5.2.08

O problema das virgens

Outro dia lia o "Carta a uma Nação Cristã" do filósofo ateu Sam Harris. É um livro fininho de leitura agradável, companhia perfeita para se ter na mochila quando se vai ao aeroporto para mais uma ponte aérea; você começa a ler logo após o check-in, faz uma pausa para trocar o protocolar "bom dia" com as comissárias de bordo, outra pausa mais tarde para recusar a barrinha de cereal ou o biscoito de gordura trans, e antes do avião pousar você já terminou.

Então deve ter sido quase na hora da aterrissagem, já chegando ao final do livro, que mais uma vez vi mencionada aquela história de que os terroristas muçulmanos que seqüestraram os aviões no dia 11 de setembro acreditavam que, em troca de seu martírio, seriam recompensados no paraíso com um séquito de 72 virgens. Só que desta vez eu parei para pensar um pouco mais no lado, digamos, prático, deste assunto.

Supondo que a religião islâmica realmente assegure 72 virgens aos que morrem em nome de Alah, será que esta graça está reservada aos mártires ou é estendida a todos os fiéis que adentram o paraíso? E de onde vêm 72 mulheres virgens para cada homem do reino dos céus? São as almas das mulheres que morreram imaculadas que vão ao céu servir os mártires? Se não, o que reserva o céu às mulheres mártires? maridos perfeitos que nunca se esquecem de abaixar a tampa da privada? Pensando em todas estas questões decidi pesquisar um pouco mais sobre o paraíso islâmico.

Comecei pelo Alcorão. O livro máximo da religião islâmica não deixa dúvidas de que o paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, mas nada é dito sobre a quantidade de virgens que aguarda os eleitos.

"E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (...) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos."

Alcorão, surata 56, versículos 12-40.
(todas as traduções deste texto foram feitas a partir do inglês)

São inúmeras as passagens como esta que mencionam a existência no paraíso de jóias, criados jovens e cheirosos, vinho (uma extravagância, já que o islã proíbe consumir bebidas alcoólicas em vida), rios de leite, rios de mel, rios de água (que costuma ser coisa preciosa nos países muçulmanos), frutas abundantes e moçoilas virgens para fazer "companhia" aos justos... Comparado ao paraíso cristão, com seus anjos assexuados de aparência andrógina tocando harpa e entoando cânticos (quando não estão em missão para destruir alguma cidade ou coisa assim), o céu islâmico parece o Club Med dos paraísos.

Só que diferentemente da Bíblia, que é a única fonte autenticada pela Igreja das palavras de Deus, na religião islâmica o Alcorão é complementado pelos hadiths, uma coletânea de histórias sobre tudo o que supostamente disse ou fez o profeta Maomé durante sua vida, que circularam no boca a boca por mais de um século até serem redigidas em sua forma atual. É aí, nessa barafunda de textos, às vezes antagônicos, que vamos encontrar mais detalhes sobre o paraíso islâmico, incluindo o número de virgens com que os eleitos são agraciados:

"A menor recompensa para aqueles que se encontram no paraíso é um átrio com 80.000 servos e 72 esposas, sobre o qual repousa um domo decorado com pérolas, aquamarinas e rubis, tão largo quanto a distância entre Al-Jabiyyah (hoje na cidade de Damasco) e Sana'a (hoje o Iemem)"

Hadith 2687 (Livro de Sunan, volume IV).

Se esta é a menor recompensa que aguarda os felizardos no paraíso, então é certo que os servos e as virgens não foram parar lá por mérito. Quem sabe fossem candidatos ao inferno (não dizem que "é melhor reinar no inferno que servir no paraíso"?). No caso das virgens isto faria todo o sentido, já que a rotina delas no céu não é moleza; sobre isso escreveu Al-Suyuti, um renomado comentador do Alcorão e estudioso dos hadith, no século XV:

"Cada vez que se dorme com uma huri descobre-se que ela continua virgem. Além disso o pênis dos eleitos nunca amolece. A ereção é eterna. A sensação que se sente cada vez que se faz amor é mais do que deliciosa e se você a experimentasse neste mundo você desmaiaria. Cada escolhido se casa com setenta huris, além das mulheres com que se casou na terra, e todas têm sexos apetitosos."

Para as virgens o paraíso islâmico é mais ou menos como uma versão pornô do mito de Prometheus (aquele do titã que tinha seu fígado devorado todos os dias por uma águia), só que é o hímen das jovens donzelas, e não o fígado do titã, que se regenera perpetuamente.

Se você tem uma ereção permanente e o resto da eternidade nas mãos algumas dezenas de virgens não devem bastar, por isso o paraíso islâmico conta ainda com um local que, cá embaixo seria chamado de "bordel", mas que no paraíso islâmico chamam de "mercado". Segundo os hadith, Maomé teria dito:

"Existe no paraíso um mercado onde não há compra ou venda, mas homens e mulheres. Quando um homem deseja uma mulher ele vai até lá e tem relações sexuais com ela."

Al Hadis, Vol. 4, p. 172, No. 34

Os cristãos, a quem devemos a noção agostiniana de que o mundo físico é impuro, gostam muito de apontar o dedo na cara dos muçulmanos e dizer que o paraíso deles é "liberal" demais. Aí, é a vez dos muçulmanos dizerem aos cristãos que se eles querem mesmo falar sobre sacanagem em livros sagrados é bom que se lembrem que têm teto de vidro. É impressionante quanta energia é gasta na internet nesta troca de citações porno-sacras entre cristãos e muçulmanos; eu imagino que jovens beatos de ambas as religiões aprendam bastante sobre estupro, pedofilia e prostituição nestes sites.

Bem, na defesa dos muçulmanos é justo dizer que como os hadith foram escritos muito tempo depois da morte de Maomé, nem todos eles são considerados genuínos pelos estudiosos islâmicos (segundo eles, por exemplo, o trecho acima é falso). Só que mesmo as passagens consideradas verdadeiras podem ser bastante embaraçosas; em algumas delas o constrangimento dos tradutores fez com que a formosura das virgens fosse minguando até que seus detalhes anatômicos desaparecessem por completo. Eis um bom exemplo:

Versão 1 - por Arberry
Para os tementes aguardam um lugar seguro, jardins, vinhedos, donzelas de seios arredondados (maduros) e um copo transbordante de vinho.

Versão 2 - por Yusuf Ali
Para os justos haverá a satisfação dos desejos em seu coração, jardins e vinhedos, companheiras da mesma idade e um copo cheio de vinho.

Versão 3 - por Rashad Khalifa
Os justos merecerão uma recompensa. Jardins e uvas. Esposas magníficas. Drinques deliciosos.

Surah an-Naba' (78:31-34)

Mas existe uma boa chance de que os tradutores islâmicos nunca mais precisem dissimular a exuberância das virgens. Um livro publicado recentemente na Alemanha e muito bem recebido pela comunidade científica, "Die Syro-Aramaische Lesart des Koran" ("Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão"), do professor de línguas antigas Christoph Luxenberg, defende a tese de que muita coisa faria mais sentido nos textos sagrados se os tradutores levassem em conta que o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas num mix de antigos dialetos aramaicos. Por exemplo, a palavra "hur", que em árabe quer dizer "virgem", em sírio significa "branca". Assim, segundo Luxenberg, as "castas huris de olhos castanhos" descritas no Alcorão seriam na verdade "uvas brancas secas" de "clareza cristalina", uma iguaria bastante apreciada naquela época.

Dá para imaginar a decepção dos mártires? Deve ser como comprar uma passagem para um cruzeiro de solteiros e ao embarcar descobrir que não vai ter mulher...

No final o problema das virgens vai ser resolvido com a troca de uma única palavrinha. Nenhum candidato a homem-bomba vai ficar mesmo muito entusiasmado em abandonar esta vida quando souber que sua recompensa por morrer abraçado em dinamite será um suprimento vitalício de passas.

Mas é claro que esta não deveria ser a solução. A continuidade da civilização como a conhecemos não deveria depender da tradução de uma palavra num livro sagrado, ou de distinguir o que de fato disse um homem denominado profeta das fantasias eróticas de um bando de velhos babões. Melhor seria se não houvesse pessoas no mundo dispostas a acreditar literalmente em histórias escritas há milhares de anos, numa época em que a maioria das pessoas sabia tanto sobre o mundo natural quanto uma criança da quinta série.


27.1.08

Que $#@! eles estão falando?

No último post um leitor anônimo deixou nos comentários a dica de uma série de vídeos no YouTube satirizando o filme "Quem Somos Nós". Eu achei os filmes tão bons que decidi legendá-los para que fiquem acessíveis para mais gente. São sete ao total, mas por enquanto legendei os dois que achei mais engraçados.

A propósito, se as legendas parecerem não fazer nenhum sentido não é por minha culpa, essa é a graça dos filmes...




15.1.08

Procura-se um desenhista

Já faz algum tempo que eu venho pensando em escrever uma série de tirinhas cômicas provisoriamente intituladas "O Dragão da Garagem em Tirinhas". Mas foi só há alguns meses atrás, num momento de raríssima inspiração em que se encontraram um inesperado ócio criativo, 80 mg de cafeína (= 1 Red Bull) e uma profunda amargura (que precisava ser esquecida) que eu passei do plano à ação; sentado na lanchonete da academia, com uma caneta bic emprestada e um punhado de guardanapos, escrevi umas seis tirinhas completas e rabisquei mais umas tantas no espaço que sobrou (ué, o Feynman não escrevia papers de física num bar de strip-tease?).

Agora, para o projeto sair daqueles amarfanhados guardanapos falta o(a) desenhista (para isso e para um monte de outros projetos que eu tenho na cabeça, como um livro infantil sobre ciência). É aí que você entra. Se você desenha bem, é idealista a respeito da importância da ciência e tem algum tempo livre para investir em projetos que, por enquanto, não trazem nenhum retorno a não ser pura satisfação pessoal, me mande um e-mail ou escreva um comentário logo abaixo. Quem sabe a gente não vira o Penny & Arcade do ceticismo?

