somente uma questão de fé ou de treinamento como o filme parece sugerir (ainda que não o diga explicitamente). O que na verdade é uma pena, senão várias doenças poderiam ser curadas apenas com tratamento psicológico ou com o consumo de material de auto-ajuda. Casos clínicos de depressão, doença associada a baixos níveis de neurotrasmissores como a serotonina, curar-se-iam simplesmente com doses controladas do vídeo de "Everybody is Free (to Wear Sunscreen)"; o Mal de Parkinson, relacionado ao menos parcialmente a uma disfunção no peptídeo amilóide beta, poderia ser curado simplesmente com sessões de análise em um bom psicoterapeuta e a diabetes, outro mal associado a deficiência na síntese de uma substância geralmente considerada um peptídeo -- a insulina -- poderia ser curada com livros do Paulo Coelho. Doloroso, mas não tanto quanto conviver com a doença.

Por fim o filme erra mais uma vez ao afirmar que o corpo sintetiza os 20 aminoácidos usados para montar os peptídeos. Nosso corpo é capaz de sintetizar apenas 12 aminoácidos; os outros 8 precisam ser consumidos na alimentação (nossa farmácia corporal pode ser sofisticada, mas não é autosuficiente).


1:00:12

Cada célula está definitivamente viva e cada célula tem uma consicência, particularmente se definirmos consciência como o ponto de vista de um observador. Sempre existe a perspectiva da célula. Na verdade, a célula é a menor unidade de consciência do corpo.

Candice Pert afirma que as células nervosas do nosso corpo são criaturas conscientes "do ponto de vista do observador" e que o ser humano é na verdade a soma da consciência dessas minúsculas gelatinosas criaturinhas com uma infeliz tendência a se tornarem viciadas em peptídeos.

O conceito de consciência é vasto e possui pelo menos uma dúzia de definições diferentes, todas exigindo de algum jeito a habilidade de perceber à si mesmo. Acho que todos concordamos que afirmar que uma célula está ciente de sua própria existência é ir um pouco longe demais em qualquer direção.

Este ponto também demarca o início do trecho mais insuportável de "Quem Somos Nós": quando o filme inventa a categoria de "comédia new age pastelão", com direito até a um inacreditável musical com pedestais de soro fisiológico.


1:15:00

Nossa mente literalmente cria nosso corpo. (...) Uma das coisas sobre os receptores é que eles mudam sua sensibilidade. Se o receptor para uma certa droga, ou fluido interno está sendo constantemente bombardeado por um longo período de tempo, com alta intensidade, ele vai literalmente se tornar menor. Haverá menos deles. Assim, a mesma quantidade da substância, ou do fluido interno, causará uma resposta muito menor.

Logo em seguida Joe Dispenza retoma o bastão e prossegue:

Se nós bombardeamos a célula com a mesma atitude e a mesma substância química diariamente, quando aquela célula decide se dividir, quando ela produz uma célula filha, esta possuirá mais receptores para aquele neuropeptídeo particular e menos receptores para vitaminas, minerais e nutrientes.

Ou seja, Candice Pert diz que o bombardeio constante diminui a quantidade de receptores das células, enquanto Joe Dispenza afirma que isso aumenta a quantidade de receptores. Um dos dois tem que estar errado.

De um jeito ou de outro o raciocínio de Joe é inválido: as células do sistema nervoso não se dividem através de mitose, ou seja, não se reproduzem formando células filhas que herdam as características genéticas da mãe.


01:18:00

Eis que o professor Willian Tiller aparece em cena dizendo nada mais do que...

Ok, pessoal, é hora de um ajuste de curso na trajetória ao longo do caminho de nossa aventura. E este ajuste de curso é o movimento para um novo paradigma, uma expansão do antigo -- tal qual o universo é maior do que pensamos que era em nossa modelagem, e é sempre maior do que pensamos que é.

Este é um perfeito exemplo de como os diretores de "What a Bleep Do We Know" editaram o filme mais interessados no efeito dramático do que no conteúdo. Descolado de qualquer contexto este trecho não quer dizer bulhufas; na sequência serve apenas como escada para uma gag infame: comparar o tamanho do universo com o tamanho com que Amanda imagina a si mesma diante do espelho, na cena seguinte.


01:18:19




Eu te odeio!





Aos berros Amanda ataca sua imagem no espelho com um tubo de pasta de dente, até ficar esgotada. Neste momento um gota d'água chama sua atenção e isso traz a lembrança daquele personagem misterioso do metrô dizendo: "Faz você pensar não é? Se os pensamentos podem fazer isso com a água imagine o que podem fazer conosco...".

Aparentemente Amanda decide colocar em prática a teoria de Emoto pois passa a desenhar por toda a sua pele iloveyous circundados por coraçõezinhos encaracolados, da mesma maneira que Emoto escrevia nos rótulos das suas garrafas d'água. A música vai caminhando para um ápice triunfal ao mesmo tempo que Joe Dispenza desfila em off o mais longo e emocionado discurso de auto-ajuda até então. Algum tempo depois Amanda mergulha numa banheira, purificando-se, e a água ganha o foco, remetendo a Emoto novamente.

É interessante notar como depois de tanto tempo explorando as estranhezas da física quântica e a química do cérebro, nem quantuns nem peptídeos receberam o crédito pela transformação de Amanda, e sim o que parecia ser um tema periférico: a água sentimental de Masaru Emoto.


01:25:51

[Ramtha] Qual o único planeta da Via Láctea habitado? imerso em uma enorme dominação religiosa? Você sabe o porque disso? Porque as pessoas tem idéias erradas sobre o que é certo e errado.


Ramtha revela que a Terra é o único planeta habitado da Via Láctea, algo que aparentemente já era sabido na Lemúria há 35.000 anos atrás.

Errr... mas e daí? Estima-se que existam cerca de 125 bilhões de galáxias como a Via Láctea no universo, isso ainda nos deixa com outras 124.999.999.999 galáxias para procurarmos por vida inteligente. Aliás se o espírito sabe algo que não sabemos por que não nos diz de uma vez para qual galáxia apontar nossos rádiotelescópios?


01:28:52

Se nós estamos conscientemente projetando nosso destino e se somos conscientes, de um ponto de vista espiritual, e aceitamos a idéia de que nossos pensamentos afetam a realidade, ou afetam nossa vida -- porque realidade é igual à vida -- então eu tenho este pequeno pacto que uso ao criar meu dia:

Eu digo: "Eu estou usando este tempo para criar meu dia e eu estou afetando meu campo quântico. Agora, se o observador está realmente me observando durante todo o tempo em que faço isso... e há um aspecto espiritual em mim mesmo, então me dê um sinal de que você prestou atenção a todas estas coisas que criei, e me as traga de uma maneira que eu não esteja esperando. Assim eu ficarei tão surpreso com a minha habilidade de ser capaz de vivenciar estas coisas que não terei dúvidas de que elas vieram de você"

Se eu precisasse extrair um único trecho de "What a Bleep Do We Know" para caracterizá-lo, eu escolheria este.

Aqui Joe, que se estabeleceu como o verdadeiro guru de "What a Bleep Do We Know", deixa aos espectadores um pequeno, mas emocionado, tutorial de auto ajuda que mistura espiritualidade disfarçada de física quântica, oração disfarçada de pensamento positivo e Deus disfarçado de Observador.

Acho que nenhum outro trecho sintetiza tão bem como este a macarronada místico-religiosa disfarçada de ciência e embalada como guia prático de auto-ajuda que "What a Bleep Do We Know" de fato é.


1:31:33

Sua consciência influência os outros ao seu redor. Influencia as propriedades dos materiais. Influencia seu futuro. Você está co-criando seu futuro.


Isto é dito em off por Willian Tiller, PhD, professor do departamento de Ciência dos Materiais da Universidade de Stanford. (Como eu já fui aluno, e mais tarde professor, do mesmo departamento que Tiller, só que em outra respeitada instituição, este trecho é o meu favorito em todo o filme)

Acredite em mim, você não ia querer viver num mundo onde as propriedades dos materiais fossem afetadas pela consciência das pessoas ao redor deles. Viajar de avião, por exemplo, seria muito mais perigoso se a resistência do aço pudesse ser afetada pela consciência dos passageiros -- imagine as aeromoças sendo obrigadas a dizer: "senhores passageiros, a partir de agora não são mais permitidos telefones celulares, aparelhos eletrônicos nem pensamentos infelizes". Blecautes seriam muito mais comuns se, além dos incêndios, os pensamentos da população vivendo próxima às torres de alta-tensão também pudessem afetar a resistividade elétrica do cobre; e eu não quero nem pensar no que aconteceria com as propriedades químicas do urânio se uma pessoa com problemas conjugais fosse admitida em uma usina nuclear.


