10.1.08

Põe na conta do aquecimento global

Outro dia recebi aqui em casa, gratuitamente, a edição de janeiro da revista mineira "Encontro".

A "Encontro" é uma revista até bem caprichada, com papel bom, diagramação decente, entrevistas com gente de peso (essa trazia o ministro Ciro Gomes), muita propaganda do governo estadual e muitas colunas sociais. Sempre a vejo aos montes em cafés e consultórios de dentistas aqui por BH.

Então ali estava eu, folheando casualmente a "Encontro" e pensando comigo que papel eu tinha assinado para receber a revista de graça, quando descobri o suplemento que vinha junto com ela, chamado "Encontro Ambiental". Na capa deste uma pequena manchete chamou minha atenção: "Clima Ruim -- Aquecimento Global faz Mal para a Saúde". O que veio a seguir, meus amigos, foi a pior peça jornalística que eu vi em muito tempo. Eis como tudo começava:

O último relatório de avaliação do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU mostra que as temperaturas mundiais poderão sofrer, até o fim do século, um aumento de 1,4 a 5,8 graus celsius. A variação aponta para consequências nada animadoras como furacões, terremotos, inundações em algumas partes e desertificação em outras, extinção de espécies, fome, doenças, miséria...

Alguém pode me explicar como o aumento da temperatura pode causar terremotos!? Parece mais que a autora, sem fazer pesquisa nenhuma, jogou todas as catástrofes que pôde imaginar numa mesma enumeração. Faltaram apenas o impacto de um asteróide gigante e o Godzilla.

Ainda assim, desconfiado de tanta tragédia junta procurei o resumo do relatório do IPCC que a autora cita. Pelo que li, no caso dos furacões, o IPCC reconhece que não existe nenhuma evidência nos poucos dados disponíveis de que eles vêm se tornando mais freqüentes por causa do aumento da temperatura dos oceanos. Diga-se de passagem que, segundo o IPCC, no hemisfério sul a temperatura dos oceanos não aumentou nem um tiquinho no último século.

Mais alguns parágrafos, todos muito ruins, e vinha o seguinte:

"O aquecimento global também traz preocupação quando o assunto são as doenças vetoriais, como a dengue e a malária. (...) prevê que o aquecimento possa provocar epidemias das duas doenças, com efeitos catastróficos. (...) Em todo o país, o número de casos de dengue notificados até meados deste ano superou em 20% o total do mesmo período de 2006. Pode ser por causa do aquecimento global que favorece a multiplicação do mosquito durante todo o ano."

Pode ser, mas não é. O verdadeiro motivo para o aumento do número de casos da doença não só no Brasil, mas nos outros países subdesenvolvidos, é que aparentemente o Aedes Aegypti evoluiu e desenvolveu imunidade ao veneno tradicionalmente usado para combatê-lo; para piorar o danado agora é capaz de se reproduzir também em água suja e até sem água.

De qualquer maneira colocar a culpa no aquecimento global por alguma coisa só comparando os dados de um ano com o anterior é o pior exercício de estatística que eu já vi. Ainda mais que a autora nem se preocupou em saber se 2007 foi mesmo mais quente que 2006.

E a jornalista seguia colocando vítimas na conta do aquecimento global:

"Mais: estudos mostram que, com as mudanças climáticas, cerca de 20 a 30% dos vegetais e animais poderão ser extintos. Com isso haverá redução do alimento. Menos alimento, mais fome, mais desnutrição e morte. Sabe-se também que a água potável vai ficar mais escassa. Menos água, mais desidratação e morte. E o efeito cascata está formado."

Eu não sei de onde a autora tirou esses dados, mas as pesquisas têm mostrado que tanto as florestas tropicais quanto a agricultura estão na verdade se beneficiando do aquecimento global, já que com mais CO2 no ar e mais tempo de luz solar -- que compensa a quantidade menor de chuvas na época da seca -- a fotossíntese é favorecida. Graças a isso, no geral, a produção de alimentos deve aumentar com o aquecimento global, não o contrário.

A extinção de até 1/4 das espécies animais e vegetais, que de fato é apregoada por alguns cientistas, é uma coisa terrível sem dúvida, mas de fome só vão morrer por causa disso as pessoas que tiverem uma dieta baseada em ursos polares, lêmures, algumas espécies raras de sapos e certas aves (que não o frango).

O quadro de desidratação e morte que a autora pinta tampouco é verdadeiro, embora nesse caso ela seja apenas mais uma indolente vítima da eco-paranóia que predomina na mídia. O próprio IPCC afirma que não vai faltar água em toda a parte. As regiões mais afetadas por secas serão aquelas onde o líquido provém exclusivamente das chuvas; nas regiões mais altas, que dependem do degelo das montanhas, como boa parte da Ásia, vai haver mais água, não menos.