10.1.08

Põe na conta do aquecimento global

Outro dia recebi aqui em casa, gratuitamente, a edição de janeiro da revista mineira "Encontro".

A "Encontro" é uma revista até bem caprichada, com papel bom, diagramação decente, entrevistas com gente de peso (essa trazia o ministro Ciro Gomes), muita propaganda do governo estadual e muitas colunas sociais. Sempre a vejo aos montes em cafés e consultórios de dentistas aqui por BH.

Então ali estava eu, folheando casualmente a "Encontro" e pensando comigo que papel eu tinha assinado para receber a revista de graça, quando descobri o suplemento que vinha junto com ela, chamado "Encontro Ambiental". Na capa deste uma pequena manchete chamou minha atenção: "Clima Ruim -- Aquecimento Global faz Mal para a Saúde". O que veio a seguir, meus amigos, foi a pior peça jornalística que eu vi em muito tempo. Eis como tudo começava:

O último relatório de avaliação do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU mostra que as temperaturas mundiais poderão sofrer, até o fim do século, um aumento de 1,4 a 5,8 graus celsius. A variação aponta para consequências nada animadoras como furacões, terremotos, inundações em algumas partes e desertificação em outras, extinção de espécies, fome, doenças, miséria...

Alguém pode me explicar como o aumento da temperatura pode causar terremotos!? Parece mais que a autora, sem fazer pesquisa nenhuma, jogou todas as catástrofes que pôde imaginar numa mesma enumeração. Faltaram apenas o impacto de um asteróide gigante e o Godzilla.

Ainda assim, desconfiado de tanta tragédia junta procurei o resumo do relatório do IPCC que a autora cita. Pelo que li, no caso dos furacões, o IPCC reconhece que não existe nenhuma evidência nos poucos dados disponíveis de que eles vêm se tornando mais freqüentes por causa do aumento da temperatura dos oceanos. Diga-se de passagem que, segundo o IPCC, no hemisfério sul a temperatura dos oceanos não aumentou nem um tiquinho no último século.

Mais alguns parágrafos, todos muito ruins, e vinha o seguinte:

"O aquecimento global também traz preocupação quando o assunto são as doenças vetoriais, como a dengue e a malária. (...) prevê que o aquecimento possa provocar epidemias das duas doenças, com efeitos catastróficos. (...) Em todo o país, o número de casos de dengue notificados até meados deste ano superou em 20% o total do mesmo período de 2006. Pode ser por causa do aquecimento global que favorece a multiplicação do mosquito durante todo o ano."

Pode ser, mas não é. O verdadeiro motivo para o aumento do número de casos da doença não só no Brasil, mas nos outros países subdesenvolvidos, é que aparentemente o Aedes Aegypti evoluiu e desenvolveu imunidade ao veneno tradicionalmente usado para combatê-lo; para piorar o danado agora é capaz de se reproduzir também em água suja e até sem água.

De qualquer maneira colocar a culpa no aquecimento global por alguma coisa só comparando os dados de um ano com o anterior é o pior exercício de estatística que eu já vi. Ainda mais que a autora nem se preocupou em saber se 2007 foi mesmo mais quente que 2006.

E a jornalista seguia colocando vítimas na conta do aquecimento global:

"Mais: estudos mostram que, com as mudanças climáticas, cerca de 20 a 30% dos vegetais e animais poderão ser extintos. Com isso haverá redução do alimento. Menos alimento, mais fome, mais desnutrição e morte. Sabe-se também que a água potável vai ficar mais escassa. Menos água, mais desidratação e morte. E o efeito cascata está formado."

Eu não sei de onde a autora tirou esses dados, mas as pesquisas têm mostrado que tanto as florestas tropicais quanto a agricultura estão na verdade se beneficiando do aquecimento global, já que com mais CO2 no ar e mais tempo de luz solar -- que compensa a quantidade menor de chuvas na época da seca -- a fotossíntese é favorecida. Graças a isso, no geral, a produção de alimentos deve aumentar com o aquecimento global, não o contrário.

A extinção de até 1/4 das espécies animais e vegetais, que de fato é apregoada por alguns cientistas, é uma coisa terrível sem dúvida, mas de fome só vão morrer por causa disso as pessoas que tiverem uma dieta baseada em ursos polares, lêmures, algumas espécies raras de sapos e certas aves (que não o frango).

O quadro de desidratação e morte que a autora pinta tampouco é verdadeiro, embora nesse caso ela seja apenas mais uma indolente vítima da eco-paranóia que predomina na mídia. O próprio IPCC afirma que não vai faltar água em toda a parte. As regiões mais afetadas por secas serão aquelas onde o líquido provém exclusivamente das chuvas; nas regiões mais altas, que dependem do degelo das montanhas, como boa parte da Ásia, vai haver mais água, não menos.

Quando eu achava que já estava preparado para tudo, o texto continuava assim:

"Hoje se tem uma série de alterações por causa do clima. Este ano, por exemplo, devido ao clima frio e seco, aumentou muito o índice das doenças de inverno, como pneumonias, asma e descompensação de doença pulmonar obstrutiva crônica.".

Me corrijam se eu estiver errado mas se no aquecimento global o planeta fica mais quente, por que deveríamos temer as doenças de inverno? Eu não sou médico nem nada, mas pelo que eu entendi vão haver menos casos de pneumonias, asmas e descompensação de doença pulmonar obstrutiva crônica se os invernos forem mais moderados, não é?

O trecho acima vinha acompanhado da figura de um menininho fazendo uso de um inalador, com a seguinte legenda:

"O clima seco favorece o crescimento de casos de doenças respiratórias nas crianças."

É difícil entender como a autora chegou a conclusão nada óbvia (e até anti-intuitiva; o que é estranho já que intuição é tudo o que ela parece ter usado para escrever) de que o clima vai ficar mais seco com o aquecimento global.

Como a capacidade do ar de reter o vapor de água aumenta exponencialmente com a temperatura, a umidade específica deverá aumentar com o aquecimento global, não diminuir. Como com isso aumentam também a evaporação e a precipitação, aumentam junto o risco de chuvas torrenciais e inundações.

Não correu muita tinta e a autora conseguia dizer mais uma bobagem:

"O professor (...) afirma que teoricamente as doenças de pele serão mais incidentes. 'Principalmente as relacionadas ao verão, como câncer de pele, assaduras, micoses e foto-envelhecimento' exemplifica. Os raios ultravioleta também podem ser maléficos aos olhos. Segundo o oftalmologista (...) quanto mais a pessoa ficar exposta ao sol, principalmente sem proteção de óculos escuros, maiores as chances de desenvolver problemas oculares, como a catarata."

O aumento da exposição aos raios ultravioleta, que causa todos os males citados acima, com exceção das micoses e assaduras, são uma conseqüência de outro efeito que nada tem a ver com o aquecimento global: o buraco na camada de ozônio.

O buraco na camada de ozônio é uma diminuição da concentração de ozônio da atmosfera causada pela emissão de clorofluorcarbonetos (CFC), presentes principalmente em aerossóis e equipamentos de refrigeração (diferentemente do CO2 que causa o aquecimento global, só o homem produz CFC, então não dá pra dizer que não foi a gente que estragou o planeta ou, como diria o Homer Simpson, que já estava assim quando chegamos...). Como o ozônio é responsável pela absorção da maior parte dos raios ultravioleta do sol, acredita-se que sem esta camada protetora a vida na Terra estaria mais sujeita aos efeitos nocivos da radiação (embora, pela falta de dados históricos, ainda não seja possível afirmar que houve realmente algum aumento na incidência de raios ultravioleta).

E como pièce de résistance:

"A temperatura mais quente propicia ainda o aparecimento nos pés, de frieiras e micoses de unha. (...) Outra consequência, na opinião da especialista, é o distúrbio da sudorese. 'Ora a pessoa vai transpirar muito, ora transpirar pouco. Isso pode levar ao distúrbio da sudorese, que causa o aparecimento de cravos plantares.' "

Ou seja, por causa do aquecimento global as pessoas vão suar mais. Tudo bem, de alguma maneira eu já esperava por isso. Agora culpar o aquecimento global por... frieiras? Aquele negócio que se evita com uma toalha seca e um pouquinho de higiene?

Errado não está, mas eu me pergunto: se alguém estivesse compilando uma lista das coisas ruins causadas pelo aquecimento global, começando por "aumento do nível dos oceanos" bem no topo, seguido de "proliferação de malária e dengue", "inundações" e "extinção de espécies" logo abaixo, será que haveria realmente espaço nessa lista para "aumento da incidência de frieiras"?


Discutir os efeitos do aquecimento global e o papel do homem nele é uma tarefa espinhosa, com argumentos mais políticos do que científicos de ambos os lados (argumentos que eu não estou preparado para endossar ou refutar nesse momento). Compreensivamente os jornalistas que embarcam nessa tarefa quase sempre abraçam por default este irresistível discurso eco-paranóico pré-apocalíptico. Neste sentido a única novidade do artigo da revista "Encontro" foi saber que caminharemos para o Armagedon com os pés cheios de frieira...

7.1.08

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 3

Este é o derradeiro final de "O Guia Cético para Assistir a 'O Segredo'". Talvez antes de continuar você queira conferir as partes 1 e 2.


00:44:15



"Imaginação é tudo. Ela é a prévia daquilo que a vida atrai."

Albert Einstein

Esta frase de Einstein de fato está disseminada pela Internet, então não se pode acusar Rhonda Byrne de tê-la inventado ou retirado do contexto como as outras. Mas assim como a frase de Emerson que abriu o filme, esta também não é encontrada em nenhum dos livros ou discursos do físico. Considerando-se ainda que o estilo é um pouco moderno demais, o mais provável é que esta seja mais uma das inúmeras citações bastardas que fazem parte do folclore relacionado a Einstein.