1:38:19

[continuando o trecho anterior] Como medimos os efeitos? Vivemos a vida e vemos se alguma coisa mudou. E se ela tiver mudado então nós nos tornamos os cientistas da nossa vida... o que é o motivo pelo qual estamos aqui.


Esta é a cena em que Amanda -- a nova Amanda, purificada por sua jornada -- decide que não precisa mais de seus remédios e os joga no lixo.

Enquanto advoga o pensamento positivo e incentiva as pessoas a adotarem uma atitude de vida mais pró-ativa e responsável, ainda que baseando-se em conceitos distorcidos de física e biologia, "What a Bleep Do We Know" é relativamente inofensivo -- e até inspirador -- para o espectador com um handicap crítico. Mas no momento em que sugere que alguém pode se tornar "o cientista de sua vida" e abandonar por conta própria sua medicação, o filme comete seu pecado mais grave.

Existem doenças cujos sintomas vão e vem ciclicamente, assim como existem doenças cujos sintomas podem ser temporariamente aliviados por analgésicos naturais liberados pelo nosso organismo em momentos de euforia (como após um bom filme de auto-ajuda). Interromper um tratamento por causa de uma fugaz sensação de alívio é temerário; inspirar alguém a fazê-lo é irresponsável. Alguns antibióticos, por exemplo, não podem ser interrompidos no meio do tratamento sob o risco de que a doença retorne agravada. E há medicamentos que se interrompidos bruscamente causam mais complicações do que uma simples recaída.


Créditos Finais

Há uma piada que diz que o paraíso é um lugar onde a polícia é inglesa, os cozinheiros são franceses, os mecânicos são alemães, os amantes são italianos e tudo é organizado pelos suíços, enquanto o inferno é um lugar onde a polícia é alemã, os cozinheiros são ingleses, os mecânicos franceses e os amantes são suiços, sendo tudo organizado pelos italianos.

Quando chegam os créditos de "Quem Somos Nós" e as credenciais dos cabeças falantes são reveladas o obsevador atento fica com a sensação que passou os útlimos 90 minutos numa espécie de inferno europeu. Em vez de físicos falando de física, médicos falando de medicina e padres falando de Deus, o espectador descobre que passou a maior parte do tempo ouvindo físicos falando sobre Deus, um quiroprático e um médico (ainda graduando em Física) falando sobre física, um físico falando sobre medicina, um padre falando sobre pensamento positivo e uma ex-dona de casa, atualmente líder de uma seita, falando sobre Deus, moral, ética e vida em outros planetas. Tudo isso amalgamado por uma edição maliciosa que alternou new-age e ciência como se fossem farinha do mesmo saco, isolando e tirando de contexto as frases de uma para concluir os pensamentos de outra.


Epílogo

Chegamos finalmente ao desfecho de "O Guia Cético para assistir a 'What the Bleep do We Know?'”. Ao longo desta trilogia acompanhamos Amanda por sua jornada à "toca do coelho" para encontrar as respostas para "quem somos nós", "de onde viemos" e "para onde vamos". Depois de dolorosos 90 minutos em que não vimos nem respostas nem coelho, somos obrigados a concluir que essa péssima analogia se deve a "What a Bleep Do We Know" ter manipulado o espectador, acenando com ciência em uma mão enquanto com a outra tirava da cartola algo completamente diferente.

Sim, "Quem Somos Nós" é um filme que engana deliberadamente quem o assiste porque oferece a ele um suposto encontro entre ciência e espiritualidade mas em vez disso entrega um frankenstein torto e desconexo de ciência de desenho animado, pseudociência e auto-ajuda, que a maior parte do público leigo não está equipada para identificar. Assistir a "Quem Somos Nós" esperando ver um casamento entre ciência e espiritualidade é como observar alguém tentando encaixar cubos e tetraedos em orifícios circulares; para encaixar-se às crenças esotéricas de seus idealizadores, cada simples fato científico usado em "Quem Somos Nós" precisou ser vergado, torcido e marretado com força.

Os mais enganados foram aqueles que foram ao cinema esperando ver em "Quem Somos Nós" um documentário de ciência de verdade. Destes, alguns reconheceram o engodo -- a maioria antes dos primeiros 15 minutos de filme -- mas outros estão até agora deslumbrados, como se tivessem visto o "Cosmos" da sua geração. É bem verdade que há um aspecto positivo nisso: para muita gente "Quem Somos Nós" significou o despertar por um interesse genuíno pela ciência, ainda que de forma enviesada. Com sorte estas pessoas logo estarão buscando mais informações sobre universos paralelos, viagens pelo tempo, antimatéria e outras estranhezas apaixonantes da física em fontes verdadeiramente confiáveis, como o livro "O Universo Elegante" de Brian Greene (cujo documentário, conduzido pelo próprio Greene, pode ser encontrado na sua rede P2P favorita com legendas em português de portugal) ou "Alice no País do Quantum" de Robert Gilmore (que vai mais fundo na metáfora de Lewis Carrol do que só chupá-la de Matrix). É mais ou menos como despertar o gosto pela leitura lendo Paulo Coelho para um dia chegar a gostar de Umberto Eco.

Mas houve aqueles que reconheceram em "What The Bleep Do We Know" o que ele é realmente: um poderoso documentário de auto-ajuda. Para estes a falta de rigor científico de "Quem Somos Nós" não é o fim do mundo. Ora... que se dane que "Quem Somos Nós" traga um bando de cientistas sem credibilidade discutindo questões fundamentais do universo em takes de 15 segundos que parecem ter sido editados aleatoriamente pelo esquilo frenético de "Os Sem Floresta", uma senhora com sotaque engraçado e ar teatral encenando monólogos que quase nunca fazem muito sentido e muitos, muitos erros... Para uma legião de cultuadores o que importa é que "Quem Somos Nós" traz uma mensagem motivadora, positiva, "alto astral", que devolve às pessoas que o assistem o sentimento de que elas estão no controle de suas vidas e não ao capricho do acaso ou da misteriosa vontade divina, cuja escrita é mais torta do que gostariam.

O efeito é tão inebriante que alguns são até mesmo capazes de aceitar com muita naturalidade lições de física transmitidas pelo espírito de um guerreiro que viveu num continente mítico, falando através da líder de uma seita bizarra. Na verdade, para estas pessoas tanto faz se quem lhes fala diz ser um cientista, uma dona de casa, um fantasma lemuriano ou um smurf, desde que a mensagem seja emocionalmente agradável.

Se você é uma dessas pessoas, tudo bem. Esqueça a ciência de mentirinha de Ramtha e mergulhe de cabeça na mensagem bacana do filme. Sim, pense positivo, lembre-se dos elogios que você recebe, esqueça os insultos, guarde suas velhas cartas de amor, jogue fora seus velhos extratos bancários, use filtro solar... e tudo o mais. Qualquer artíficio mental que lhe permita internalizar a busca pela felicidade deve ser bem vindo, receba ele o nome de "pensamento positivo", "Deus", "Observador" ou "campo quântico".

Assim mesmo há algumas coisas que você não deveria fazer, mesmo tendo gostado muito de "What a Bleep Do We Know". Por exemplo, você não deveria tentar andar sobre a água em lugares fundos, sobretudo se não souber nadar. Lembre-se de sempre praticar o pensamento positivo em bacias, chafarizes e na beira da praia. E nunca jogue seus remédios no lixo por conta própria. Só quem deve interromper seu tratamento é o seu médico. Sem acompanhamento médico um quadro simples pode evoluir para uma situação crítica e se a coisa chegar a este ponto... bem, aí você vai ter que apostar todo o seu pensamento positivo na única técnica milenar que já se mostrou capaz de adiar a morte: a ciência.


The End.

29.12.06

O Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” - Parte 2

Na primeira parte deste Guia, apresentei as pessoas por trás da realização do documentário "What the Bleep do We Know?" (Quem Somos Nós?). Mostrei que os produtores, os três diretores e até alguns dos cientistas convidados fazem parte de uma exótica (e lucrativa) seita americana (na verdade me abstive de mostrar o quão exótica e lucrativa ela é -- você ficaria espantado).

Agora na segunda parte analisarei a primeira meia hora do filme mostrando onde o filme erra ao tentar combinar ciência e misticismo, embalando os dois na agradável linguagem da auto-ajuda.

Por favor me desculpem o longo post. Empolgado, acabei produzindo muito mais material do que seria adequado para um blog. E olha que nem tudo o que escrevi está aqui; na edição final mantive apenas o resumo da ópera e deixei a versão completa para ser publicada mais tarde no Projeto Ockham. Espero que a mesma curiosidade que motivou o leitor a ir ao cinema buscar respostas para Quem Somos Nós, mantenha seu interesse até o final do texto. Ao menos, talvez você descubra Quem Não Somos Nós.