Quando eu achava que já estava preparado para tudo, o texto continuava assim:

"Hoje se tem uma série de alterações por causa do clima. Este ano, por exemplo, devido ao clima frio e seco, aumentou muito o índice das doenças de inverno, como pneumonias, asma e descompensação de doença pulmonar obstrutiva crônica.".

Me corrijam se eu estiver errado mas se no aquecimento global o planeta fica mais quente, por que deveríamos temer as doenças de inverno? Eu não sou médico nem nada, mas pelo que eu entendi vão haver menos casos de pneumonias, asmas e descompensação de doença pulmonar obstrutiva crônica se os invernos forem mais moderados, não é?

O trecho acima vinha acompanhado da figura de um menininho fazendo uso de um inalador, com a seguinte legenda:

"O clima seco favorece o crescimento de casos de doenças respiratórias nas crianças."

É difícil entender como a autora chegou a conclusão nada óbvia (e até anti-intuitiva; o que é estranho já que intuição é tudo o que ela parece ter usado para escrever) de que o clima vai ficar mais seco com o aquecimento global.

Como a capacidade do ar de reter o vapor de água aumenta exponencialmente com a temperatura, a umidade específica deverá aumentar com o aquecimento global, não diminuir. Como com isso aumentam também a evaporação e a precipitação, aumentam junto o risco de chuvas torrenciais e inundações.

Não correu muita tinta e a autora conseguia dizer mais uma bobagem:

"O professor (...) afirma que teoricamente as doenças de pele serão mais incidentes. 'Principalmente as relacionadas ao verão, como câncer de pele, assaduras, micoses e foto-envelhecimento' exemplifica. Os raios ultravioleta também podem ser maléficos aos olhos. Segundo o oftalmologista (...) quanto mais a pessoa ficar exposta ao sol, principalmente sem proteção de óculos escuros, maiores as chances de desenvolver problemas oculares, como a catarata."

O aumento da exposição aos raios ultravioleta, que causa todos os males citados acima, com exceção das micoses e assaduras, são uma conseqüência de outro efeito que nada tem a ver com o aquecimento global: o buraco na camada de ozônio.

O buraco na camada de ozônio é uma diminuição da concentração de ozônio da atmosfera causada pela emissão de clorofluorcarbonetos (CFC), presentes principalmente em aerossóis e equipamentos de refrigeração (diferentemente do CO2 que causa o aquecimento global, só o homem produz CFC, então não dá pra dizer que não foi a gente que estragou o planeta ou, como diria o Homer Simpson, que já estava assim quando chegamos...). Como o ozônio é responsável pela absorção da maior parte dos raios ultravioleta do sol, acredita-se que sem esta camada protetora a vida na Terra estaria mais sujeita aos efeitos nocivos da radiação (embora, pela falta de dados históricos, ainda não seja possível afirmar que houve realmente algum aumento na incidência de raios ultravioleta).

E como pièce de résistance:

"A temperatura mais quente propicia ainda o aparecimento nos pés, de frieiras e micoses de unha. (...) Outra consequência, na opinião da especialista, é o distúrbio da sudorese. 'Ora a pessoa vai transpirar muito, ora transpirar pouco. Isso pode levar ao distúrbio da sudorese, que causa o aparecimento de cravos plantares.' "

Ou seja, por causa do aquecimento global as pessoas vão suar mais. Tudo bem, de alguma maneira eu já esperava por isso. Agora culpar o aquecimento global por... frieiras? Aquele negócio que se evita com uma toalha seca e um pouquinho de higiene?

Errado não está, mas eu me pergunto: se alguém estivesse compilando uma lista das coisas ruins causadas pelo aquecimento global, começando por "aumento do nível dos oceanos" bem no topo, seguido de "proliferação de malária e dengue", "inundações" e "extinção de espécies" logo abaixo, será que haveria realmente espaço nessa lista para "aumento da incidência de frieiras"?


Discutir os efeitos do aquecimento global e o papel do homem nele é uma tarefa espinhosa, com argumentos mais políticos do que científicos de ambos os lados (argumentos que eu não estou preparado para endossar ou refutar nesse momento). Compreensivamente os jornalistas que embarcam nessa tarefa quase sempre abraçam por default este irresistível discurso eco-paranóico pré-apocalíptico. Neste sentido a única novidade do artigo da revista "Encontro" foi saber que caminharemos para o Armagedon com os pés cheios de frieira...