00:58:55

"É importante reconhecer que nosso corpo é realmente o produto dos nossos sentimentos. (...) Nós conhecemos o efeito placebo: o placebo é alguma coisa que supostamente não tem nenhum efeito em nosso corpo, como uma pílula de açúcar. Você diz ao paciente que ele é uma droga verdadeira e o que acontece é que o placebo tem o mesmo afeito, se não maior às vezes, do que o medicamento que seria indicado. Assim eles descobriram que a mente humana é o maior fator de cura na arte de curar."

Surpreendentemente, neste ponto "O Segredo" quase acerta. Se não fosse pelo que está tentando sugerir nas entrelinhas, John Hagelin teria finalmente acertado a mão.

Realmente o placebo apresenta resultados formidáveis em algumas situações: aparentemente funciona em cerca de 30% dos casos de dor, em 40% dos casos quando o paciente acha que está tomando Viagra e em até 50% quando usado no lugar do Prozac (alguns pesquisadores chegam a dizer que todas as drogas contra a depressão funcionam pelo efeito placebo).

John Hagelin portanto está certo em uma coisa: a disposição mental de um paciente, suas esperanças e crenças, são sim um fator poderoso em qualquer tratamento médico. Se bem que isso nunca foi nenhum Segredo...

Agora vêm os "poréns".

Porém Um
: é muito difícil dizer qual a extensão real do efeito placebo. Existe um monte de doenças que se curam espontaneamente, ou que vão e vêm em ciclos, como alergias, dores musculares, enxaquecas, crises de depressão e outras (existem doenças que o paciente nem sequer tem, são fruto de sua imaginação, como no caso extremo dos hipocondríacos). Outras doenças têm um componente psicológico tão grande que se resolvem só com um pouco de atenção e cuidado genuíno do médico (coisa cada vez mais rara) ou com o ritual mágico de um curandeiro (coisa cada vez mais comum). E na maioria das vezes o que placebo faz é estimular uma mudança saudável de hábitos e um empenho maior no tratamento. A cura nesse caso não vem do placebo mas da confiança que se deposita nele.

Porém Dois: em muitos casos o placebo simplesmente não funciona. Trate um diabético com soro fisiológico em vez de insulina e ele definhará, por maior que seja sua crença no tratamento; dê um anticoncepcional de farinha a uma mulher e ela terá as mesmas chances de engravidar do que outra que não tomou nada.

Porém Três: o efeito do placebo nunca é maior do que o efeito do medicamento de verdade. É justamente assim que se sabe quando uma droga funciona mesmo, comparando-a com o placebo. Se chá de catuaba misturado com pó de chifre de rinoceronte incrementa a ereção de alguém tanto ou menos do que uma pílula azul de açúcar então a beberagem também é um placebo.


01:00:54

"Nós temos milhares de doenças lá fora. Elas são apenas o elo fraco da corrente. Elas são todas o resultado de uma coisa apenas: stress. Quando você coloca tensão na corrente você coloca tensão no sistema e um dos elos se parte. Nossa fisiologia cria doenças para nos dar feedback, para nos fazer saber que estamos desbalanceados, que não estamos amando, que não somos gratos. Por isso os sinais corporais e sintomas [de uma doença] não são algo terrível.

A questão que é freqüentemente perguntada é: quando uma pessoa manifesta uma doença no templo do seu corpo, ela pode ser curada através do pensamento positivo? A resposta é absolutamente sim!"

Realmente existem evidências bastante fortes mostrando relação entre stress e doenças como depressão, síndrome do pânico, asma, herpes, doenças do coração, obesidade, problemas estomacais etc. Mas daí a culpar o stress por todas as disfunções psicológicas, síndromes, infecções, viroses, doenças degenerativas, congênitas etc é um exagero que não têm respaldo da literatura científica.

Pior que dizer que todas as doenças são causadas por stress é afirmar que desenvolvemos doenças por sermos mal agradecidos ou por não estarmos enamorados com o Universo. Ninguém precisa pensar muito para ver que há alguma coisa errada nessa idéia. Afinal bebês recém nascidos, novos demais para serem tanto estressados quanto ingratos, também adoecem. De fato, a maior incidência de câncer em crianças ocorre entre zero e quatro anos de idade.

E para quem insistir nessa idéia eu tenho uma novidade: animais também ficam doentes! Galinhas ficam gripadas, gatos têm diabetes, peixinhos dourados têm cálculo renal, chimpanzés contraem HIV da mesma maneira que a gente, e a taxa de incidência de câncer entre os cães é quase a mesma que entre os humanos. Tudo bem que um animal pode ficar tão ou mais estressado que um homem, mas acho que ninguém acredita que a fisiologia canina cria doenças para que os cães saibam que precisam ser mais gratos por sua ração.

01:02:36

"Nós nascemos com um programa básico, chamado auto-cura. Se você tem um ferimento ele sara; se você pega uma infecção seu sistema imunológico entra em ação, elimina aquela bactéria e se cura. O sistema imunológico é feito para se curar. A doença não pode viver num corpo que está num estado emocional saudável. Seu corpo está criando milhões de células a cada segundo. Na verdade, partes inteiras do seu corpo são trocadas literalmente a cada dia. Outras partes levam alguns meses, ou anos para serem trocadas, mas dentro de alguns poucos anos nós temos um corpo inteiramente novo!"

Não, nosso corpo não foi feito para se curar e não, você não tem um corpo novo a cada temporada.

Mesmo que uma vida emocionalmente regrada operasse milagres isso não poderia curar nem doenças degenerativas do cérebro, como o mal de Alzheimer, nem distrofias musculares, uma vez que, diferentemente das células de outros tecidos, as células do sistema nervoso e as dos músculos nunca se renovam (é verdade que estudos mais novos têm mostrado que a neurogênese é sim possível em certas regiões específicas do cérebro, ao contrário do que se acreditava, mas isso não quer dizer que estas células têm um ciclo de renovação como o filme afirma).

Quanto à alegação de que pessoas emocionalmente saudáveis não ficam doentes, existem tantas maneiras de testá-la que é até difícil escolher uma. Nós poderíamos por exemplo fazer com que a Pessoa Mais Feliz do Mundo ingerisse uma cápsula com o vírus Ebola tratando-a unicamente com musicais da Disney, tipo o "High School Musical". Como normalmente menos de 10% das pessoas infectadas pelo Ebola sobrevive, será relativamente fácil verificar se a felicidade pode realmente expulsar o vírus.

01:03:49

"Pensamentos alegres levam a uma bioquímica alegre, um corpo mais feliz, mais saudável. Pensamentos negativos, stress, degradam seriamente o corpo e o funcionamento do cérebro."

O que é uma bioquímica alegre? Só uma figura de linguagem infeliz, do tipo que abunda na Superinteressante, ou realmente enzimas saltitantes cantarolando "Age of Aquarius" enquanto processam carboidratos no ciclo de Krebs? Exagero meu talvez, mas não se esqueça que John Hagelin estava naquele outro filme, que mostrou ao mundo células dançando polka numa festa de casamento...

Até onde se sabe pensamentos alegres não disparam alterações bioquímicas no corpo, em vez disso eles estimulam o cérebro a produzir certas substâncias associadas ao prazer como dopamina e endorfinas, que têm o feliz efeito de provocar alívio de dores e atenuação dos sintomas de algumas doenças.

É claro que pensamentos negativos não são bons para ninguém, mas sozinhos não podem ser culpados por provocar doenças. Se fosse assim os hipocondríacos -- pessoas que pensam o tempo todo que estão doentes e não acreditam quando o médico lhes diz o contrário -- manifestariam doenças reais e não imaginárias, como é quase sempre o caso.

01:04:09

"Remova o stress fisiológico do corpo e o corpo faz o que ele foi projetado para fazer: ele se cura."

A não ser que você acredite que o homem foi feito de barro no sexto dia de uma semana bem movimentada, esqueça essa idéia de que nosso corpo vem com um mecanismo de cura universal projetado por um designer cósmico.

Repetindo: nosso corpo não foi feito para se curar. O único motivo das pessoas hoje não morrerem aos milhões com um simples resfriado é porque... as pessoas já morreram aos milhões no passado com um simples resfriado! É assim que funciona a evolução pela seleção natural: aqueles que sobrevivem a uma praga por serem naturalmente resistentes a ela têm uma boa chance de passar esta imunidade aos seus descendentes. Esta é a sobrevivência do mais apto, de que falava Darwin.

Por exemplo, os índios da América não morreram como moscas quando os europeus invadiram suas praias por causa de uma crise de depressão coletiva (que seria até justificável se eles soubessem que seriam convertidos ao catolicismo à ferro e a fogo e depois de alguns séculos estariam vendendo miçangas nas estradas....). Morreram porque foram expostos a novos tipos de vírus -- principalmente Influenza (o vírus da gripe) e varíola -- para os quais não tinham ainda imunidade (sobre isso recomendo o excelente livro "Armas, Germes e Aço" de Jared Diamond). O mesmo aconteceu mais tarde com a gripe espanhola, que matou 5% da população do planeta no início do século. Se um designer planejava nos projetar resistentes a todas estas doenças desde a versão 1.0 ele fez um péssimo trabalho de engenharia...

01:11:01

"Uma das questões que eu recebo quase todo o tempo e que provavelmente está na sua cabeça agora é 'bem, se todo mundo usa o segredo e todos tratam o universo como um catálogo nós não vamos acabar com tudo? se todo mundo for ao caixa ao mesmo tempo isso não vai quebrar o banco?'

"A beleza do ensinamento de o segredo é que há mais do que o bastante para todo o mundo. Existe esta mentira, que age como um vírus na mente da humanidade, e esta mentira é que 'não há o bastante para todo mundo'; que há falta, que há limitação, que não há suficiente. Esta mentira faz com que as pessoas vivam com medo, ganância, avareza e estes pensamentos se tornam sua experiência. Assim o mundo tomou essa pílula do pesadelo [aqui o filme mostra um contigente militar indo à guerra]. Mas a verdade é que há o bastante para todo mundo; há mais do que o bastante de idéias criativas, há mais do que o bastante de amor, há mais do que o bastante de alegria."