Então vamos ao Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” -- A Ciência Contra-Ataca.


0:04:47

Cada idade, cada geração tem suas premissas pré-construídas. Que o mundo é plano, ou que o mundo é redondo, etc. Existem centenas de postulados, coisas que aceitamos como certas, que podem ou não ser verdadeiras. É claro que na grande maioria dos casos, historicamente, estas coisas não são verdadeiras. Assim, presumivelmente, se a história serve de guia, muita coisa que aceitamos como certas simplesmente não são verdadeiras.

Ao afirmar que não se pode assumir nenhum conhecimento como definitivo o filme prepara o caminho para a visão alternativa do mundo que será apresentada a seguir. É um truque velho.

O problema deste argumento está no conceito de “conhecimento verdadeiro”. Para a ciência um conhecimento é “verdadeiro” enquanto for capaz de explicar os fenômenos observados na natureza, nada mais.

Por exemplo, muita gente pensa que os antigos eram estúpidos porque acreditavam que o Sol girava em torno da Terra. Na verdade o modelo geocêntrico permitiu que os navegadores se orientassem com uma precisão boa o bastante durante muitos séculos e na prática era menos complicado que o modelo heliocêntrico que o substituiu mais tarde. Foi só quando dados astronômicos mais precisos puderam ser obtidos que o geocêntrismo pôde finalmente dar lugar ao seu sucessor. Já a Terra pôde ser considerada plana pelo tempo em que isso permitiu aos homens orientar-se em seu reduzido universo, que usualmente limitava-se até onde a vista conseguisse alcançar. Quando o mundo se ampliou, com a invenção da bússola e do telescópio e a conquista de novos continentes, foi preciso admitir que a Terra não era plana, exatamente como hoje, na era dos satélites espaciais, somos obrigados a admitir que ela tampouco é esférica (chame-a de “pêra” se quiser).

Da mesma maneira a física clássica não se tornou inválida de uma hora para outra, como um paradigma com data de validade vencida. A física de Newton trouxe avanços impressionantes para a ciência e foi bem sucedida em prever inúmeros fenômenos -- os mais notáveis deles provavelmente foram os descobrimentos dos planetas Urano e Netuno, além de ter fornecido uma explicação satisfatória para o fenômeno do eletromagnetismo. Mas chegou o momento em que a física clássica não podia mais explicar certas observações experimentais à respeito dos átomos e precisou ser, no que diz respeito à este universo, substítuida. Assim mesmo ela permanece perfeitamente válida para quase todos os aspectos da vida cotidiana.

Mas mais importante do que isso é o fato de que sabemos sim algumas coisas com certeza. Quando um paciente com câncer é diagnosticado através de um exame de ressonância magnética e depois tratado com sucesso em um aparelho de radioterapia é porque sabemos bastante sobre os elementos químicos e as partículas atômicas; se você está usando um microcomputador para ler este blog é porque alguém precisou saber bastante coisa sobre a física quântica para construir o microprocessador que o equipa; e quando levamos o homem à Lua o fizemos porque sabíamos bastante sobre a gravitação de Newton, o eletromagnetismo de Maxwell e toda uma lista enorme de conhecimentos bem estabelecidos. Todas estas coisas são muito mais do que suposições ou modismos de uma era ou de uma geração.


0:11:24

Esta câmera está vendo muito mais ao meu redor... do que há aqui... porque ela não faz objeções e nem julgamentos. O único filme que está sendo exibido no cérebro é o que temos a habilidade de ver. Assim, será possível que nossos olhos, nossas câmeras, veja mais do que nosso cérebro tenha habilidade de ver, de conscientemente projetar?

Aqui Ramtha, o espírito lemuriano canalizado pela médium, afirma que um equipamento eletrônico pode ver mais do que um homem porque não é capaz de julgar aquilo que vê. Isso é mais ou menos como dizer que os homens daltônicos escolhem ver menos cores (ou que tem alguma objeção ao amplo espectro de tons de rosa, por exemplo).

Ramtha não diz o que há mais para ser visto por nosso cérebro pré-conceituoso mas considerando que estamos diante de uma mulher cujo sotaque vem de um guerreiro de um continente mítico hospedado em seu corpo, podemos supor que se trata de algo espiritual. Neste caso estamos fora do domínio da ciência.

Note-se que aqui se estabelece pela primeira vez uma das idéias fundamentais deste filme: a de que o mundo como o conhecemos pode ser fisicamente moldado pelas nossas crenças pessoais. Veremos mais sobre isso adiante.

Logo em seguida outra mulher continua:

Bem, o modo como nosso cérebro é construído... nós somente vemos o que acreditamos ser possível. Hmm... nós comparamos padrões que já... uh... existem em nós mesmos atraves de condicionamento.


Esta é a mesma hipótese que deu origem ao clássico adesivo de carro “duende, vê quem acredita”. Ela prossegue:

Assim, uma história maravilhosa que acredito ser verdadeira, é que quando os índios, os índios nativo-americanos das ilhas do Caribe, viram os navios de Colombo... eles não podiam vê-los realmente. Porque eles eram tão... diferentes de qualquer coisa que eles tinham visto antes, que eles não podiam vê-los.

Assim contada, a história poderia passar como apenas um causo ou uma parábola. No entanto logo em seguida a história ganha ares oficiais quando dramatizada sob a locução de um dos cientistas do filme (pela voz, provavelmente Joe Dispenza, o quiroprático membro da seita Ramtha):

Quando a armada de Colombo chegou à América, nenhum dos nativos podia ver os navios, mesmo que eles estivessem no horizonte. A razão porque eles nunca viram os navios é porque eles não tinham conhecimento em seus cérebros que navios (no original "Clipper Ships") existiam. Logo o pagé começou a notar as marolas no oceano mas ainda não via os navios... mas ele começou a se perguntar o que causava as marolas. Assim, cada dia ele olhava e olhava e olhava. Até que um dia viu os navios e contou a todos os outros que os navios estavam lá. Como todos confiavam nele, foram capazes de ver os navios também.

Não há o menor traço de veracidade nesta história. Não há registros escritos por Colombo nem tradições orais das tribos indígenas que habitavam a América de que qualquer coisa assim jamais tenha acontecido com navios, armas de fogo, instrumentos metálicos, ou qualquer outra tecnologia nunca antes vista pelos nativos. Não há tampouco registros nos relatos dos modernos conquistadores do século XIX que chegaram à África, ao Alasca, à Amazônia ou em outros territórios onde habitavam civilizações tecnologicamente mais atrasadas, de que qualquer coisa assim jamais tenha acontecido.

Esta é uma história inventada, provavelmente dentro da seita Ramtha, para impressionar discípulos pouco espertos. E que história absurda! Imaginem um beduíno do deserto que nunca viu nada além de camelos em toda a sua vida de repente deparando-se com homens brancos flutuando à meia altura do solo e deixando velozmente atrás de si uma nuvem de areia! E os animais? Eles também precisaram se acostumar com as tecnologias do homem moderno antes de serem capazes de vê-las? Quanto tempo um chimpanzé precisou olhar para uma banana frita invisível antes de poder realmente comê-la?

A propósito, os navios de que Ramtha fala (Clipper Ships) só foram inventados no século XIX. Talvez por isso ninguém podia vê-los...


0:21:06

O garotinho -- uma espécie de Mini-Me do Morpheus de Matrix -- lança a bola com força sobre Amanda.

- Machuca! Amanda diz.
- Ela nunca te tocou

- Tá bom...

- E ela não é sólida. A bola é quase completamente vazia.

Aqui temos três afirmações: (1) a bola não tocou Amanda; (2) a bola não é sólida e (3) a bola é vazia, em sua quase totalidade. Das três, somente a afirmação (3) é verdadeira.

O átomo é cerca de 100.000 vezes maior do que o seu núcleo. Isso quer dizer que se o átomo fosse um grande auditório vazio, seu núcleo, onde estão os prótons e os neutrons, seria um pontinho do tamanho da cabeça de um alfinete, bem no centro. Agora imagine todo este enorme auditório completamente vazio, com alguns outros pontinhos ainda menores do que uma cabeça de alfinete rodopiando por todo este espaço. É um verdadeiro latifúndio atômico.

Mas só porque há um bocado de espaço vazio no interior da matéria que constitui a bola de basquete isso não quer dizer que ela não seja sólida. Os átomos, com toda aquela imensidão vazia, estão ligados entre si por forças combinadas de atração e de repulsão, como imãs muito fortes. O que define o estado físico da matéria é basicamente a intensidade destas forças atômicas. Em um líquido as forças entre os átomos são muito tênues, por isso é tão fácil que você mergulhe sua mão na água, afastando os outros átomos do seu caminho. Em um gás os átomos estão ainda mais fracamente ligados fazendo com que sejam capazes de ziguezaguear livremente por grandes distâncias. Já em um corpo sólido os átomos ocupam posições estáveis, bem definidas, muito próximos uns dos outros e fortemente ligados entre si. Por isso é muito mais difícil tirar do lugar um átomo de uma bola de basquete do que da água ou do ar.