18 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Widson, me parece que existe sim uma correlação (correlação não é prova)entre o efeito estufa e a variação do tamanho do buraco na camada de ozônio, que depende da variação da temperatura. Não sei ao certo. No entanto isso não alivia em nada as bobagens ditas pela jornalista. Muito bom seus comentários sobre a paranóia do aquecimento global.
Jamil

11:40 AM  
Blogger Ítalo Moraes Rocha Guedes said...

Excelente post, na verdade um dos melhores que já li demonstrando o despreparo de boa parte da mídia para comunicar ciência. Quanto à correlação com o buraco na camada de ozônio, não sei se é exatamente com o aquecimento global, mas tem-se sugerido que o aumento das emissões de CO (monóxido de carbono, que não é um gás de efeito estufa) pode reagir com o ozônio e formar CO2 (dióxido de carbono, que é o principal gás de efeito estufa). Em meu blog Geófagos tenho abordado bastante as causas, a química e as possíveis soluções para as mudanças climáticas globais, dêem uma olhada em:
http://geofagos.wordpress.com
Continuem com o ótimo trabalho.

12:39 PM  
Blogger Wagner said...

Exsitem também alguns estudos que afirmam que o tal aquecimento pode ser causado por conta de uma fase do movimento da Terra (esqueci o nome...lol) estar mais próximo do Sol. Ou seja, como disse o Wilson ae no post, as discussões ainda são mais políticas do que cintíficas e motivos para o aquecimento são tantos que ainda não há posição firmada sobre o assunto. Por via das dúvidas, acabei de ir na farmácia para comprar uns cremes pra frieiras...

1:16 PM  
Blogger Luiz Amadeu Coutinho said...

hauahauahau

Nunca ri tanto com um assunto tão sério.

Essa paranóia alarmista já está se tornando comédia.

Pior é saber que a maioria que lê o "artigo" da brilhante autora, vai sair correndo pra estocar comida, água e remédio pra frieira...ou algo assim.

Parabéns pela critica construtiva

Luiz Amadeu Coutinho
Geógrafo
Geoinformação Online

2:30 PM  
Blogger widson porto reis said...

Valeu pessoal!

Jamil,realmente existe uma ligação entre os dois efeitos, mas ela é meio indireta. Como o CO2 impede a passagem do calor, a estratosfera acaba ficando mais fria o que teoricamente facilita a reação do Ozônio com o CFC, podendo aumentar o tamanho do buraco.

[]s
Widson

12:51 AM  
Anonymous marcus vinícius said...

Excelente post!
Com todo esse discurso apocalíptico da mídia, daqui a pouco o alarde será tão grande que ao invés de tentarem consertar a situação, o povo vai é pensar: "Dane-se, é irreversível mesmo, vamos poluir a vontade".

E enquanto o Wagner vai comprar cremes pra frieira, eu vou é construir meu abrigo subterrâneo, por via das dúvidas.

2:13 AM  
Blogger blanemagic said...

Esta postagem foi removida pelo autor.

3:52 PM  
Blogger blanemagic said...

Olá Widson!
Parabéns pelo post!

Você disse:
"Me corrijam se eu estiver errado mas se no aquecimento global o planeta fica mais quente, por que deveríamos temer as doenças de inverno?"

Apesar da aparente discordância lógica, parece que os efeitos climáticos andam provocando verões mais quentes e invernos mais frios mesmo (não sei se em todo o mundo). Se não me engano, isso foi dito em uma palestra intitulada "Aquecimento Global, para onde estamos indo com o clima do planeta?", promovida pelo Instituto de Física de São Carlos/USP e ministrada pelo Prof. Dr. Paulo Artaxo, docente do Instituto de Física, da USP-São Paulo. Esta e outras palestras constam no acervo da biblioteca do Instituto de Física de São Carlos/USP (http://dedalus.usp.br:4500/ALEPH/POR/IFS/IFS/IFSC/FIND-ACC/0090187).

Espero ter ajudado!

Abraços!

3:54 PM  
Blogger widson porto reis said...

Oi blanemagic,

Realmente isso contraria tudo o que já li a respeito, tanto das fontes oficiais quanto dos "céticos" do aquecimento global (o que só mostra o emaranhado confuso de informações que o assunto virou).

Em todo o caso, considerando o conjunto da obra, acho que dá pra garantir que a autora do artigo não pensou nisso...

[]s
Widson

4:15 PM  
Blogger Chantinon said...

Hummm...
Finalmente consegui um culpado para apresentar ao gerente do banco. _Pois é Tadeu, o aquecimento me fudeu!

Hoje tive que pesquisar sobre E3, e acredite, é um papo super sério... mas o google só me levava a uma feira de games.

O que tem de site e empresas natimortas, jogando o maior papo furado para ganhar uns "dola" é brincadeira!