Idéias criativas e amor, uma ova! Citando os Beatles, as melhores coisas da vida são de graça, mas você pode deixar isso para os pássaros e abelhas; agora me dá meu dinheiro que é isso é o que quero!

É um (triste) fato, não uma mentira ou um vírus: não há recursos naturais suficientes no planeta para sustentar indefinidamente as atuais taxas de crescimento econômico, tomando como base o padrão de consumo americano. Na verdade, os economistas estimam que se toda a população do mundo de repente começasse a consumir e gerar lixo nas mesmas quantidades que os EUA, seria necessário que nosso planeta fosse seis vezes maior.

01:12:19

"Todo grande mestre que já andou por este planeta nos ensinou que a vida deveria ser abundante. E assim, toda vez que nós pensamos que os recursos estão acabando, nós achamos novos recursos para fazer a mesma coisa."

Pode ser, pode não ser. Mas provavelmente no tempo dos grandes mestres nem todo mundo sonhava em ter banheiras de hidro-massagem em casa ou Hummers na garagem.

01:14:21

"Pense nisso por um instante: pegue sua mão e olhe para ela. Sua mão parece sólida mas não é. Se você a colocar num microscópio apropriado verá uma massa de energia vibratória".

É difícil entender aonde o sujeito que disse que não sabia o que era a eletricidade quer chegar, mas mesmo que você metesse a sua mão debaixo de um Microscópio Eletrônico de Tunelamento (o que a rigor não seria possível de qualquer maneira, mas aqui eu estou sendo apenas chato), você poderia no máximo resolver os átomos que compõe a superfície da sua mão, nunca veria alguma coisa parecida com uma "massa de energia vibratória".

Só para constar: energia não é uma entidade que pode ser observada, no sentido em que se observa uma pedra caindo ou um átomo. Mal comparando é como observar o vento, você não o vê diretamente, apenas vê o seu efeito nas coisas.

01:14:33

"Tudo é feito exatamente da mesma coisa, seja sua mão, seja o oceano ou uma estrela. Tudo é energia. E deixa eu te ajudar a entender isso: existe o Universo é claro, e nossa galáxia e nosso planeta, e então tem as pessoas e dentro delas, o orgãos, e as células e então vêm as moléculas, e os átomos e dentro deles há energia. Logo, há um monte de níveis sobre os quais falar, mas no final tudo no universo é energia."

"Não importa em qual cidade você vive, você tem energia em seu corpo, energia potencial, para iluminar uma cidade inteira por aproximadamente uma semana"

Vamos começar pelo final, que parece alguma coisa que o Morpheus disse em Matrix enquanto segurava uma pilha Duracell. O Brasil consome aproximadamente 2.000 kWh por pessoa anualmente (este número é seis vezes maior nos EUA). Fazendo as contas para quanto uma cidade de 1 milhão de habitantes consumiria em uma semana, dá mais ou menos 40 milhões de kWh. Deixa eu ver... nop, não há como extrair essa energia elétrica de um único corpo humano (a não ser é claro que você se lance dentro de um reator de fissão nuclear, mas eu acho que pouca gente está disposta a fazer isso).

A NASA, que por motivos óbvios tem o maior interesse em conseguir aproveitar a energia corporal nas viagens espaciais, calcula que uma pessoa dormindo pode gerar até 81 W de energia aproveitável, uma pessoa andando 163 e um maratonista 1048, o que daria no geral, calculam, uns 11 kWh por dia. Isso dá menos de 80 kWh em uma semana (na prática esse número seria muito menor pois é impossível com os meios atuais transformar a energia corporal em eletricidade com 100% de eficiência; por exemplo, os materiais termoelétricos existentes hoje só conseguem converter 3% do calor do corpo), muito abaixo dos 40 milhões necessários para manter uma cidade.

O outro erro é dizer que a energia está dentro dos átomos. Como Einstein mostrou com sua famosa expressão E=mc^2, matéria é energia. O que isto quer dizer é que a massa pode ser considerada como uma forma de energia (mas não o contrário); isto não quer dizer que se você observar a matéria em um microscópio muito poderoso chegará ao ponto em que verá a energia.

[Atualização] Realmente a Teoria das Cordas ("String Theory") ou como é mais comumente chamada hoje em dia, Teoria do Tudo ("Theory of Everything" ou "TOE"), defende a idéia de que a matéria é constituída não de partículas, mas de absurdamente minúsculos campos de energia vibratórios (as tais "cordas"). Infelizmente esta teoria, apesar de sedutora por unificar a teoria da relatividade e a teoria quântica, ainda não foi comprovada experimentalmente (alguns duvidam que possa ser um dia) nem fez nenhuma predição que pudesse ser observada, por isso continua à margem da física.

1:17:38



"Todo o poder vem de dentro e portanto está sob seu controle."

Robert Collier

Depois de Einstein, Buda e Graham Bell você poderia se achar na obrigação de conhecer esse tal de Robert Collier. Fique tranquilo: Collier é somente mais um autor de livros de auto-ajuda bem conhecido pelos íntimos do Novo Pensamento. Citá-lo tem mais ou menos o mesmo valor que citar a própria autora de "O Segredo".

01:20



Novo festival de caretas do Fred. Parece que alguém está precisando se alinhar ao Universo ou não vai ganhar filme novo esse ano...

01:24:08

"Lembre-se que nós usamos somente 5% do potencial da mente humana. Cem por cento podem ser alcançados com treinamento adequado. Agora imagine um mundo em todas as pessoas usam totalmente seu potencial mental e emocional. Nós poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa, conseguir qualquer coisa."

Já chegando ao final do filme John Hagelin lança mão do batido mito de que o homem só usa 5 ou 10% do cérebro (eu estava esperando que isso viesse mais cedo, afinal este é o maior suporte para as teorias mirabolantes sobre poder da mente).

O maior problema deste tipo de mito é que para dizer que alguém usa apenas 5 ou 10% do potencial da mente humana é preciso estabelecer quanto é 100% e ninguém imaginou ainda uma maneira de fazer isso. Por exemplo, como você vai virar para o Pelé e dizer que ele só usava 5% do potencial da mente dele para jogar futebol? Ou dizer pro Beethoven que ele só estava usando 10, ou 20, ou x porcento do potencial da mente dele quando compôs a Nona Sinfonia?

Em outras palavras, qualquer medida do potencial da mente humana será sempre arbitrária. John Hagelin por exemplo arbitrou vagamente que com 100% nós "poderíamos ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa". Se isso incluir a capacidade de se teletransportar para outro planeta então acho que estamos ainda muito aquém dos 5%...

O Alexandre Taschetto escreveu um ótimo artigo sobre este mito no Projeto Ockham.

1:27:41



"Sinta-se bem."




Agora que o filme acabou eu me sinto bem melhor, obrigado.


Conclusão
Guaribas no Piauí, escolhida como marco zero do programa Fome Zero, é um dos vilarejos mais miseráveis do mundo. Lá não tem água, energia elétrica, telefone público, um posto de saúde sequer, farmácia, e o esgoto corre a céu aberto.

Em Guaribas as crianças não sonham com bicicletas, sonham com água. Se as crianças de Guaribas assistissem DVDs ou conseguissem ler livros de auto-ajuda, poderiam aprender com "O Segredo" que tudo o que precisam fazer para conseguir água -- em vez de andar 14 km, ida e volta, todos os dias, às vezes duas vezes por dia, até um açude lamacento -- é contemplar diuturnamente a foto de um balde d'água. Um dia, quem sabe, o Universo providenciará para que o próprio presidente da república apareça às suas portas saltando de um reluzente caminhão-pipa.

Mas como as crianças de Guariba não sabem usar o Segredo nem têm o que comer e o que bebem é uma água barrenta infectada pelo lixo, a taxa de mortalidade infantil por lá só é comparável às das regiões mais pobres da África. A maior parte das mulheres de Guaribas já perdeu pelo menos um filho. Rhonda Byrne poderia dizer a estas mães que seus filhos ficaram doentes porque eles, ou elas, não estavam suficientemente gratos pelo que o universo lhes oferece.

Extrapole este exemplo para qualquer rincão miserável do planeta e você verá qual o verdadeiro segredo de "O Segredo": que ele não passa de uma filosofia cruel que joga sobre os desafortunados, os doentes e miseráveis toda a responsabilidade por suas mazelas, enquanto libera os felizes, saudáveis e abastados da sua responsabilidade para com os primeiros.

E difícil entender porque uma filosofia tão egoísta veiculada em um filme tão ruim faz tanto sucesso, mesmo levando em conta sua massiva estratégia de marketing (que por aqui quer fazer da Ana Maria Braga a Oprah tupiniquim, com o livrinho "O Segredo por Ana Maria Braga"). Pois se em "Quem Somos Nós" a enganação e a pseudociência ficavam muito bem escondidas do leigo pela edição alucinada, os problemas de "O Segredo" afloram à superfície de uma maneira que qualquer um minimamente escolarizado pode ver (tanto que eu sei que este Guia Cético nunca terá a mesma importância do outro, sobre "What a Bleep Do We Know").

É claro que todo mundo (inclusive eu) quer saber como ganhar dinheiro sem trabalhar, emagrecer sem fazer dieta, conseguir um corpo bonito sem malhar, ficar inteligente sem estudar e ter cabelo sem fazer transplante capilar (tá, essa só eu e mais alguns). Mas só os fãs de "O Segredo" estão dispostos a não abandonar sua credulidade por coisas bobas como lógica e bom senso.



The End.

29.12.07

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 2

Antes de você começar a ler esta continuação do Guia Cético para Assistir a "O Segredo" deixa eu dizer que este foi um dos artigos mais difíceis que já escrevi para o Dragão da Garagem.