Concluindo, dizer que uma bola não é sólida somente porque os átomos que a constituem possuem um monte de espaços vazios é quase a mesma coisa que dizer que ela não é sólida porque é oca. É falso.

A seguir mais sobre a primeira alegação.


0:21:22

Nós pensamos no espaço como vazio e na matéria como sólida. Mas na verdade essencialmente não existe nada na matéria. Ela é completamente insubstancial. Dê uma olhada em um átomo. Nós pensamos nele como em uma bola dura. Então dizemos: "Oh bem, não na verdade. Ele é como um pequeno ponto de matéria muito densa cercado por uma nuvem de probabilidade, saltando para dentro e para fora da existência". Mas acontece que nem isso é correto. Mesmo o núcleo, que pensamos ser tão denso, salta para dentro e para fora da existência da mesma maneira que fazem os átomos. A coisa mais sólida que podemos dizer sobre toda essa matéria insubstancial é que ela é mais como um pensamento -- é como um bit concentrado de informação.

Outro físico entra em cena e diz:

O que constitui as coisas não são mais coisas, mas ideias, conceitos, informações.

Os átomos são os tijolos da matéria. Mas o filme vem mostrando que esses tijolos são insubstanciais, constituídos de partículas minúsculas em um espaço enorme quase totalmente vazio. Que tipo de casa seria aquela construída com tijolos etéreos dispostos a vários metros uns dos outros que nem ao menos se tocam!? Mas a casa existe, nós a vemos e ela não é de fumaça. A conclusão, sugere o filme num salto lógico enorme e desonesto, é que não são os tijolos em si que sustentam a casa mas pensamentos, idéias, informação.

(Veja como o filme empurra o expectador na direção da crença de que os pensamentos são capazes de moldar a matéria. É importante identificar o exato momento em que isso acontece.)

Mas tijolos são tijolos e átomos são átomos. Um tijolo não sofre nenhuma força de outro tijolo distante a não ser uma fraquíssima e completamente desprezível força gravitacional. Já na escala atômica um átomo exerce sobre seus vizinhos uma forte força de natureza eletromagnética. Estas forças são como as vigas invisíveis (ou molas rígidas como preferem os físicos) da estrutura molecular que mantém o edifício da matéria em pé. Quando queremos derrubar este edifício não o fazemos com a força do pensamento e sim quebrando as vigas atômicas, fornecendo a elas energia, como calor por exemplo. É assim que o gelo se transforma em água.

Continuando com o filme, finalmente o jovem Morpheus volta à cena:

É como eu disse, a bola nunca te tocou.

O narrador toma a palavra e emenda:

Os elétrons constroem uma carga... e empurram os outros elétrons, assim ninguém toca ninguém.

Aqui o filme faz um enorme esforço para confundir o expectador

Só porque no nível subatômico os átomos não se tocam isso não quer dizer que as coisas não se tocam aqui em cima. Ocorre apenas que o que chamamos de tocar aqui é diferente de “tocar” na escala atômica. É apenas uma questão de linguagem.

No mundo macroscópico tocar significa entrar em contato, encostar. Mas no mundo atômico os átomos raramente “encostam” um no outro; eles apenas se repelem quando ficam muito próximos. Pense nisso como se os átomos estivessem ligados por molas invisíveis muito duras; quanto mais próximo um átomo fica de outro mais a mola o empurra de volta (em certas circunstâncias os núcleos de dois atómos podem realmente encostar um no outro até se fundir, como acontece no interior das estrelas e na bomba de hidrogênio).

Note que toda esta discussão sobre como a bola não é sólida e como ela não toca no que encosta é apenas uma maneira de levar o espectador a concluir que a realidade física é bastante diferente do que lhe diz a intuição, preparando o terreno para que ele possa aceitar as idéias metafísicas que virão, que igualmente desafiam o bom-senso.


0:24:22

Uma partícula, na qual pensamos como uma coisa sólida, existe num estado chamado "superposição", uma onda espalhada de localizações possíveis. No instante em que você olha... ela imediatamente surge em uma única localização.

Enquanto o narrador explica o que é a superposição quântica um monte de bolas de basquete surge ao mesmo tempo na quadra. Amanda então se vira e todas, excepto uma, desaparecem. Aqui o filme comete (de novo) o pecadilho de comparar uma partícula subatômica a um corpo massivo. O porquê do erro veremos adiante.

Em seguida outro físico pega o bastão e prossegue conduzindo o pensamento:

A superposição quântica implica que uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. É um conceito bizarro e um dos mais importantes do mundo quântico.

A superposição quântica é não só uma das características mais importantes do mundo quântico, mas também a que suscita as discussões filosóficas mais acaloradas. É bom entendê-la já que ela será usada de maneira recorrente durante o filme.

Na física quântica o elétron não é visto como um ponto material, tal qual uma minúscula bola de bilhar, e sim como uma entidade matemática chamada “função de onda”. Esta função de onda representa a probabilidade de se encontrar o elétron em uma determinada posição do espaço. Pense na função de onda como se ela fosse uma nuvem, só que uma nuvem de probabilidade; onde a nuvem é mais densa é mais provável encontrar um elétron, onde ela é mais tênue a probabilidade de que haja ali um elétron é muito pequena. O problema é que a função de onda leva a uma consequência muito interessante que é a possibilidade – teórica – de que um objeto permaneça em dois estados simultaneamente.

Para entender o que isso significa imagine que uma carta de baralho está perfeitamente equilibrada sobre uma ponta. A física clássica nos diz que na ausência de qualquer infuência externa a carta ficaria equilibrada para sempre. Já a física quântica nos diz que a carta caíria imediatamente, para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo. Este bizarro resultado é chamado de superposição quântica.

Mas se isso é verdade por quê ninguém nunca viu uma carta ao mesmo tempo com a face para cima e para baixo? Uma das explicações propostas para o enigma, proposta na década de 20 com o nome de interpretação de Copenhagen, é que quando um observador vê a carta pela primeira vez ele força a natureza a escolher entre um dos estados quânticos possíveis. A natureza então escolhe aleatoriamente entre os estados “carta com face para cima” e “carta com face para baixo”. Isso é chamado de colapso da função de onda e é o nascedouro de todo o papo sobre consciência no qual se baseia "Quem Somos Nós?".

O único problema é que, segundo a mecânica quântica, a função de onda não deveria sofrer nenhum colapso! Na verdade o colapso da função de onda é apenas uma maneira pragmática de explicar por que nunca observarmos a superposição quântica no dia a dia; ela não é uma decorrência natural da mecânica quântica; ela é um postulado, uma carteada filosófica, um puxadinho que os físicos fizeram na teoria quântica para poderem aplicá-la com sucesso sem precisar antes concluir o arcabouço filosófico que desse conta de suas estranhezas.

Até hoje a superposição quântica nunca foi observada em objetos maiores do que algumas dezenas de átomos e há bons motivos para acreditar por que nunca será, conforme veremos. Por isso a analogia das bolas de basquete que Morpheuzinho quica com a força do pensamento é tão enganosa.


0:25:50

Uma voz pergunta...

Como pode um sistema ou um objeto estar em dois lugares ao mesmo tempo?

E outro responde imediatamente:

(...) Nós todos temos o hábito de pensar que tudo ao nosso redor já é uma coisa... que existe independente da nossa escolha. Nós temos que banir esse hábito de pensar. Em vez disso você tem que aceitar que mesmo o mundo material ao nosso redor, as cadeiras, as mesas, as salas, o carpete, mesmo a câmera, tudo isso não são nada mais que movimentos possíveis da nossa consciência. Eu estou escolhendo o tempo todo entre esses movimentos... para fazer com que a experiência real se manifeste. Este é o único pensamento radical que você precisa, mas ele é tão radical, tão difícil... porque nossa tendência é aceitar o mundo como se ele já estivesse lá, independente da minha experiência. Ele não está! A física quântica é tão clara a respeito disso. Em vez de pensar nas coisas como coisas, temos que pensar nelas como possibilidades da consciência

Agora as coisas ficam sérias e o filme mostra suas garras esotéricas.

Você se lembra do salto lógico que aconteceu aos 21 minutos de filme, quando o narrador sugeriu que a matéria era formada de pensamentos? Aqui ocorre outro destes saltos, na mesma direção. Num instante o filme está falando de física quântica e no seguinte postula que o mundo é literalmente moldado pelos nossos pensamentos, sem estabelecer nenhuma ponte entre essas duas idéias.