Metade do mundo hoje é idiota, o restante se divide entre malandros e vítimas!

(Sugestão: Tirar esse negócio de verificação de palavras, é muito chato!)

7:52 PM  
Anonymous Anônimo said...

Widson, muito bom o seu blog. Gostei.

Tenho uma pergunta, bem generalista, a te fazer: Qual a sua opinião sobre o aquecimento global?

Ah, e esse catastrofismo criado pela mídia é de doer mesmo.

Abraço.

1:06 PM  
Anonymous Paulocesar said...

Widson
Sempre que posso faço uma visita por aqui.

Com relação à dengue, o sistema de monitoramento da resistencia do vetor Aedes aegypti indica, quando se detecta sinais de resistencia ao temefós (é um processo de seleção natural) a substituição por um de outro grupo de inseticida (Bti por exemplo, no caso de larvicidas ou de piretróide par fosforado ou vice versa).
Na realidade a questão dele se desenvolver "até sem água", é um fato há muito conhecido, ou seja, os ovos entram em diapausa quando o criadouro seca, e podem ficar viáveis por mais de 400 dias, ao se hidratarem os ovos eclodem. Por isso a danada da femea não coloca os ovos na água e sim na "linha de água". Este fato colabora para a dispersão do vetor, principalmente em pneus. O maior problema é que o aedes é manso como um gato (vive na maioria das vezes dentro de casa).
Cada gestor municipal precisa fortalecer seus programas de controle vetorial e a população colaborar.

Realmente, não se pode colocar tudo na conta do aquecimento global...

Paulo Cesar

9:15 PM  
Anonymous Anônimo said...

Boa risadas, Widson, boas risadas! Gostei muito.

É muito bom ver que o Dragão acordou!

Abraço,

Marcelo
www.TecnoCientista.indo

12:42 AM  
Anonymous Benjamim said...

Comentários esparsos sobre o seu post.

*Tá, peraí, é aquecimento global ou Ragnarök??? Pô, tá certo que aquecimento global é algo que merece devidas considerações, e tal... mas associá-lo com movimentos tectônicos, como terremotos, é demonstrar ignorância extrema.

*Aquecimento vs. dengue: o máximo que faria é o mosquito migrar de regiões mais quentes para as mais frias, de acordo com a temperatura aumentando. Mas isso é pouca-merda, se a gente comparar com a imunidade ao veneno, como você disse.

*O problema da fome se resume a uma coisa: superpopulação. 6 bilhões é muita gente.

*Estudos indicam que um LEVE aquecimento global pode levar a áreas como a Europa a uma mini era glacial, devido à mudança dos sentidos das correntes marítimas e com isso o fluxo de calor da Terra.

*O buraco na camada O3 e o aquecimento PODEM estar relacionados, mas o que se disser além disso é merda-de-touro (bullshit).

Excelente texto, Windson. Me fez rir com as presepadas da jornalista, e só mostra que jornalistas não costumam saber do que falam.

4:02 PM  
Anonymous Anônimo said...

Pior que, esse tipo de #$#@$#@%#@% que uns escrevem achando que o aquecimento global aumenta o número de ataques de zumbis e torna a Terra mais suscetível ao impacto com asteróides, alimenta os argumentos dos "céticos" do aquecimento global, fazendo parecer que é só mais uma teoria do fim do mundo conspiracionista inventada pelo Al Gore no ano passado, com o lançamento do "inconvenient truth".

9:01 PM  
Blogger Atila Iamarino said...

Muito bom Widson! Fico feliz que no meio desse clima apocalíptico de notícias sobre aquecimento global (foi involuntário o uso da palavra clima ali em cima) alguém mostra sensatez para separar especulação (que é o que os cientistas fazem por enquanto) de pura viagem. Impressionante quanta coisa pode ser culpa do efeito estufa...

1:59 AM  
Blogger widson porto reis said...

(...) alimenta os argumentos dos "céticos" do aquecimento global, fazendo parecer que é só mais uma teoria do fim do mundo conspiracionista inventada pelo Al Gore no ano passado, com o lançamento do "inconvenient truth".

Olha, o que os céticos do aquecimento global argumentam é que não dá pra dizer com certeza que o aquecimento global é culpa da emissão de CO2 pelo homem; é mais provável, dizem eles, que o planeta esteja passando por um ciclo natural e que a maior quantidade de CO2 no ar seja consequência, não causa, do aquecimento.

Tente assistir o documentário "the great global warming swindle", acho que dá pra encontrar com legendas em espanhol.

[]s
Widson

12:09 AM  
Anonymous Anônimo said...

widson, estou passando mal de tanto rir....

sua escrita é fantástica!

abç

A.

11:32 PM  

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