Não que algum argumento de "O Segredo" tenha sido particularmente desafiador. Foi justamente o contrário. Comparado a "What a Bleep Do We Know", que fazia um bom trabalho tentando se disfarçar de documentário científico, "O Segredo" trata a ciência de forma tão infantil que na maior parte das vezes eu me via sem saber nem como começar a rebater as alegações do filme. Era como ter que explicar que não é um anão dentro da máquina de coca-cola que conta o dinheiro e coloca as latinhas na fenda.

Além disso, enquanto "Quem Somos Nós" possuía um certo charme de filme trash que ajudava a tornar, digamos, curiosa, a experiência de assistí-lo (o hilário sotaque lemuriano de Ramtha, os efeitos especiais de propaganda de shampoo, as células com olhinhos e boquinhas sendo dizimadas por um bombardeio de peptídeos etc.),"O Segredo" é exatamente tão interessante quanto pode ser uma convenção da AmWay ou da Herbalife (o que deve te dar uma boa idéia de quão insuportável foi assistí-lo até o fim).

Bem, mas a missão está cumprida. No final das contas acabei extrapolando um pouco e comentando não só as enganações científicas mas também os problemas éticos que "O Segredo" levanta. Com isso esta continuação acabou ficando muito maior do que eu gostaria. Como pensando bem não existem muitas "dulogias" famosas por aí, achei uma boa idéia quebrar o post em duas partes mais. A boa notícia é que a terceira parte já está praticamente pronta e sai logo em seguida.

Vamos então a segunda parte do Guia Cético para Assitir a "O Segredo".


00:03:32



"O Segredo é a resposta para tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será."

Ralph Waldo Emerson

Ralph Waldo Emerson, poeta e ensaísta americano famoso no século XIX pelos seus discursos abolicionistas, está para a literatura de seu país mais ou menos como Castro Alves está para a nossa. Quem vê uma figura literária do seu porte citando o Segredo assim, tão explicitamente, é até capaz de acreditar no causo do segredo ancestral desenterrado por Templários que foi transmitido só a alguns iniciados até ser acobertado por uma conspiração malvada.

O problema é que tudo indica que Emerson nunca disse as palavras acima. Se você fizer uma busca na internet verá que todo mundo que atribui a frase à Emerson cita "O Segredo" como fonte.

Por exemplo, Julia Rickert, jornalista do jornal on-line Chicago Reader, foi uma das que procurou a fonte original da frase de Emerson. Depois que nem mesmo os especialistas na obra de Emerson conseguiram ajudá-la, Julia decidiu contactar a editora de "O Segredo" e perguntar de onde Rhonda Byrne havia tirado a citação. Tudo o que conseguiu, além de uma mensagem padrão isentando a editora da responsabilidade pelo conteúdo do livro, foi a promessa de que a questão seria endereçada à autora.

Ou Rhonda Byrne descobriu alguma obra inédita de Emerson enterrada sob uma pirâmide durante todo o último século, ou ela simplesmente inventou a frase.

00:03:38

"Você provavelmente está sentado aí pensando "O que é o Segredo"? Eu vou lhe dizer como eu vim a entendê-lo. Todos nós estamos submetidos a uma força infinita. Todos nos guiamos exatamente pelas mesmas leis. As leis do universo são tão precisas que nós não temos nenhuma dificuldade para construir naves espaciais que levam pessoas à Lua. E nós podemos dizer a hora do pouso na Lua com a precisão de uma fração de segundo. Não importa se você está na Índia, Austrália (...) [uma lista enorme de países], todos nós estamos submetidos a uma única força, uma única lei: A Atração. O Segredo é a Lei da Atração."

Aqui o sr. Bob Proctor afirma que a lei da atração é uma lei da natureza, tão precisa e prevísivel quanto a lei da gravidade. Aparentemente o gancho para essa alegação extraordinária é simplesmente o fato de que ambas têm o nome de "lei".

Uma lei da natureza é uma representação simples, geralmente matemática, de um comportamento da natureza. Por exemplo, a lei da gravidade diz que os corpos se atraem com uma força proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Essa é uma lei da natureza porque os físicos acreditam que ela é universal e imutável (e obviamente independente da existência humana). É assim que devem ser as leis da natureza.

Mas nem tudo o que tem o nome de "lei" é uma lei da natureza. Por exemplo, nas outras áreas de conhecimento você pode chamar de lei qualquer regra empírica que pareça se aplicar com uma certa (e maleável) regularidade. Assim temos, por exemplo, a lei de Moore segundo a qual "a cada dois anos a capacidade de processamento dos microprocessadores dobra", e a lei da oferta e da procura que diz mais ou menos que "quanto menor a oferta e maior a demanda de um produto mais caro é o preço cobrado por ele". Mas é claro que estas não são leis no sentido estrito que a ciência lhes dá, afinal ninguém espera que elas sejam universais nem atemporais, e isso vale também para a lei da atração.

Tudo bem, você está disposto a reconhecer que a lei da atração não é uma lei da natureza só porque tem a palavra "lei" no nome. Mas e daí? será que a lei da atração realmente não é previsível o suficiente para ser comparada a uma lei da natureza (o que afinal de contas é o quer provar o filme)? Bem, se tudo o que eu disse sobre os furos da lei da atração na primeira parte deste Guia não foram suficientes para responder esta pergunta, talvez a gente possa tentar uma outra abordagem. Para isso vamos pensar numa outra lei muito parecida com a lei da atração: a lei de Murphy.

A lei de Murphy diz que "tudo o que pode dar errado vai dar errado no pior momento e de maneira que cause o maior dano possível" e cá entre nós, ela "funciona" muito melhor do que a lei da atração (ou vai dizer que seu computador nunca deu pau quando você mais precisava dele? ou que justamente nos dias em que você esquece o guarda-chuva caem as maiores tempestades!?). E se a lei de Murphy não atrai coisas, como a lei da gravidade, pelo menos se encarrega de fazer como que as torradas sempre caiam com a manteiga para baixo... (aplicação de um corolário da lei de Murphy conhecido por "gravitação seletiva" que faz com que as coisas caiam de forma a causar sempre o maior estrago possível).

Tanto a lei de Murphy quanto a lei da atração nos dão a sensação de que "funcionam" porque temos a tendência de colher seletivamente os exemplos da sua eficácia (o tal "wishfull thinking"). Enquanto na lei da atração geralmente pinçamos as casualidades fortuitas e os desejos realizados para nos convencer que ela dá certo, na lei de Murphy é quando as coisas dão errado apesar de todos os nossos esforços, que a lei se confirma uma vez mais (aí só resta usá-la como desculpa: "sabe como é chefe... é a lei de Murphy...").

Oposta na finalidade mas igual no mecanismo, a lei da Murphy é apenas uma gozação global com a mania humana de enxergar padrões onde eles não existem. Por outro lado sua nêmesis, a lei da atração, aspira ser equiparada a uma lei da natureza...

00:06:11 [atualizado]

"O que a maioria das pessoas não percebe é que um pensamento tem uma freqüência. Nós podemos medir um pensamento. É como se você estivesse pensando uma mesma coisa repetidamente, ou como se você estivesse imaginando ter um carro novo em folha, conseguir o dinheiro que precisa, encontrar sua alma gêmea. Quando você faz isso está emitindo aquela freqüência. Pensamentos estão enviando aquele sinal magnético para fora da sua mente e este sinal está atraindo o sinal correspondente de volta para você. Veja a si mesmo em abundância e você vai atrair isso para você. Funciona sempre e funciona com qualquer pessoa."

Aqui "O Segredo" nos dá duas opções, ambas incorretas é claro: ou o filme fala em sinal magnético querendo dizer na verdade sinal eletromagnético (como uma onda de rádio, por exemplo, opção reforçada pela associação com a palavra "freqüência"), ou se refere mesmo a um campo magnético, o que é meio difícil de entender já que os campos magnéticos atraem o seu oposto, como fazem os imãs, não o seu semelhante -- como teoricamente faria a lei da atração. Como tudo é possível tratando-se desse filme, vamos analisar as duas opções.

Primeiramente é preciso esclarecer a diferença entre uma onda eletromagnética e um campo magnético. Um campo magnético é um campo de forças distribuído no espaço que faz, por exemplo, com que os pólos opostos de um imã se atraiam. Agora, quando um campo magnético e um campo elétrico oscilantes se propagam juntos no espaço (perpendicularmente um ao outro) dão origem a uma onda eletromagnética, como as ondas de rádio e a luz visível por exemplo. Fisicamente falando, uma onda eletromagnética não atrai coisa alguma só porque tem "magnética" no nome; em vez disso ela carrega energia, como no caso da luz solar.

Um pensamento é uma reação química que produz eletricidade, e como toda corrente elétrica, produz um campo magnético na sua vizinhança (por isso mandam a gente desligar os aparelhos eletrônicos no avião). Só que o campo magnético produzido pelo cérebro é tão pequeno que só pode ser medido por um dispositivo extremamente sensível numa sala completamente blindada contra interferências magnéticas. Para ser mais exato o campo magnético produzido pelo cérebro é 10 bilhões de vezes menor que o campo magnético da Terra e como sua intensidade é inversamente proporcional ao quadrado da distância da fonte, ele decai rapidamente à medida que se afasta do cérebro, tornando desprezível o que já era ínfimo. Por isso não há sentido prático em dizer que um pensamento envia "um sinal magnético para fora da sua mente".

00:12:19




"Eu quero dizer, eu não estou falando somente do ponto de vista de a-cre-di-tar-só-por-que-rer,
ou i-ma-gi-na-ção... lou-cu-ra... [Fred soletra estas palavras com muitas caras e bocas] Eu estou falando do ponto de vista de um conhecimento mais profundo. A física quântica realmente começa a apontar para esta descoberta: ela diz que você não pode ter o universo sem a mente fazendo parte dele. A mente está na verdade moldando as coisas que percebemos."