Segundo esta idéia toda a realidade física é construída por nossos pensamentos. Como se vivessemos na Matrix, mas sem nenhum computador criando a realidade a não ser nossa própria consciência.

As pessoas que admiram este filme pelo seu lado mais auto-ajuda costumam tomar esta afirmação de maneira frouxa, quase metaforicamente. É como se o filme estivesse defendendo apenas uma postura mental positiva, do que tipo que faz com que você persiga um sonho, consiga um disputado emprego, se relacione melhor com sua família, arranje uma namorada bonita, esse tipo de coisa. Não é isso! O que o filme repete incessamentemente é que você pode construir fisicamente a realidade com a força do pensamento. Isso significa levitar bolas de basquete (como Morpheuzinho), estar em dois lugares ao mesmo tempo (outra das de Morpheuzinho), curar doenças de todo o tipo (como Amanda descobrirá ao final do filme), aprender kung-fu num piscar de olhos e outras coisas do tipo "there is no spoon".

Antes de mais nada a física quântica nada diz sobre isso e qualquer extrapolação do mundo atômico para o mundo macroscópico é um exercício falacioso. Além disso, por detrás do agradável conceito de que o mundo é fisicamente configurado pela força do pensamento se esconde uma egoísta e terrível idéia: a de que o sofrimento não passa de um hábito de pensamento. Você diria a um portador de uma doença degenerativa como o Mal de Alzeimer, que sua condição é uma escolha? Você diria a um portador da síndrome de Down que seus pensamentos determinam sua deficiência mental? que sua condição, impressa em seus genes, é um mero hábito de pensar? Em que momento uma pessoa que nasceu cega optou por não enxergar o mundo?


0:27:10

Você pode ver em diversos laboratórios ao redor dos EUA, objetos grandes o bastante para serem vistos à olho nú...

Aqui há um vísivel corte entre esta frase e a que se segue.

...e elas estão em dois lugares ao mesmo tempo. Você pode tirar uma fotografia daquilo. (...) "E daí?" você diria, "eu vejo duas coisas aqui". Não, não! não são duas coisas, é uma coisa só. Uma coisa só em dois lugares simultaneamente!


Experiências recentes realmente mostraram que fótons e pequenos agrupamentos de átomos podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso é de fato impressionante e confirma esplêndidamente a teoria quântica. Contudo até o presente momento nenhuma experiência foi feita mostrando objetos visíveis a olho nú em dois lugares ao mesmo tempo. Nem mesmo objetos muito maiores do que átomos, mas ainda assim microscópicos, como vírus, foram observados em dois lugares ao mesmo tempo. Isso é simplesmente falso. (Na defesa do médico, o filme foi editado de maneira a dar a impressão de que a experiência mencionada foi realizada com corpos visíveis a olho nú, mas provavelmente não era a isso que ele se referia.)

Há explicações perfeitamente naturais para porque a superposição quântica não funciona para objetos muito maiores do que o átomo. Mas vamos deixar esta explicação para daqui a pouco.


0:28:37

Física quântica calcula somente possibilidades... mas se aceitarmos isso, então a questão que surge imediatamente é: quem, o quê, escolhe entre todas as possibilidades... para determinar a experiência real? Nós diretamente vemos que a consciência precisa estar envolvida. O observador não pode ser ignorado.

A questão aqui está relacionada aos trechos anteriores e finalmente podemos encerrá-la.

A experiência da carta de baralho sugere que é preciso a ação de um observador para que o estado da carta seja definido. Mas e na experiência cotidiana? Quem faz o tempo todo o papel de observador?

A resposta é que não há necessidade de observador. Os físicos descobriram que a teoria quântica dava origem a um comportamento que denominaram não-coerência. Segundo a teoria da não-coerência uma superposição quântica só pode existir enquanto permanece secreta para o mundo. No instante em que uma única mólecula de ar zanzando pelo ambiente, ou um único fóton dos quaquilhões que compõem um raio de luz, esbarram na carta, o estado da carta passa a ser conhecido; não há mais espaço para a indeterminação. Este ínfimo contato com o resto do universo é tudo o que basta para que a superposição se revele. Em outras palavras, a própria natureza faz o papel de observador.

Isso explica porque não se vê pessoas em dois lugares ao mesmo tempo, gatos suspensos entre a vida e a morte e outras superposições quânticas por aí. É praticamente impossível isolar um corpo macroscópico de toda e qualquer influência externa. Basta que uma fortuita molécula de ar esbarre no objeto para fazer com que uma estado quântico torne-se não-coerente, isto é, fique idêntico a um estado clássico.

A teoria da não-coerência foi proposta pela primeira vez em 1952 pelo físico David Bohm mas foi ignorada no início. Só bem mais tarde, no início dos anos 80, a teoria foi retomada e finalmente, em 1996, foi comprovada experimentalmente. Hoje ela é aceita pela maioria dos físicos no lugar da interpretação de Copenhagen.


0:31:35

Em Washington, a chamada "capital mundial dos homicídios" houve um grande experimento no verão de 1992... onde 4000 voluntários vieram de vários países para meditar coletivamente por longos períodos de tempo durante o dia. Foi predito que com um grupo deste tamanho o número de crimes violentos caíria em 18%, como definido pelo FBI naquele verão. (...) Ao final, o departamento de polícia tornou-se colaborador e autor do estudo, pois os resultados demonstraram que fato a criminalidade diminuiu 18%.


O que o físico John Hagelin não disse no filme é que o crime diminuiu 18% em relação ao que ele previu que subiria se os meditadores não tivessem meditado.

Funciona assim: Hagelin prevê, através de um modelo que considera, além de estatísticas pregressas da criminalidade, dados como a temperatura e flutuações no campo magnético da Terra, que a criminalidade subirá, digamos, 30% no verão. Mas enquanto o grupo de meditadores recita seus mantras, em vez de 30% a criminalidade aumenta apenas 15%. Desta maneira Hagelin pode dizer que a criminalidade foi 50% menor do que ele previu que seria.

No final das contas o que interessa para os moradores da cidade de Washington é que, com meditadores ou sem meditadores, no ano de 1992 a criminalidade lá atingiu o terceiro valor mais alto de sua história (quando consideradas as taxas de homicídio).

Não é a toa que uma pesquisa deste gabarito tenha merecido o prêmio igNobel, uma paródia do prêmio Nobel...


Leia a terceira e última parte>>

26.11.06

O Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” - Parte 1

É um trabalho chato mas alguém tem que fazê-lo. Depois de ver o documentário “What the Bleep do We Know” sendo citado seriamente em rodas acadêmicas e vazando para além do circuito nova-era até chegar às aulas das universidades sem que nenhum cientista sério desse país reagisse, decidi fazer alguma coisa: arregacei as mangas, preparei o espírito para 90 minutos do mais terrível besteirol esotérico que um homem deveria se obrigado a suportar, e comecei a escrever o “O Guia Cético para Assistir ‘What The Bleep do We Know’”.

Este guia será composto de duas ou três partes, e talvez duas versões: uma mais descolada, que será postada nesse blog, e uma mais séria com um pouco mais de embasamento científico, que será publicada posteriormente no Projeto Ockham.

Traduzindo literalmente, “What a Bleep do We Know” ficaria algo como “Que raios nós sabemos?” embora o “bleep” seja uma onopatopéia para os irritantes bips que os pudicos americanos usam para soterrar palavrões de 4 letras muito mais pesados do que “raios”. Por isso os distribuidores brasileiros, que sempre se acham capazes de melhorar o título original de um filme ficaram com o título "Quem Somos Nós?". Pelo menos nos livraram de ver o filme se chamar "Um Físico Muito Louco" ou "A Física Quântica do Barulho", o que pensando bem, talvez fosse mais apropriado neste caso.

“Quem Somos Nós?” narra a estória de Amanda, uma fotógrafa surda que é levada a percorrer uma jornada espiritual em busca das respostas que todos os seres humanos gostaram de ter: de onde viemos, para onde vamos e tudo o mais que acontece entre essas duas coisas. A diferença é que aqui as respostas buscam embasamento nos conceitos de física quântica, aquele assunto cabuloso que já levou o físico prêmio Nobel Richard Feynmam a dizer: “Se você acha que entende física quântica então você não entende física quântica”.

Apresentando os culpados
Antes de se perguntar quem somos nós, você deveria perguntar quem são as pessoas que fizeram esse filme. Porque isso pode afetar completamente a experiência de assisti-lo.