Aqui Fred Allan Wolf aparece fazendo seu papel de ligar o Segredo à Física Quântica.

O trecho poderia ser apenas uma sobra ruim das gravações de "What a Bleep Do We Know" (já devidamente refutado no nosso outro Guia Cético) se não fosse por um detalhe engraçado. Em "What a Bleep" Fred se projetava como um velhinho gente boa, sempre sorridente, o tipo de sujeito que a gente adoraria que ensinasse física para os nossos filhos. Mas em "O Segredo" ele parece ter decidido adotar a tática de que o ataque é a melhor defesa. Neste trecho por exemplo, ele se antecipa aos seus críticos e soletra com deboche e muitas caretas as palavras "wishfull thinking", "imaginary" e "craziness".

Ou seja, "No more Mr. Nice Physicist"...

00:12:55

"Veja, se você não entende uma coisa não significa que você deve rejeitar essa coisa. Você não entende direito a eletricidade. Antes de mais nada, ninguém nem sequer sabe o que é a eletricidade. Assim mesmo você se beneficia dela. Você sabe como ela funciona? Eu não sei! Mas eu sei o seguinte: você pode fritar a comida de uma pessoa com eletricidade e você também pode fritar a própria pessoa com ela."

Ai, ai... Não engula essa conversa fiada. Nós conhecemos a eletricidade muito bem, o suficiente para construir fogões e cadeiras elétricas e também células solares, geradores, microprocessadores, supercondutores, motores elétricos, televisões, rádios, telefones, iPhones, aparelhos de raios-x... preciso continuar?

00:13:28

"Duas coisas das quais você precisa estar ciente. Primeira: está provado cientificamente que um pensamento afirmativo é centenas de vezes mais poderoso que um pensamento negativo."

Este homem é um visionário. Não, sério, esta é a credencial dele; está escrito "Visionário" ali, logo abaixo do seu nome.

Mas o Visionário é na verdade um Embromador. Juntou a palavra "cientificamente" com termos calculadamente imprecisos (o que é um pensamento "poderoso", afinal?) e não disse absolutamente nada. O pobre espectador não entende nada porque não tem nada mesmo para entender, mas sai com as palavrinhas "provado cientificamente" na cabeça...

00:13:41

"Você vive numa realidade em que há um buffer de tempo. E isso funciona a seu favor. Você não quer viver em um mundo em que seus pensamentos se manifestam imediatamente."

Esse discurso acompanha a cena em que um sujeito vê a figura de um elefante em um cartão postal, pensa na coisa por alguns segundos (provavelmente desejando ter o bicho para si) e o animal se materializa bem na sua frente. Seria engraçado se eles não estivessem falando sério...

A rídicula cena responde a uma pergunta que o filme faz aqui pela primeira vez: se a lei da atração é uma lei da natureza e como tal funciona sempre e para qualquer um, por que os pedidos não se materializam imediatamente depois que pensamos neles?

Para isso, "O Segredo", oferece duas explicações (diferentes) e a primeira delas é esta aqui: o universo possui um "buffer de tempo" que atrasa a entrega do pedido até que seja mais conveniente recebê-lo. Afinal, imagine que desagradável seria pensar em um elefante e o paquiderme se materializar na mesma hora na sua sala de estar? (eu posso pensar em umas duas dúzias de exemplos mais embaraçosos do que esse, a maioria envolvendo alguma situação sexual...).

É ou não é a coisa mais estúpida que você já viu num comercial desde aquela propaganda do sofá inflável Air-O-Space?

Só para início de conversa não é assim que um buffer funciona. Um buffer é um reservatório que tem a finalidade de acelerar o acesso ou manter constante o fluxo de alguma coisa; uma caixa d'água por exemplo, ou o mecanismo anti-choque dos CDs de carro (eles mantém armazenados alguns segundos adiante da música para que não haja pausas no caso de um chacoalhar mais violento). Tudo bem, eu sei que isso é apenas picuinha. O problema real é que é bastante óbvio que esta é apenas uma rídicula explicação ad hoc (um "remendo") para explicar porque a lei da atração não se comporta como uma lei da natureza mesmo que insistam que ela é uma. Tanto que ao final do filme eles oferecerão uma outra explicação completamente diferente para o motivo da lei da atração demorar ou mesmo nunca funcionar.

00:14:53

"Nós vivemos em um Universo onde há leis, assim como a Lei da Gravidade. Se você cair de um edíficio não importa se você é bom ou mau, você vai atingir o solo. Tudo o que cerca você em sua vida, incluindo as coisas das quais você reclama, você atraiu. (...)"

Aqui "O Segredo" tenta nos convencer que a lei da atração, como uma boa lei da natureza, é tão "impessoal" quanto a lei da gravidade. Ou seja, para conseguir realizar seus desejos você não precisa ser bom, habilidoso, estudioso, competente, esforçado... Para o universo você é apenas um corpo de massa m; ele não quer saber se você é um corpo de massa m bonzinho e esforçado.

E onde você leu "Trabalhe" no trinômio "Peça, Acredite e Receba" mesmo?...

00:17:33

"O que eu estou atraindo agora mesmo? Como eu me sinto? Me sinto bem? Então continue fazendo o que você está fazendo!

"Nossos sentimentos são o feedback para saber se estamos alinhados ou não, se você está no curso certo ou não. Quanto melhor você se sentir mais alinhado está [com o universo]. Quanto pior você se sentir, mais desalinhado está."

Isso é tudo o que queriam ouvir vizinhos espaçosos, fumantes abusados, pessoas que sentem prazer em dirigir perigosamente, viciados em drogas, pedófilos, terroristas ansiosos pelas virgens de seios fartos do paraíso islâmico, serial killers que simplesmente curtem matar e basicamente qualquer outro tipo de ser humano que sinta prazer às custas da infelicidade alheia e não cultive nenhum remorso por isso. Continuem o bom trabalho pessoal.

00:20:13



"Você cria seu universo à medida que percorre seu caminho."

Winston Churchill

Essa a Rhonda Byrne não inventou; Churchill realmente escreveu isto em sua auto-biografia "Minha Mocidade". Mas vejamos o que dizia o parágrafo completo de onde o trecho foi extraído:

"Alguns de meus primos, que têm a grande vantagem de serem educados em universidades, costumam me provocar com argumentos para provar que nada existe de verdade, a não ser as coisas que pensamos. Toda a criação não passa de um sonho; você cria seu universo à medida que percorre seu caminho. Quanto mais forte sua imaginação mais diverso é seu universo. Quando você pára de sonhar o universo deixa de existir. Estas divertidas acrobacias mentais são boas para se brincar. São inofensivas e sem utilidade nenhuma. Eu aviso aos meus jovens leitores para só tomá-las como uma brincadeira. Os metafísicos sempre terão a última palavra e desafiarão vocês a demonstrar o absurdo de suas proposições."

Ou seja, Churchill estava dizendo justamente o oposto do que prega "O Segredo"! Não é irônico? Agora, graças a "O Segredo", milhões de esotéricos enaltecem a Lei da Atração citando Churchill, sem saber que na verdade ele ridicularizava este tipo de pensamento metafísico.

00:25:18

"Se você fizer uma pequenina pesquisa verá que todos aqueles que já conquistaram algum feito não sabiam como o fariam, apenas sabiam que conseguiriam."

Claro. Esqueça todo o estudo e planejamento minucioso. Quando Amir Klink se prepara para mais uma travessia pelo Atlântico ou outra circunavegação ao redor da Antártica ele apenas joga aleatoriamente alguns mantimentos e cartas geográficas pelo primeiro barco que vê e parte. Do resto cuida a Lei da Atração...

Neste ponto tem início a história do menininho que ganha uma bicicleta do pai aplicando a Lei da Atração. O garoto recorta uma foto da bicicleta dos seus sonhos e olha para ela todos os dias. Leva a foto para a beira do lago, para a escola, para debaixo da colcha e olha, olha e olha. O menino não pensa num plano para juntar dinheiro e comprar a bicicleta; talvez trabalhar meio expediente engraxando sapatos ou cortar a grama do vizinho ou fazer uma rifa... ele só... olha. Até que um dia o Universo surge paternal à sua porta com seu objeto do desejo em mãos.

A moral da história é clara, mesmo porque vem sendo martelada desde o início do filme: você não precisa se esforçar para conseguir o que quer. Basta contemplar obssessivamente o objeto do seu desejo e o universo o providenciará para você.

Apenas por curiosidade Esther Hicks, que aqui faz sua principal participação no filme (participação removida da segunda edição devido à desentendimentos a respeito do marketing de "O Segredo") é uma médium. Ela diz que seus livros são psicografados por um "espírito coletivo" (não, não me pergunte...) denominado Abraham. Cada filme tem o Ramtha que merece...

00:30:05

"Tamanho não importa para o Universo. Não é mais difícil atrair, cientificamente falando, algo que consideremos grande do que algo que consideremos infinitesimalmente pequeno."

"Cientificamente falando" importa sim. Quanto maior a coisa (na verdade é uma questão de massa não de volume) maior a força necessária para movê-la, atraindo ou não. É assim que funciona a segunda lei de Newton, essa sim uma lei da natureza. Agora se estamos falando da lei da Atração e não da lei de Newton, então... tudo bem... só que não estamos mais falando cientificamente.

00:30:16

"O Universo faz tudo o que faz com esforço zero. A grama não se esforça para crescer, ela cresce sem fazer força. Este é o grande design."

Isso é o mesmo que dizer que uma criança cresce com "esforço zero" e se você já teve que colocar comida na mesa de um adolescente em fase de crescimento sabe que não é verdade.

Mas calma lá! crescer é um processo que ocorre naturalmente não é? assim como a grama cresce de forma vagarosa mas certa (dadas as condições certas de solo, água e luz) nenhum adolescente precisa se dedicar ao ato de fazer crescer seu esqueleto, não é?

O problema é que ao usar a palavra "esforço" no sentido de "empenho", ou "dedicação", "O Segredo" está antropomorfizando o universo (atribuindo a ele características humanas). É o filme repetindo o velho truque de misturar os significados das palavras e embaralhar metáfora com sentido literal, como já fez com "lei", "atração", "frequência" e fará daqui a pouco com "energia".

No final, esta foi mais uma tentativa de convencer o espectador de que ele pode obter qualquer coisa sem nenhum esforço. Note também que pela primeira vez surge no filme a menção a um design, o que implica na existência de um designer, um projetista, do universo. Isto se repetirá algumas vezes mais.

00:37:30

"O que é interessante sobre a mente é que você pega um atleta olímpico e o prende a um equipamento sofisticado que mede sua resposta biológica. E ao fazer com que imaginem estar disputando uma prova, incrivelmente os mesmos músculos são acionados, na mesma seqüência que se estivessem competindo pra valer. Por quê isso é assim? Porque a mente não consegue distinguir quando você está realmente fazendo algo ou quando é só imaginação."

Nós já passamos por isso antes, este é exatamente o mesmo argumento usado em "What a Bleep Do We Know". Na parte 3 daquele Guia Cético eu mostrei que existe uma enorme diferença quantitativa nas áreas do cérebro que são acionadas quando imaginamos alguma coisa e quando estamos realmente diante desta coisa (o que faz com que filmes gnósticos como "O Vingador do Futuro", "Vanilla Sky" e "13o andar" permaneçam no campo da ficção científica).

00:38:00



"Que força é essa eu não sei. O que sei é que ela existe".

Alexander Graham Bell

Mais uma vez "O Segredo" manipula a verdade. Leia de novo, agora com a frase inserida no contexto original:

"Eu havia colocado na cabeça que ia encontrar o que estava procurando, nem que isso custasse o restante da minha vida. Depois de inúmeras falhas, eu finalmente encontrei o princípio que estava procurando e fiquei surpreso por sua simplicidade. Outra coisa que descobri com minha busca é que que quando um homem se dispõe a produzir um resultado definitivo e finca o pé nesta disposição isso parece lhe conferir uma segunda visão, que o habilita a ver através dos problemas comuns. Que força é essa eu não sei. O que sei é que ela existe e fica disponível quando um homem está naquele estado mental no qual ele sabe exatamente o que quer e está totalmente determinado a não desistir enquanto não o alcançar."

É possível ver que Graham Bell não estava exaltando nenhuma força sobrenatural, mas exaltando a perseverança, a obstinação e o trabalho duro, aliás completamente o oposto do que "O Segredo" vem pregando.

Uau! Rhonda Byrne conseguiria usar uma frase de Ghandi fora de contexto para defender a supremacia branca num documentário neo-nazista. Ela é boa assim.

00:41:15
"A única diferença entre as pessoas que realmente estão vivendo dessa maneira [em abundância] e as pessoas que não estão vivendo a magia da vida é que as pessoas que estã vivendo a magia da vida se habituaram a pensar dessa maneira [aplicando a lei da atração]. Elas se habituaram ao processo e a magia acontece onde quer que elas vão."

Aqui "O Segredo" separa os vencedores dos losers entre aqueles que aplicam a lei da atração e os que não a aplicam.

Este pensamento não é apenas maniqueísta. Ele é cruel. Como disse o blog Skpetic, você olharia nos olhos de cada um dos seis milhões de judeus momentos antes de serem exterminados e lhes diria que eles atraíram para si mesmos a humilhação, o sofrimento e finalmente a câmara de gás? Você explicaria para os familiares das vítimas dos recentes acidentes áereos no Brasil que não foram os erros humanos, a incompetência e a ganância criminosas, mas sim os pensamentos (de todos eles, de alguns ou de apenas um dos passageiros?) que os vitimou? Porque eu duvido que mesmo o fã mais ardoroso de "O Segredo", aquele que mal pôde esperar o filme terminar para começar a contemplar mentalmente seu carro novo e sua TV gigante de tela plana, possa sustentar que uma criança desnutrida não vive a "magia da vida" só porque é incapaz de contemplar mentalmente sua comida.



Por enquanto é só pessoal. Na terceira e última parte deste Guia veremos os trechos em que "O Segredo" fala sobre como aplicar a Lei da Atração à saúde, ao meu ver os mais manipulativos e nocivos de todo o filme.


Terceira Parte >>

25.11.07

O Guia Cético para assistir a "O Segredo" - Parte 1

É tarde da noite, você não tem o que fazer a não ser zapear preguiçosamente pelos canais da TV por assinatura. De repente, em um canal que não dá a mínima para o fato de que você está pagando pela programação, você se depara com mais um daqueles famigerados comerciais que duram horas, anunciando coisas como a mangueira Flat Hose ou o aparelho de abdominais Abtronic. São os infomerciais, comerciais que tentam se parecer com um programa normal nos fazendo esquecer que são só mais uma propaganda.

A maioria dos infomerciais é involutariamente engraçada (um sofá inflável!? que vem com uma bomba para inflar "inteiramente grátis"!? ) e cheios de promessas que desafiam o bom senso na maior cara-de-pau, mas até que de vez em quando um ou outro nos faz pensar em botar a mão no cartão de crédito. Nos mais elaborados o apresentador conversa com a câmera como se estivesse num documentário ou num programa de auditório e alguns até trazem uns "especialistas" (a gente sabe na hora que eles são especialistas porque sempre vestem branco) para abalizar a eficácia daquele novo aparelho abdominal ou de algum "revolucionário" gel redutor de celulite.

Bem, quando assisti a "O Segredo" para escrever este novo Guia Cético a impressão que tive foi de estar diante não de um documentário, mas de um longuíssimo infomercial de duas horas anunciando o pensamento positivo no lugar de facas Ginsu ou meias Vivarina.

Faz todo o sentido. Se o Tony Little pode prometer uma barriga tanquinho com apenas 5 minutos de abdominais por dia, não ia demorar mesmo o dia em que alguém prometesse uma barriga sarada sem nem um abdominal sequer ("O Segredo" não menciona nada sobre abdominais esculturais, mas diz que você pode emagrecer comendo qualquer coisa já que comida não engorda, pensamentos sim...). E você também não acha que a Oprah Winfrey está para "O Segredo" meio como o George Foreman está para suas Grelhas Redutoras de Gordura? (essas eu tenho, e "funcionam mesmo!")

Se você não assiste televisão, nunca viu o impagável infomercial do Tony Little e não faz idéia de quem é a Oprah, não se preocupe -- você deve estar gastando o seu tempo bem melhor do que eu. Esta introdução é apenas para que você saiba que o meu objetivo ao longo das duas partes deste Guia Cético será mostrar que "O Segredo" não passa de um produto de marketing muito bem embalado que manipula a ciência e o bom senso da mesma maneira absurda, e às vezes hilária, de um infomercial que vende meia-calça resistente à unhas de gato.

Então sem mais delongas televisivas vamos ao mais que aguardado Guia Cético para Assistir a "O Segredo" - parte 1.



É inevitável começar a escrever sobre "O Segredo" sem compará-lo a "What a Bleep Do We Know"(Quem Somos Nós).

Os dois filmes afirmam que a realidade pode ser fisicamente modificada pela força do pensamento e, para dar uma certa cientificidade a esta idéia, ambos utilizam conceitos distorcidos da ciência, especialmente da sempre maltratada física quântica. Os dois até mesmo dividem alguns de seus notáveis convidados tais como os físicos Fred Alan Wolf e John Hagelin , que praticamente reproduzem em "O Segredo" suas falas de "What a Bleep".

Mas enquanto "What a Bleep Do We Know" foi um filme de baixo orçamento e pequenas expectativas -- o filme estreou em apenas duas salas de cinema nos EUA e se tranformou num sucesso acidental graças ao "boca-a-boca" nos fóruns e listas de e-mail -- "O Segredo" foi um produto minuciosamente concebido para ser um best-seller.

E que best seller! Tanto o DVD quanto o livro chegaram ao topo da lista dos mais vendidos em quase todos os países onde foram lançados. Só o livro já é considerado o maior sucesso editorial do gênero de auto-ajuda de todos os tempos. Nos EUA as vendas foram catapultadas às alturas depois que a apresentadora Oprah Winfrey, uma das personalidades mais influentes no país, dedicou dois programas inteiros e uma grande porção de seu web site a "O Segredo".

"O Segredo" é um filme sobre a Lei da Atração, o princípio segundo o qual nós sempre conseguimos exatamente o que desejamos, nem mais nem menos. De acordo com o filme, este ensinamento -- outrora gravado em pedra (aparentemente a famosa Tábua de Esmeralda, relíquia rosacruciana) -- era conhecido apenas por uns poucos iniciados até o dia em que alguém fez uma cópia ilegal da tábua em papiro e a enterrou sob a pirâmide de Gizé. Alguns séculos depois o papiro foi descoberto por Cavaleiros Templários e confiado ao lendário alquimista Saint Germain, que o decodificou. Ao longo das eras O Segredo veio a ser revelado somente a algumas personalidades notáveis -- Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, Buddha, Winston Churchil e outros -- até chegar às mãos da produtora de televisão australiana Rhonda Byrne (ao lado juntamente com a Oprah) que, a despeito do complô de grupos poderosos para mantê-lo secreto, decidiu transmiti-lo ao populacho na forma de DVDs, livros, áudio-livros, CDs e quinquilharias diversas.


O Verdadeiro Segredo de "O Segredo"
A primeira coisa que você precisa saber sobre "O Segredo" é que ele não conta segredo nenhum (e quando um filme já engana o espectador a partir do próprio título você já pode imaginar o que vem pela frente...).