Um dos principais narradores de “Quem Somos Nós?” é Ramtha, o espírito de um guerreiro da Lemúria. Preste atenção: a pessoa que vai falar pelos próximos 90 minutos com você sobre Neurologia e Física Quântica é o espírito de um guerreiro que viveu em um continente mitológico há 35.000 anos, canalizado por um médium! Não sei quanto a você, mas se algum dos meus professores tivesse apresentado essas credenciais no primeiro dia de aula eu teria me retirado da sala e da universidade. Para evitar que você faça o mesmo no cinema essa preciosa informação somente é revelada no encerramento do filme, já nos créditos finais, o que é uma trapaça danada se você pensar bem.


O médium que canaliza Ramtha no filme é a mulher loira conhecida pelo pseudônimo de JZ Knight. Segundo ela Ramtha, um espírito iluminado que, tal qual Jesus, ascendeu aos céus depois de sua morte, se manifestou pela primeira vez na cozinha da sua casa em 1977. De lá para cá, a mulher fundou uma seita, a Ramtha School of Enlightenment e passou a faturar milhões em seminários, cursos, livros, fitas e bibelôs sobre os ensinamentos de Ramtha. Como JZ possui o copyright sobre Ramtha, é pouco provável que o espírito se manifeste para outro futuro milionário por um bom tempo (será que alguém já registrou o domínio intelectual sobre o Dr. Fritz?).

Ah sim, por coincidência os produtores e os três diretores de “Quem Somos Nós?” são membros da seita de Ramtha. Você sabe o que isso significa, certo? Que “Quem Somos Nós?” é simplesmente um longo comercial sobre uma lucrativa seita que promove a crença em reencarnação, continentes lendários, UFOS e outras bobagens esotéricas. Se você está apto a aceitar isso será mais um expectador feliz desse filme; na verdade, depois dele, pode até ingressar na seita.

Outro falante em “Quem Somos Nós?” é Jeffrey Satinover. Jeff é um médico que acredita que a homosexualidade é uma doença e que ele tem a cura (http://www.satinover.com/main.htm clique no link “homosexuality”). Além de afirmar que o homosexualismo é um mal psiquiátrico que pode ser tratado com antidepressivos, Satinover afirma que o liberalismo causa danos cerebrais. De acordo com um artigo exposto em seu site (use o link "liberalism"), Satinover acredita que...
...é possível que dos mais ou menos 70% que apoiaram, digamos, Bill Clinton, uma parte substancial sofresse de retardadamento mental como resultado da influência liberal das universidades e da mídia
Ou seja, basicamente este homem, que logo falará conosco sobre física quântica, consciência global e paz mundial, está dizendo que se você está contra Bush provavelmente é um retardado mental. Se você ainda por cima for gay isso quer dizer que é doente e retardado mental. Isso sem mencionar que Satinover também mantém links para sites que tratam do Código da Bíblia -- a crenca pseudocientífica de que a Bíblia traz criptografadas previsões sobre o futuro da humanidade.

Temos ainda em “Quem Somos Nós?” o físico PhD, John Hagelin. Hagelin é físico téorico com importantes trabalhos publicados na área das supercordas, embora sua última contribuição decente para a ciência tenha sido em 1994. Desde então Hagelin envolveu-se cada vez mais com a Meditação Transcedental, técnica do guru indiano que-diz-que-pode-levitar-mas-que-ninguém-nunca-viu-levitar Maharishi Mahesh Yogi do qual Hagelin é discípulo, assim como o foram os Beatles. Suas sucessivas tentativas de incorporar o misticismo oriental em suas teorias físicas o deixaram à margem da comunidade científica e o afastaram de seus ex-colaboradores. Seu mais notável trabalho desde então foi um estudo sobre como a meditação coletiva diminuiu a criminalidade na cidade de New York. Por este trabalho irreprodutível Hagelin foi laureado do prêmio Ig Nobel da Paz, uma paródia do prêmio Nobel. Hagelin foi quatro vezes candidato à presidência dos EUA; hoje preside o Instituto de Ciência, Tecnologia e Política Pública da Universidade Maharishi, uma universidade nova-era fundada por seu guru.

Completando o time de "Quem Somos?" vêm o quiroprático Joe Dispenza (só para esclarecer: a quiroprática é uma pseudomedicina sem nenhuma comprovação científica) e Michael Ledwith, ex-quase arcebispo de Dublin, Irlanda. Michael, que mudou seu nome para Miceal, foi afastado da Igreja Católica por defender a tese de que Jesus Cristo tinha um irmão gêmeo idêntico (embora possa ter colaborado para seu afastamento o fato de ter sido acusado de abusar sexualmente de um jovem seminarista, caso que foi resolvido mediante um acordo financeiro). Autor do livro “O Universo Hamburger” (não, eu não estou inventando!) Ledwith ministra o curso “Além do Código Da Vinci - Revelando a Vida Quântica de Jesus”, unindo de maneira inacreditável dois dos mais lucrativos filões em voga atualmente. Ambos são discípulos do culto Ramtha, embora isso não seja revelado nos créditos do filme.

Quem também aparece no filme é o físico David Albert, professor na universidade de Columbia, nos EUA. David é um físico respeitável com credenciais sólidas. Por isso ficou chocado ao ver como as entrevistas que deu foram editadas de maneira a dar a entender que coaduna com as opiniões místicas dos produtores do filme:

Eu fui editado de maneira a suprimir completamente meus verdadeiros pontos de vista sobre o assunto que o filme trata. Eu sou, na realidade, profundamente contrário às tentativas de unir física quântica a consciência. Mais ainda, eu expliquei tudo isso, com grandes detalhes, em frente à câmera, para os produtores do filme. Se eu soubesse que eu poderia ser tirado do contexto tão radicalmente eu com certeza não teria aceitado participar do filme.

Um ex-padre que pregava o evangelho do irmão gêmeo de Jesus, um médico que quer curar os gays e acha que os liberais são retardados mentais, outro que exerce uma terapia não reconhecida pela ciência, um físico praticante de levitação, um cara morto há 35.000 anos baixando em uma dona loira e, em má companhia nesta turma, um físico sério enganado pelos discípulos de uma seita maluca. Bem, agora que você já sabe onde está pisando vamos assistir ao filme.

Leia a segunda parte >>

25.11.06

Ctrl-c, Ctrl-v

Que eu saiba, já fui vítima de plágio duas vezes.

Em uma delas, uma pessoa que se identificava como Nágila Franca copiava meus artigos do Projeto Ockham e apresentava como se fossem seus ao site sobrenatural.org. A mulher era uma impostora profissional; copiou também os textos do jornalista Carlos Alberto Teixera, colunista do caderno de informática do O Globo, que rapidamente acionou o departamento jurídico do jornal.

Agora o blog Loop Quântico, de um autor anônimo, plagiou meu texto sobre o filme "What a Bleep do We Know" escrito no Radar Ockham em maio de 2005. Pelas inserções infelizes do próprio punho que o autor arriscou no meio do texto, dá pra entender porque ele precisou copiar. O que eu não entendo é porque alguém seria tão estúpido para cometer uma falta tão fácil de descobrir; basta uma rápida googlada e a gente pega o bandido e queima para sempre a reputação do site.

30.10.06

O fim do médium que previa o passado

Pouca gente sabe mas Jucelino Nóbrega da Luz, o médium que consegue surpreender algumas pessoas com sua capacidade para prever o passado -- o "profeta do ex" (ou devemos dizer "ex-profeta" agora que sua previsão mais notória não se realizou) já alegou ter psicografado ninguém menos que a própria Nossa Senhora de Fátima.

Segundo Jucelino, a santa lhe revelou um segredo; não um segredo qualquer, mas o "Terceiro Segredo", a terceira das três revelações que a Virgem Maria teria feito a alguns pastores portugueses no início do século passado. Tudo bem que o Terceiro Segredo já foi revelado pela Igreja Católica em 2000 e seu conteúdo nem era tão espetacular assim (para desapontamento de muita gente). Assim mesmo Nossa Senhora insistiu.

E o que a Virgem Maria quis (novamente) revelar ao mundo, desta vez escolhendo Jucelino como seu porta voz?

O segredo é que o mundo vai acabar.

Quando? Bem, o curioso é que, por algum motivo obscuro, a mãe de Jesus Cristo ignorou a datação que tem como referência o nascimento do seu filho. Em vez disso a Virgem revelou que o mundo vai se acabar mais ou menos 30 anos depois do último dia do calendário Maia, que corresponde ao ano de 2012 depois de Cristo.

Isto quer dizer que em vez de usar o calendário Gregoriano, usado hoje na maior parte do mundo, ou mesmo do calendário Juliano, usado em sua época, ambos baseados no nascimento do filho de Deus, a Virgem preferiu revelar seus segredos ao professor Jucelino usando o calendário de uma antiga tribo pagã que adorava uma meia dúzia de deuses diferentes cuja ira e benevolência precisavam ser negociadas com sangrentos sacrifícios humanos.