O pensamento positivo e a Lei da Atração já são a carne-de-vaca do pensamento mágico desde tempos bíblicos. O apóstolo São Marcos já tinha sua própria versão para o peça-acredite-receba de "O Segredo" : "Tudo o que pedirdes na oração, crendo, recebereis"; a versão de Buda era quase a mesma coisa: "Tudo o que somos é o resultado do que pensamos". Mas foi no século 19 que a Lei da Atração explodiu em meio a um movimento místico-religioso que se tornou conhecido por New Thought (Novo Pensamento).

O Novo Pensamento, assim como a Nova Era, têm em suas origens uma miscelânia de "ismos" metafísicos como espiritualismo, hinduísmo, budismo, panteísmo, mesmerismo etc. Mas o Novo Pensamento se diferencia da Nova Era por ser um movimento mais antigo e mais organizado, que cresceu e se mantém graças a centenas de cultos ao redor do mundo, como a Igreja da Ciência Religiosa (!), também conhecida por Ciência da Mente, a Igreja da Ciência Divina (!!), a Igreja Metafísica do Novo Pensamento, no Brasil, e o Seicho No Ie, ramificação oriental, de caráter mais ritualístico, do Novo Pensamento.

Mas atualmente o maior expoente mundial do Novo Pensamento é a Igreja Unitária (Unity Church), também conhecida por Escola Unitária do Cristianismo (Unity School of Christianity), fundada em 1889 pelo vendedor Charles Fillmore. Com mais de 2 milhões de membros e centenas de templos em todo o mundo não se pode dizer que a Igreja Unitária está tentando guardar algum segredo... Fillmore costumava dizer ter pegado o melhor de cada religião e unificado tudo em uma verdade "simplificada" que todos poderiam entender, algo que ele chamava de "cristianismo pragmático". Em outras palavras fez uma mistureba de religião formal com poder da mente. Só para que você entenda o quão distante o resultado ficou do cristianismo original, eis resumidamente alguns dos dogmas da Igreja Unitária:

Deus é a divina mente, o bem absoluto, portanto o conceito de mal é puramente ignorância. Jesus foi simplesmente uma pessoa especial, um "professor". A Bíblia só tem significado profundo quando interpetado metafisicamente. A Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo devem ser interpretados como a Mente, a Idéia e a Expressão.

Apesar de suas origens calcadas no cristianismo protestante, "O Segredo" nega que seus ensinamentos entrem em conflito com as outras religiões, se definindo mais como o menor denominador comum de todas elas. Conforme veremos na continuação deste Guia Cético, nada poderia estar mais distante da realidade.

Para se ter uma idéia de como a Lei da Atração é antiga, já em 1906 William Walker Atkinson, publicava o livro "Thought Vibration or the Law of Attraction in the Thought World" (A Vibração do Pensamento ou a Lei da Atração no Mundo do Pensamento). O livro é até hoje um marco do Novo Pensamento e recentemente foi relançado para pegar um pedacinho do sucesso de "O Segredo" (como tudo o mais que tenha "Atração" e "Segredo" no nome...).

Rhonda Byrne nunca escondeu que o livro que a inspirou a conceber "O Segredo" foi um velho clássico do Novo Pensamento, publicado em 1910: "The Science of Getting Rich" (A Ciência de Como Ficar Rico) de Wallace D. Wattles. Segundo o prefácio este era um livro para aqueles que "precisam de dinheiro mais do que qualquer outra coisa; que querem ficar ricos primeiro e filosofar depois".

Aliás, a ênfase no enriquecimento material em vez do espiritual é o único ponto em que "O Segredo" distoa um pouquinho da doutrina do Novo Pensamento, motivo pelo qual costuma ser criticado por seus adeptos (mas não tãaooo criticado assim... afinal depois do filme as fileiras dos templos como os da Igreja Unitária só fizeram aumentar). Em tudo o mais "O Segredo" é apenas uma reprodução literal dos "evangelhos" do Novo Pensamento.

Concluindo, basicamente o que Rhonda Byrne fez em "O Segredo" foi pegar um assunto surrado, juntar alguns temas da moda (conspirações, códigos escondidos por eras, Cavaleiros Templários, alquimistas), dar ao produto uma embalagem medieval (lacres, tipografia antiga, croquis amarelados etc) e voilá... mais um Código Da Vinci de não-ficção nas prateleiras.


O Pensamento Positivo e a Lei da Atração
Uma coisa sobre o pensamento positivo é que ele funciona de verdade. Ora, e como não poderia? Pessoas que cultivam pensamentos positivos não esmorecem facilmente diante de qualquer obstáculo e por isso têm muito mais chances de atingir seus objetivos. Os que encaram a vida positivamente tendem a cuidar melhor da aparência e da saúde o que alimenta seu círculo virtuoso de auto-estima e lhes dá óbvias vantagens competitivas na vida pessoal e profissional. E quando doentes, os otimistas se recuperam melhor do que os pessimistas, não por causa de alguma força sobrenatural, mas porque em geral têm mais apego à vida, se dedicam mais ao tratamento e podem contar com amigos que nas horas difíceis contribuem com afeto e dedicação.

Sim, o pensamento positivo funciona e o verdadeiro segredo do seu sucesso não reside em teorias esotérico-mirabolantes, mas na soma de uma miríade de fatores ordinários individualmente imperceptíveis. No entanto, como veremos ao longo da segunda parte desse post, existe uma boa distância entre perseguir com uma postura positiva aquele bônus de final de ano e acreditar que sua conta bancária vai aumentar só escrevendo zeros com uma caneta à direita do seu saldo, como afirma "O Segredo".

Já a Lei da Atração, ou a "lei" de que semelhante atrai semelhante, não funciona tão bem como gostariam os adeptos do Novo Pensamento. É verdade que as pessoas tendem a se agrupar em tribos onde seus integrantes compartilham afinidades religiosas, culturais e sociais. E apesar do dito popular de que os opostos se atraem, acho que a maioria concorda que uma relação precisa de mais semelhanças do que de diferenças para funcionar. Por outro lado, se os endinheirados sempre atraíssem outros endinheirados eles não precisariam de carros blindados, e agiotas não teriam lucro fácil se gente com dinheiro demais não atraísse gente com dinheiro de menos.

Se a Lei da Atração parece funcionar tão bem é porque recebe uma boa maõzinha da nossa imaginação (algo melhor condensado na expressão inglesa "wishfull thinking"). Normalmente ninguém conta todas as vezes em que "atraíram" algo que não desejaram de jeito nenhum como uma visita da sogra bem cedinho no domingo ou um pneu furado em dia de chuva (afinal "shit happens!"), mas quando algo que desejamos à beça se concretiza... lá vai mais um ponto para a Lei da Atração!

"O Segredo" ensina que a Lei da Atração pode ser posta em ação pelo trinômio peça-acredite- receba, mas na prática a coisa toda é tão cheia de meandros que deixa bastante espaço para o exercício do wishfull thinking (aceito sugestões para uma tradução elegante). Por exemplo, segundo Lisa Nichols, uma das colaboradoras de "O Segredo", a Lei da Atração na verdade é assim meio como o bordão daquela antiga propaganda de guaraná: tem que saber pedir. Eis o que ela disse à revista Veja (edição de 4 de abril de 2007, que tem o filme na capa):

"Se pedir o que não é melhor pra você, você não ganha. Eu já desejei muito errado. Quis ficar com homens que achava serem perfeitos para mim, mas que não eram. Por isso não consegui."

Em outras palavras meu amigo, não adianta nada pedir a Juliana Paes se o Universo achar que você merece mesmo é a Betty, a Feia.

E se as coisas estão demorando demais a acontecer? A Lei da Atração falhou? Que nada... pode ser que simplesmente não seja ainda a "hora certa". Segundo Marrie Diamond, fengshuista e outra das professoras de "O Segredo", a Lei da Atração tem uma espécie de dispositivo que impede que você consiga tudo o que quer ao mesmo tempo, provavelmente para não enfartar de felicidade o desejante:

Sempre sonhei ir ao Brasil. Estar conversando com você [o jornalista da Veja] é um sinal de que isso vai se realizar. Mas as coisas têm que acontecer na hora certa. Não dá pra ter tudo ao mesmo tempo.

Por segurança é melhor não ser muito específico ao encomendar seu objeto de desejo, ou você corre o risco de não ter muita utilidade para aquele iPhone de 8GB quando, daqui a 10 anos, o Universo finalmente decidir que a "hora certa" chegou.

E o Jonh Hagelin? Lembram-se dele? O físico que acredita que a meditação reduz a criminalidade? Ele disse à mesma revista:

"Não há o perigo de todas as pessoas de Nova York desejarem um carrão e todas conseguirem. Primeiro porque só as pessoas com verdadeiro poder de pensamento vão conseguir, e elas são poucas. Segundo porque se uma coisa não atende ao bem comum a mente desenvolvida não a deseja."

Eu não só tenho uma mente "desenvolvida", como realmente acredito que o iPhone atende ao bem comum de transformar o mundo num lugar melhor, um mundo onde as pessoas possam ser mais felizes deslizando seus dedos pela tela, em vez de sofrer com aquelas teclinhas minúsculas no meio do aparelho. Posso pedir o meu agora? rápido, enquanto eles ainda tem a coisa em estoque?


A Ciência em "O Segredo"
Até aqui tudo o que eu fiz foi mostrar que a coisa mais secreta em "O Segredo" são os detalhes de sua campanha de marketing. Se a moda de reciclar velhos esoterismos pega, daqui a pouco homeopatas, fengshuistas, radiestesistas, astrólogos... todos vão ter algum segredinho para contar por R$ 39,90. Quanto ao pensamento positivo, ninguém pode discordar que mesmo não tendo ele nada de mágico ainda assim é algo que deve ser cultivado (desde que você simplesmente não vá se sentar sobre ele enquanto espera que o Universo providencie seus desejos).

Na próxima parte deste Guia Cético vamos debulhar a ciência em "O Segredo" e desmontar todas as falácias, mentiras, exageros e simplificações que este longo infomercial comete para vender o pensamento positivo.


Segunda parte >>


PS: Foi mal a demora!

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