E tem gente que engole isso...

Não mais. Acabou. Assistimos ao fim de Jucelino Nóbrega. Lula ganhou e Jucelino perdeu. Com sorte em poucos meses teremos esquecido esse sujeito e suas ofensas à inteligência e à sensibilidade humanas.

(clique na imagem para vê-la ampliada)

12.10.06

The more things seem to change...

Para aqueles que ainda duvidam que a religião é uma invenção puramente humana e que não perceberam que, como diz aquela música bonitinha da Corine Bailey, "The more things seem to change The more they stay the same", é bom dar uma conferida nos noticiários. Há alguns dias esperava-se que o Papa Bento XVI fosse desinventar o Limbo:

"O Papa celebrou uma missa com os integrantes da comissão na manhã de sexta-feira, mas, ao contrário do que especulava a imprensa, ele não mencionou o conceito do limbo na homilia e não anunciou nenhuma decisão. Havia informações de que o Papa aboliria o limbo na sexta-feira, mas um participante, o arcebispo italiano Bruno Forte, disse que os 30 integrantes da comissão ainda estão ajustando o texto do documento.

- Ainda estamos trabalhando no documento. Acho que vamos estar prontos para entregá-lo a ele até 2007 - disse ele à Reuters por telefone depois da missa."


Para quem não sabe o Limbo é uma região, entre o Céu e o Inferno aonde vão parar aqueles que não foram batizados, como os bebês que morreram muito cedo e todos aqueles que tiveram a infelicidade de morrer antes que o batismo fosse inventado.

O que acontece é que na logística celestial os não-batizados são um estorvo. Não se pode admiti-los no céu mesmo que tenham feitos as melhores ações na Terra uma vez que ainda carregam o pecado primordial (por causa da maldita desobediência de Adão e Eva). Mas também não parece certo mandá-los para o Inferno já que um bebê que mal nasceu não fez nada ainda para merecer a danação eterna. Por isso acreditava-se que os não-batizados eram enviados para o Limbo, uma espécie de ante-sala do céu, onde eles simplesmente aguardavam, por toda a eternidade.

Você não vai encontrar nada sobre o Limbo nas escrituras sagradas. Na verdade o Limbo foi inventado no século XIII por Peter Abelard, um filósofo escolástico francês. Antes disso ensinava-se que o bondoso Deus enviava os bebês não-batizados para queimar nas chamas do inferno por toda a eternidade. Mesmo sem nunca ter sido parte da doutrina oficial da Igreja, o Limbo era parte da tradição católica. Pelo menos um papa já se referiu a ele sem papas na língua (o trocadilho à la Engenheiros do Hawaii foi sem querer): em 1905 o papa Pio X afirmou com todas as letras que "As crianças que morrem sem batismo vão para o limbo, onde não têm contato com a graça de Deus mas também não sofrem". Agora o Papa Bento XVI afirma que o limbo é apenas "uma hipótese teológica" e "não uma verdade da fé". Um dos dois deve estar errado. Por falar nisso, o que aconteceu com a infalibilidade papal? Seria ela também uma hipótese?

O grande problema para os cristãos é que se o Limbo pode ser desinventado com uma canetada papal o que virá depois? O purgatório será fechado? O Capeta deixará de ter chifres? A Santíssima Trindade deixará de ser uma trindade? Aos que se inquietam diante de uma Igreja que tem hipóteses como as de sua contraparte, a Ciência, em vez de verdades absolutas, é sempre bom lembrar que os dogmas da Igreja não nasceram prontos, mas foram inventados por outras canetadas históricas, às vezes muito mais controversas. A questão da multiplicidade de Jesus é um bom exemplo.

Na idade das trevas a Igreja Católica vivia um excruciante dilema: quantos aspectos tinha Cristo? Ou melhor: teria sido Jesus Cristo ao mesmo tempo Deus e homem ou havia duas entidades distintas habitando o mesmo corpo: o Jesus homem e o Jesus filho de Deus?

Pode não parecer, mas isso faz toda a diferença. Para começar, se a divindade de Cristo fosse destacada de sua humanidade isso significaria que apenas a parte humana de Jesus havia sofrido na cruz e, como se sabe, o sofrimento é uma parte muito importante da crucificação. Ainda mais importante era o fato de que se Jesus não fosse essencialmente Deus, tecnicamente falando não seria correto se referir à Virgem Maria como "A Mãe de Deus".

A idéia de que Jesus e Cristo eram dois em um era defendida por Nestório, patriarca da cidade de Constatinopla e sua doutrina era conhecida por nestorianismo. Já a idéia oposta, de que Jesus Cristo era homem e Deus era defendida por Cirilo (figura), patriarca da cidade rival de Alexandria.

Para decidir a questão foi convocado o Concílio de Éfeso, no ano de 431. Cirilo e seus partidários chegaram ao local do Concílio antes de Nestório e esmagaram a pequena oposição que já estava lá com ameaças que iam da perda do posto à excomunhão. Sem resistência, Cirilo decidiu a contenda e decretou que doravante o nestorianismo seria considerado uma heresia. Nestório foi deposto e exilado no Egito, seus livros foram queimados e a Virgem pode voltar a ser chamada de Mãe de Deus em paz. Cirilo teve seus prestimosos serviços reconhecidos e foi mais tarde canonificado pela Igreja Católica. Hoje atende por São Cirilo.

Nestório também não acreditava no Purgatório, aquele lugar para onde vão as pessoas que precisam expiar um ou outro pecadilho menos grave antes de ganhar o direito de ascender ao Céu. Segundo Nestório ou o sujeito ia para o Céu ou para o Inferno. Não tinha meio termo. Se o nestorianismo não tivesse sido sentenciado ao esquecimento pela truculência de São Cirilo, talvez hoje o Purgatório não existisse.

Pobres almas... sem o Purgatório e agora sem o Limbo, estariam predestinadas a salvação ou a danação eternas. Sem meio termos. Dadas as opções não há dúvida que o Inferno precisaria ser um lugar muito maior do que hoje...

24.9.06

Parnormal também é gente

A constituição do estado de Pernambuco é uma das mais avançadas do mundo. É a única no planeta a prever assistência social obrigatória aos necessitados de todo o tipo que se possa imaginar: inválidos, menores abandonados, idosos desamparados e paranormais. Sim, eu disse paranormais.

Está lá, nos artigos 174 e 175:

Art. 174 - O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxilio de entidades privadas de caráter Assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e sem fins lucrativos, prestarão Assistência aos necessitados, ao menor abandonado ou desvalido, ao superdotado, ao paranormal e a velhice desamparada.

§ 1º - Os auxílios as entidades referidas no caput deste artigo somente serão concedidos após a verificação, pelo órgão técnico competente do Poder Executivo, da idoneidade da instituição, da sua capacidade de Assistência e das necessidades dos assistidos.


§ 2º - Nenhum auxilio será entregue sem a verificação prevista no Parágrafo anterior e, no caso de subvenção, será suspenso o pagamento, se o Tribunal de Contas do Estado não aprovar as aplicações precedentes ou se o órgão técnico competente verificar que não foram aténdidas as necessidades Assistenciais mínimas exigidas.


Art. 175 - A Assistência social será prestada, tendo por finalidade:


I - a proteção e amparo a Família, a matérnidade, a infância, a adolescência e a velhice;
II - a promoção da integração ao mercado de trabalho;
III - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiências e sua integração na sociedade;

IV - a garantia, as pessoas portadoras de deficiência visual, da gratuidade nos transportes coletivos urbanos;
V - executar, com a participação de entidades representativas da sociedade, ações de prevenção, tratamento e reabilitação de deficiências físicas, mentais e sensoriais.

Ou seja, se você está em Pernambuco e vê gente morta, lê pensamentos, entorta colheres, prevê o futuro usando borra de café, consegue levitar, tem visão de raios-x etc., pode contar com assistência social gratuita do estado. Difícil é descobrir o que o estado pernambucano pode fazer por você, já que um paranormal não carece de nenhuma das assistências definidas no artigo 175, nem mesmo a integração ao mercado de trabalho de que fala o item II; os que se dizem paranormais no Brasil precisam no máximo de empresários, não de oportunidade para ganhar dinheiro. Ainda bem. Seria mesmo engraçado garantir a gratuidade nos ônibus municipais para ciganas e Pais de Santo.

Diferentemente do que dizem vários sites espíritas e de parapsicologia por aí, o texto da lei não menciona a necessidade de nenhuma comprovação da alegada paranormalidade, apenas fiscaliza as entidades que oferecem, com dinheiro do governo, assistência aos paranormais. Ou seja, uma ONG em defesa dos direitos dos paranormais parece ser um bom negócio em Pernambuco, uma vez que conta com recursos garantidos por lei e pouca certeza sobre quem é merecedor dos recursos públicos. Não me espantaria se Pernambuco fosse o estado com o maior número de médiuns per capita do país.

A despeito da imensa, e mundialmente inédita, preocupação social do governo pernambucano, fica a pergunta: por quê um paranormal se candidataria à precária assistência pública brasileira se pode faturar a bagatela de 1 milhão de dólares no Desafio Paranormal da Fundação Educacional James Randi?

16.9.06

A Penetração das Pseudociências nas Universidades Brasileiras

A quem interessar possa, estou disponibilizando o artigo que apresentei no Congresso Latino Americano de Pensamento Crítico na Argentina, há exatamente um ano atrás: A Pseudociência nas Universidades Brasileiras.

Aquele, o congresso argentino, foi um belo momento da minha vida que teria impulsionado bastante minhas atividades céticas se não tivesse coincidido com uma enorme virada profissional (para melhor) na minha carreira. Por causa disso, desde então não tive tempo nem disposição de tentar publicar o artigo em lugar nenhum e só o fiz circular entre os amigos mais próximos. Como acho que o trabalho fcou muito bom, penso que é um pecado deixá-lo guardado na gaveta. Por isso, aqui está, ainda que tardiamente. Assim que tiver tempo eu o publico de maneira decente, provavelmente no Projeto Ockham.

[atualização] O artigo está disponibilizado logo abaixo, via iPaper.

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14.9.06

Hidrogênio, oxigênio e muito amor

Masaru Emoto, o sujeito sorridente da foto ao lado, é médico, mas não um médico qualquer. Ele é formado em medicina alternativa pela Open International University for Alternative Medicine na Índia. Diga-se de passagem que a Open University realmente faz justiça ao "aberta" que ostenta no nome: para entrar é preciso apenas ter experiência em alguma medicina alternativa; para sair é suficiente apresentar cinco trabalhos ao longo do único ano de duração do curso e depois responder a um questionário durante o ano seguinte de residência. Aparentemente todo stress deve ser evitado em um curso de medicina alternativa.

Mesmo com um currículo pouco impressionante, ou talvez por causa dele, Dr. Emoto tornou-se mundialmente famoso por defender a mirabolante idéia de que os pensamentos influenciam a água (!!).

Certo, deixa eu explicar melhor: segundo o Dr. Emoto a água é influenciada pelos pensamentos e emoções ao redor dela. Por exemplo, quando a água é resfriada em um recipiente no qual estão escritas palavras como "morte" e "você me dá nojo", os cristais de gelo formados são disformes e pouco ordenados; por outro lado se você escreve no rótulo palavras como "amor" e "gratidão" os cristais se arranjam de forma simétrica e bela. O mesmo padrão pode ser observado se a água é fotografada enquanto se solidifica ao som de uma bela sinfonia de Mozart (imagem superior), em oposição ao que acontece quando a água se cristaliza sob o som de um cavernoso heavy metal (imagem inferior). (Nota: pesquisadores que estudam a influência da música sobre os seres vivos (e agora os não-vivos) costumam assumir que heavy metal é o pior estilo musical a que se pode expor uma criatura. Eu discordo. Gostaria de ver o que aconteceria ao pobre líquido sob o som de Axé Music)



Mas isso não é tudo. O doutor Emoto está convencido que a água bem tratada com palavras amáveis e orações (sim, orações) hidrata mais, aumenta a absorção de nutrientes pelo organismo e melhora o metabolismo. Por isso desenvolveu a Água Indigo, uma água "geometricamente perfeita" super-hidratante. A fórmula para produzir a Água Índigo é simples: algumas pessoas se reúnem de mãos dadas em torno da água e... rezam por ela. Evidentemente este tratamento VIP tem um preço à altura, que faz qualquer Perrier parecer água de torneira; A garrafinha de 230 ml da água Índigo é vendida por inacreditáveis U$ 35,00. O consolo é que para aqueles que querem produzir água hexagonal em sua própria casa sem gastar tanto, Dr. Emoto oferece (U$ 129,00) a garrafa Water Star, capaz de transmutar o líquido em seu interior impregando-o com vibrações positivas.

Como se poderia esperar, as alegações do Dr. Emoto não são aceitas pela comunidade científica; não poque são extravagantes demais e sim porque não atendem aos requisitos mínimos do método científico. Só para início de conversa, Dr. Emoto não utiliza testes duplo-cego em seus experimentos. Além disso não há nenhuma menção em seus trabalhos de que tenha se preocupado em isolar as diversas váriaveis que podem influenciar a cristalização da água, como a velocidade de resfriamento, grau de pureza, vibração (como o provocado pelos graves de uma música heavy metal, por exemplo) etc. Alguém poderia até mesmo contestar a teoria de Emoto em seu próprio terreno místico-new age. Um adepto da religião espírita por exemplo, poderia questionar o porquê da água reagir tão mal à palavra "morte", um conceito natural e necessário para a evolução espiritual. Ou talvez a água examinada tivesse sua própria religião.

Contestar os resultados experimentais de Emoto no campo científico é brincadeira de criança. Mais difícil é contestar outras de suas estapafúrdias alegações, como a de que a água pode vir, um dia, a ser usada como como combustível alternativo à gasolina, desde que pelo menos 10% da humanidade esteja consciente do kan-sha (tradução livre do binômio "amor e gratidão", em japonês, ao qual a água seria especialmente suceptível). De tudo o que não se entende dessa afirmação, uma única pegunta: por que diabos dez por cento!? Dr. Emoto explica:
"A razão pela qual eu digo 10% é porque esta razão aparece na natureza. Quando olhamos para o mundo das bactérias por exemplo vemos que 10% das bactérias são boas, 10% são ruins e 80% são bactérias oportunistas que podem pender para qualquer lado."
Eu não conheço muitos lugares do mundo, a não ser talvez a Open University, onde as bactérias sejam classificadas como "boazinhas", "malvadas" e "oportunistas", mas gostaria de ver alguém tentando distinguir uma das outras.

As pesquisas do Dr. Emoto receberam destaque no filme "What The Bleep do We Know?" recente documentário picareta de auto-ajuda-pseudo-quântico-esotérico que fez enorme sucesso nos EUA. O engraçado é que o filme é tão sem noção, mas tãoooo sem noção, que a água sentimental de Emoto passa quase despercebida. Realmente é meio difícil se sobressair num filme que apresenta um guerreiro da Lemúria morto há 35.000 anos falando de física quântica através de um médium, não é verdade?

Mas essa história fica para depois...

7.9.06

Por que o cidadão médio não entende muito de ciência


Explicado graficamente pelo blog Big Monkey, Helpy Chalk.


Artefatos perigosos

A aviação comercial está em um dilema. Várias empresas estão quase falindo e para piorar, viajar de avião está progressivamente se tornando um gigantesco transtorno, pelos menos em vôos internacionais. Enquanto antigamente você só precisava se preocupar com as poltronas apertadas e o contínuo barulho das turbinas, agora só faltam revistar seu pensamento antes de entrar no avião. Como todos já sabem, agora até um estado físico da matéria representa uma ameaça à segurança dos vôos - todos os líquidos são suspeitos até prova em contrário.

Se isso parece meio estranho, espere até ver a lista detalhada do que pode ou não pode ser levado para dentro de um avião, segundo a agência americana de segurança dos transportes, disponível aqui.

Você não pode levar xampu, pasta de dente, sabonete líquido, aqueles líquidos de enxague bucal (cepacol, listerine, etc), perfumes, desodorante aerossol, gelatina, pudim, iogurte ou qualquer bebida. Você pode entrar com saca-rolhas e aqueles cortadores de ponta de charuto que mafioso de filme usa para cortar o dedo de alguém. Tudo bem, estes dois não são armas letais, mas fazem mais estrago que um tubo de colgate. E tudo que cabe dentro de um tubo de pasta de dente também pode ser escondido dentro de uma câmera ou prótese ou de um dos vários outros itens que podem entrar no avião. Como por exemplo, um robô transformer - que, acreditem, está lá especificamente.

Caso você tenha dúvida, o burocrata que fez a lista achou necessário deixar claro que não é possível entrar com cutelos, arcos e flechas, tacos de beisebol ou sinuca, machados, pés de cabra, espadas, nunchakus, estrelas ninja, dinamite, granadas de mão e sabres (de luz?).

Mais interessante é ser possível entrar com sutiãs com enchimento de gel e ... KY ("lubrificante pessoal"). Só podemos imaginar o motivo para isso... E o pior é que se seus vizinhos de poltrona se aproveitarem disso durante o vôo, não vão nem poder escovar os dentes ou passar um desodorante depois...

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